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    Forbes Brasil·28 de out., 20:01

    A Agricultura entre o Excesso e a Falta. Como Produzir sob Extremos Climáticos

    Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo. Em uma única safra, uma mesma lavoura pode enfrentar excesso de chuva, estiagem, temperaturas elevadas e ondas de calor. O desafio da agricultura contemporânea, portanto, já não é apenas produzir mais, mas manejar em um ambiente cada vez mais instável e preservar o potencial produtivo diante de condições adversas.

    A dimensão desse desafio fica evidente nos impactos sobre a produtividade. Em trabalho publicado pela Embrapa Soja em 2026, considerando cinco décadas, as perdas de produção de soja associadas a eventos de seca representaram 11,65% da produção nacional. Se esse percentual fosse aplicado aos 180,4 milhões de toneladas estimados pela Conab para a safra 2025/26, equivaleria a aproximadamente 21 milhões de toneladas de soja.

    Em um país de dimensões continentais como o Brasil, o cenário é ainda mais complexo. A safra 2026/27 será marcada pela influência de um El Niño muito forte, com efeitos distintos entre as regiões. Enquanto o Sul apresenta maior probabilidade de chuvas acima da média, grande parte do Centro-Norte está mais exposta a períodos de chuva abaixo da média, temperaturas elevadas e maior risco de déficit hídrico.

    Não podemos controlar o clima. Podemos, porém, preparar o sistema produtivo para responder melhor aos seus extremos. Menos reação, mais estratégia Sob altas temperaturas e déficit hídrico, a planta fecha os estômatos para reduzir a perda de água, uma resposta mediada pelo ácido abscísico (ABA).

    Isso diminui a transpiração, mas limita a entrada de CO₂ e reduz a fotossíntese. Com menos transpiração, a folha também perde resfriamento e aquece mais, o que favorece o estresse oxidativo e danos ao aparato fotossintético. O resultado é menor produção de fotoassimilados, comprometendo o crescimento e o potencial produtivo.

    No extremo oposto, excesso de chuva e baixa luminosidade também afetam a fisiologia vegetal. A menor disponibilidade de radiação limita a fotossíntese, enquanto o encharcamento reduz o oxigênio disponível às raízes, prejudicando a respiração radicular e a absorção de nutrientes. Seja pela falta, seja pelo excesso, a planta direciona recursos para responder ao estresse , limitando a expressão de seu potencial produtivo.

    Por isso, o manejo precisa começar antes que o problema se manifeste. A resiliência começa no solo e chega à planta Um solo bem estruturado favorece a infiltração, o armazenamento e a disponibilidade de água, além do desenvolvimento das raízes. Na estiagem, isso amplia a capacidade da planta de acessar água; sob chuvas intensas, favorece a infiltração e reduz o escoamento superficial.

    A questão, portanto, não é apenas quanta água existe no sistema, mas quanto dela a planta consegue efetivamente acessar e utilizar. A mesma lógica vale para a nutrição. Não basta considerar quanto nutriente é aplicado, mas sua disponibilidade quando a planta mais precisa.

    Nesse contexto, a nutrição foliar pode complementar o manejo, contribuindo para a manutenção do metabolismo e da atividade fisiológica. Cultivares adaptadas, plantio direto e, quando tecnicamente indicados, tecnologias à base de microrganismos, indutores de resistência, extratos vegetais, condicionadores de solo e estratégias para mitigar o estresse térmico podem integrar um programa de manejo voltado à construção de um sistema produtivo mais resiliente. Investimento consciente e ferramentas biológicas Diante das incertezas climáticas, reduzir investimentos pode parecer uma resposta natural.

    Mas retirar ferramentas importantes justamente quando o ambiente se torna mais desafiador também pode aumentar a vulnerabilidade da lavoura. Tecnologias nutricionais e fisiológicas, quando adequadamente selecionadas, posicionadas e respaldadas por evidências de eficácia, não eliminam o risco climático nem substituem práticas agronômicas fundamentais. Podem, porém, complementar estratégias destinadas a mitigar os efeitos das adversidades e preservar o potencial produtivo.

    Uma meta-análise global publicada em 2026 pela revista Frontiers in Plant Science revisou 198 artigos científicos sobre o uso de extrato de algas em diferentes cultivos e concluiu que essa tecnologia, cada vez mais presente nas formulações de produtos premium para nutrição e fisiologia de plantas, resultou em incremento médio de 16,3% na produtividade. Outros estudos (Santos, 2024; Crivellaro, 2024) demonstraram que o uso de extrato de algas, em anos sob estresse hídrico, resultou em aumento de 27% na produtividade — número que pode ser determinante para a saúde financeira do negócio agrícola. De forma semelhante, uma recente revisão sobre substâncias húmicas e resiliência ao estresse abiótico, publicada em 2026 na revista Plant Physiology and Biochemistry, destaca efeitos positivos dessas substâncias na mitigação dos danos causados às plantas.

    O trabalho ressalta a proteção conferida às funções das membranas, ao transporte de íons, ao equilíbrio redox e à fotossíntese. Construir o presente para sustentar o futuro O ponto central não é simplesmente investir mais ou menos, mas investir melhor: selecionar tecnologias e práticas capazes de entregar retorno agronômico nas condições específicas de cada lavoura. A agricultura do presente exige sistemas preparados para conviver com aquilo que não podemos controlar.

    Isso significa construir solos mais funcionais, plantas mais equilibradas e estratégias capazes de antecipar riscos. Em um ambiente de extremos, produzir com resiliência será cada vez mais determinante para a competitividade, a rentabilidade e a permanência do agricultor na atividade. *Talita Cury é empresária e sucessora do Grupo Santa Clara, com mais de 20 anos de experiência no setor.

    Formada em Direito com especialização em Direito do Agronegócio e MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas. Atualmente exerce a função de Conselheira de Administração do Grupo Santa Clara e está à frente das Relações Institucionais da companhia, além de atuar na estruturação da pasta ESG, do planejamento estratégico, da sucessão familiar dos negócios, assim como atuar nos comitês de riscos e de crédito&cobrança. Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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