A bússola do centrão
O centrão chega às negociações para o quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva com duas frentes abertas: a participação no governo e a preservação da influência no Congresso . Enquanto dirigentes de partidos que apoiaram Flávio Bolsonaro retomam o diálogo com o presidente reeleito, as articulações pelas presidências da Câmara e do Senado aproximam lideranças de centro do Planalto. A formação de uma base estável, porém, ainda depende de compromissos que se confirmem nas votações.
Lula pretende começar as conversas sobre a composição do governo depois do feriado de Finados, com o presidente do PT, Edinho Silva, à frente das primeiras negociações. O desenho em discussão prevê vincular o espaço dos partidos nos ministérios à expectativa de votos favoráveis às pautas do Executivo . A meta relatada por aliados é concluir a composição da Esplanada até 20 de dezembro.
Os acordos ainda estão em negociação. Reaproximação antes da coalizão Leandro Gabiati, cientista político, analisa as negociações do Centrão com o governo Lula e as disputas pelo comando do Congresso | Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal Para o cientista político Leandro Gabiati, uma aproximação pragmática, com compromissos menos sólidos, tem hoje mais força do que a adesão formal dessas legendas ao governo. “Antes de pensar em formar parte de uma coalizão de governo para apoiar Lula, é preciso ter uma reaproximação que permita o diálogo entre esses partidos e o presidente”, afirma Gabiati.
” Segundo o cientista político, alguns canais de negociação já começaram a ser abertos. É a partir dessas conversas que será possível avaliar a extensão dos compromissos com o Planalto. “As possibilidades vão de uma reaproximação pragmática e uma coalizão menos sólida até uma adesão formal que inclua uma aliança estável", diz.
” Dirigentes sinalizam diálogo e apresentam condições As manifestações dos dirigentes oferecem pistas sobre as condições dessa aproximação. O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, divulgou uma nota na segunda-feira 26 em que cumprimentou Lula e Geraldo Alckmin e apresentou prioridades para a atuação do partido. Entre elas estão equilíbrio fiscal, redução das desigualdades e confiança para o investimento privado.
v=XpxXtEAZY_o Kassab também mencionou ciência, inovação, saúde e educação. Afirmou que os parlamentares e governadores eleitos pelo PSD defenderão os “bons projetos” e manterão uma “relação republicana com o governo federal”. A declaração oferece espaço para colaboração, associado ao conteúdo das propostas que chegarem ao Congresso.
No Republicanos, Marcos Pereira cobrou respeito aos eleitores do adversário e interlocução com o Legislativo . Lula deverá governar “inclusive os que votaram em Flávio Bolsonaro, com respeito às diferenças e diálogo com o Congresso Nacional”, escreveu o dirigente. A manifestação veio depois do apoio formal do Republicanos a Flávio no segundo turno.
Ao anunciar aquela aliança, em 7 de outubro, Pereira já havia preservado a autonomia diante de particularidades estaduais e apresentado uma agenda que incluía reforma administrativa, responsabilidade fiscal e segurança jurídica. Baleia Rossi, presidente do MDB, reconheceu a vitória de Lula e desejou serenidade ao petista. O Podemos, comandado por Renata Abreu, declarou que seguirá atuando com independência no Parlamento.
Os posicionamentos mantêm os canais institucionais abertos, mas não definem o comportamento das bancadas em 2027. Ministérios e emendas entram na negociação Gabiati estabelece uma diferença entre os cumprimentos ao presidente e a construção de uma maioria: “Cumprimentar Lula é um gesto institucional, enquanto o apoio efetivo aparece quando há votos”, diz. A negociação envolve também os instrumentos de influência dos partidos sobre o Executivo e de atendimento às bases eleitorais.
“A combinação inclui espaços de poder no governo e liberação de emendas, por exemplo”, afirma o cientista político. + Saiba mais de Política em Oeste Na montagem da próxima gestão, Lula pretende ampliar o papel de Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União-AP) na articulação da base parlamentar. Os dois estiveram com o presidente no Palácio da Alvorada na segunda-feira 26 e buscam a recondução aos comandos da Câmara e do Senado .
PP, Republicanos e União Brasil já discutem possíveis representantes no governo. Entre os nomes mencionados nas conversas estão Silvio Costa Filho, pelo Republicanos; Moses Rodrigues, pelo União Brasil; e Aguinaldo Ribeiro ou Daniella Ribeiro, pelo PP. São possibilidades em circulação nas legendas, sem nomeações definidas.
Motta entre o apoio do PT e a aproximação do PL A aproximação com o Planalto ocorre paralelamente à disputa por espaço no Legislativo . Em 14 de outubro, dez partidos anunciaram apoio à recondução de Motta. O grupo reúne PSD, Republicanos, MDB, Podemos e as federações União Brasil–PP, PSDB–Cidadania e PRD–Solidariedade.
Na terça-feira 27, PT, PCdoB e PV também declararam apoio ao atual presidente da Câmara. A composição, entretanto, ainda pode mudar. O PL avalia integrar a articulação de Motta para preservar espaços na Mesa Diretora e nas comissões.
A aproximação seria defendida pelo presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, diante do risco de a maior bancada eleita ficar em desvantagem na distribuição dos postos. O movimento enfrenta resistência do PT, que sinalizou não aceitar dividir o bloco com os liberais. Motta terá de administrar os interesses dos partidos que já o apoiam e as demandas de uma bancada de oposição interessada em ampliar sua influência.
A escolha do presidente da Câmara ocorre por voto secreto, o que também impede tratar os apoios partidários como votos garantidos. Alcolumbre busca votos e enfrenta dissidências O presidente da Câmara, Hugo Motta, o presidente Luiz Inácio Lula Da Silva e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil No Senado, Ciro Nogueira, presidente do PP, e Antonio Rueda, presidente do União Brasil, assinaram uma nota em defesa da reeleição de Alcolumbre. Os dirigentes destacaram sua capacidade de construir consensos e reafirmaram uma “trajetória de parceria, confiança e compromisso político” com ele.
A orientação encontrou resistência dentro do próprio PP. Eleito senador por São Paulo, Guilherme Derrite anunciou que não votará em Alcolumbre e defendeu uma candidatura unificada da direita. O PL marcou para 4 de novembro uma reunião para decidir se lançará Rogério Marinho (PL-RN) à Presidência do Senado.
Parte da oposição defende um entendimento entre ele e Tereza Cristina (PP-MS) para evitar a divisão dos votos contrários à permanência de Alcolumbre. Alcolumbre também busca apoio entre oposicionistas. As conversas incluem a discussão de um possível perdão a Jair Bolsonaro, assunto que provoca resistência entre governistas e cobranças de integrantes da direita por resultados antes da eleição interna.
Não há um acordo concluído sobre o tema. As negociações pelo governo e pelas Mesas do Congresso se cruzam, mas um acordo sobre quem comandará as Casas não assegura apoio permanente ao Executivo. A bússola do Centrão começa a apontar para o diálogo com Lula; a intensidade dessa aproximação será medida nos compromissos assumidos e, como observa Gabiati, nos votos.
Leia também: “O general da mentira” , reportagem de Anderson Scardoelli publicada na Edição 347 da Revista Oeste O post A bússola do centrão apareceu primeiro em Revista Oeste . ]]>
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