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    A crise da muçarela: como os protestos na Itália se tornaram uma ameaça a um patrimônio cultural
    InvestNews·23 de out., 14:20

    A crise da muçarela: como os protestos na Itália se tornaram uma ameaça a um patrimônio cultural

    A muçarela de búfala italiana ganhou destaque nesta semana não por sua qualidade ou fama internacional, mas por uma crise que mostrou como a interrupção do transporte pode comprometer o abastecimento de alimentos de um país. No sul da Itália, protestos de caminhoneiros contra a alta do diesel impediram a entrega de leite aos laticínios, paralisaram a produção de queijo e deixaram supermercados sem produtos. O problema tem uma particularidade: o leite de búfala precisa ser processado em até 60 horas após a coleta, conforme as regras de produção da Mozzarella di Bufala Campana DOP, denominação que certifica a origem e os métodos de fabricação do queijo.

    Sem conseguir transportar a matéria-prima no prazo necessário, os fabricantes foram obrigados a suspender as atividades. Leia também Economia Petróleo sobe 4% na semana e supera US$ 114 com ataques à Arábia Saudita Economia Energia de sobra, a conta que não baixa: o nó elétrico que fica para o próximo governo O consórcio responsável pela proteção da Mozzarella di Bufala Campana DOP, que reúne cerca de 100 fabricantes, informou que seus associados interromperam a produção por três dias devido à falta de leite. Em condições normais, o setor processa aproximadamente 1 milhão de litros por dia, produzindo cerca de 250 mil quilos de muçarela fresca.

    Pier Maria Saccani, diretor-geral do consórcio, estimou perdas de receita de € 3 milhões (cerca de US$ 3,5 milhões) por dia para os fabricantes associados enquanto durassem as interrupções. Crise vai além da muçarela A paralisação do transporte também afetou fabricantes de massas, produtores de tomates e outros vegetais. Empresas do setor de massas enfrentaram dificuldades para receber trigo, enquanto agricultores tiveram problemas para escoar a colheita, deixando alimentos perecíveis sujeitos a estragar antes de chegar aos mercados.

    Fabricantes de massas, da região da Puglia, perdeu três dias de produção. Segundo Vincenzo Divella, gerente da empresa, as perdas chegaram a centenas de milhares de euros. O negócio já enfrentava pressão dos custos de energia e transporte.

    Caminhoneiros bloqueiam uma entrada do porto de Nápoles durante protesto contra os altos preços dos combustíveis, em 19 de outubro. Foto: Ivan Romano/Getty Images. Os supermercados também foram atingidos.

    Em algumas áreas do sul italiano, prateleiras ficaram vazias tanto pela falta de entregas quanto pela corrida dos consumidores para estocar alimentos após notícias sobre a escassez. O impacto foi amplo porque quase 90% dos alimentos na Itália são transportados por rodovias, segundo a Bloomberg. Varejistas estimaram inicialmente prejuízos de dezenas de milhões de euros, enquanto parte dos produtos perecíveis retidos em depósitos precisou ser descartada.

    Por que os caminhoneiros estão protestando? Os caminhoneiros iniciaram as manifestações em meados de outubro, em reação à alta do diesel e ao aumento dos custos de operação. O combustível ficou cerca de um terço mais caro do que antes da guerra envolvendo Estados Unidos e Irã, segundo a Associated Press.

    A pressão aumentou após o fim, no início de outubro, de um desconto temporário nos impostos sobre o diesel. Para as transportadoras, o problema não se limita ao preço nas bombas. O setor também cobra a liberação de compensações fiscais prometidas anteriormente e medidas que permitam repassar as variações do combustível aos clientes.

    Os custos de pedágios e do transporte de caminhões em balsas também pesam nas operações, especialmente nas rotas que ligam a Sicília e outras regiões do sul ao restante do país. O Brasil enfrentou uma crise semelhante em maio de 2018, quando a insatisfação com os aumentos do diesel levou a uma greve nacional de caminhoneiros que durou dez dias. A paralisação provocou falta de combustíveis e alimentos e afetou a atividade econômica.

    Para encerrar o movimento, o governo anunciou uma redução de R$ 0,46 por litro do diesel e outras medidas para atender às reivindicações dos transportadores. Diante da pressão, o ministro dos Transportes, Matteo Salvini, negociou com representantes das associações do setor. O governo se comprometeu a liberar créditos tributários para compensar parte dos gastos com diesel e recursos para a renovação da frota.

    Em 22 de outubro, o gabinete da primeira-ministra Giorgia Meloni aprovou novas medidas de auxílio para caminhoneiros, agricultores e pescadores. A negociação, porém, não encerrou imediatamente a crise. Parte das associações nacionais considerou os compromissos suficientes para retomar o diálogo, enquanto grupos que organizavam os bloqueios no sul mantiveram os protestos.

    Houve relatos de pneus furados e ameaças contra motoristas que tentavam continuar trabalhando, segundo a imprensa italiana. Na quinta-feira (22), as manifestações começaram a perder força e as entregas foram retomadas em algumas regiões. Ainda assim, o episódio já havia afetado a distribuição de alimentos e combustível, inclusive para aeroportos da Calábria.

    Para Mario Piccialuti, da associação italiana da indústria de alimentos Unione Italiana Food, os efeitos da crise vão além das perdas financeiras. A falta de produtos cotidianos nos supermercados pode provocar ansiedade entre os consumidores e estimular compras por precaução, agravando a escassez. *Com agências internacionais ]]>

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