A crise do suco de laranja: o Brasil produz para um mundo que bebe cada vez menos
De todos os negócios em que já investiu, Pedro Moreira Salles, copresidente do conselho do Itaú, tem um arrependimento particular: o mercado de suco concentrado de laranja. “Me deu muito trabalho porque, no fundo, a gente não entendia o setor”, disse em uma entrevista de 2013. O empresário entrou nessa indústria em 1992, quando a Cambuhy Citrus, que já plantava laranjas, abriu uma fábrica de processamento em Matão (SP).
Apenas seis anos depois, em 1998, vendeu a operação. O mercado de suco de laranja é dominado por poucas empresas. E produzir a fruta não é simples: diferentemente de culturas como soja e milho, a laranjeira leva anos para começar a dar frutos.
Uma doença ou uma geada podem exigir anos de retrabalho para recuperar a produção. Nas últimas décadas, o cenário do setor ficou ainda mais complexo: o consumo mundial de suco de laranja caiu quase pela metade em 15 anos, enquanto o avanço de uma doença sem cura, o greening , passou a ameaçar os pomares. Leia também Economia El Niño deixa cana no campo e ameaça início da próxima safra de açúcar no Brasil Negócios Como agregar valor para o seu produto: os conselhos de Ricardo Ermírio de Moraes, da Natural One “Os produtores não têm paz”, resumiu um empresário do setor citrícola que preferiu não se identificar.
O problema é especialmente relevante para o Brasil, que se tornou o maior produtor mundial de suco de laranja e construiu uma enorme indústria em torno da fruta. Quase tudo o que o país produz, vende ao exterior. Por isso, quando o mundo bebe menos suco, é a indústria brasileira que amarga as consequências.
Cultura americana, negócio brasileiro No início do século 20, a Califórnia sofria do próprio sucesso: tinha se tornado boa demais em plantar laranjas. A oferta se tornara maior que a demanda, e os produtores precisavam encontrar uma maneira de vender o excedente. Ao melhor estilo Mad Men , foram os publicitários que encontraram uma solução.
Convencer os americanos a beber laranja, em vez de comê-la. Nasceu assim um novo hábito de consumo: um copão de suco pela manhã, todos os dias. Anúncios de 1916 e 1929 da Sunkist, cooperativa americana de citricultores, associavam o consumo de laranja à saúde e ao café da manhã.
Nas décadas seguintes, a Flórida substituiria a Califórnia como principal centro produtor de laranjas dos Estados Unidos. Mas, a partir dos anos 1960, uma série de geadas começou a devastar os pomares do estado. As perdas abriram caminho para uma região até então secundária no mercado mundial de suco: o interior de São Paulo.
Empresas como Cutrale e Citrosuco , até hoje líderes do setor, ampliaram suas fábricas e exportações para atender à demanda que a produção americana já não conseguia suprir. Hoje, o Brasil responde por 76% da produção global de suco de laranja, segundo estimativas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). O segundo maior produtor, o México, responde por apenas 6% da produção mundial.
Segundo estimativas do USDA, o Brasil deve produzir 1,03 milhão de toneladas de suco de laranja entre julho de 2026 e junho de 2027. Desse total, 973 mil toneladas devem ser exportadas. Queda no consumo Mas, ao longo das últimas décadas, o suco de laranja perdeu espaço no café da manhã dos Estados Unidos, já que outras bebidas começaram a disputar a preferência dos consumidores.
A água, por exemplo, ocupa hoje uma fatia maior do que os americanos bebem ao longo do dia: de cada 100 litros consumidos, 47 eram de água em 2013. Dez anos depois, o volume aumentou para 57. Ao mesmo tempo, o suco, antes associado a uma alimentação saudável, começou a ser questionado pela quantidade de açúcar e calorias que contém (um copo de 240 ml tem cerca de 110 calorias e 21 gramas de açúcar, mesmo sem adição de açúcar).
Em outros países, como Alemanha, França e Japão, o consumo também caiu. Resultado: entre as safras 2010 e 2025, o consumo mundial de suco de laranja encolheu quase pela metade: 46,5%. “O Brasil surfou essa onda e depois o mundo foi mudando, os consumos foram mudando e esse mercado estagnou”, diz Christian Lohbauer, ex-presidente da CitrusBR, associação que reúne as principais exportadoras brasileiras de suco de laranja.
Nos Estados Unidos, o suco de laranja concentrado encareceu 71% entre janeiro de 2023 e julho de 2026. Uma pesquisa da Universidade da Flórida mostrou que, diante do aumento, os americanos passaram a comprar suco com menos frequência e em menores quantidades. Parte dessa alta veio de uma crise na produção de laranjas.
Pomares de diferentes partes do mundo começaram a sofrer com o avanço de uma doença que ainda não tem cura – o greening . Transmitido por um pequeno inseto, o greening é causado por uma bactéria que se instala nas laranjeiras e compromete a circulação de nutrientes. As árvores infectadas produzem menos frutos, as laranjas ficam menores e podem cair antes da colheita.
Com o tempo, a planta pode morrer. A doença foi identificada na China há mais de um século e se espalhou por regiões produtoras da Ásia e da África. Em 2005, chegou à Flórida, onde se tornou uma das principais responsáveis pela devastação dos pomares.
Segundo o USDA, a produção de frutas cítricas do estado caiu mais de 70% desde a chegada do greening . A crise americana é parte de um problema maior. Entre as safras 2010/11 e 2025/26, a produção mundial de laranjas recuou 18%, segundo levantamento da CitrusBR com dados do USDA.
Além das doenças, secas, geadas e furacões também prejudicaram as colheitas. No Brasil, o greening avançou sobre a principal região produtora de laranjas do país, o interior de São Paulo. Em 2026, quase metade das árvores do cinturão citrícola paulista e mineiro estava contaminada, segundo o Fundecitrus.
Para fugir da doença, produtores e indústrias começaram a buscar novas regiões para plantar. Mas, com os consumidores comprando menos e a produção brasileira voltando a crescer, o cenário se inverteu – e os preços despencaram. Suco concentrado Com a recuperação da produção, a indústria brasileira também ficou com mais suco armazenado.
Em dezembro de 2025, os estoques das principais processadoras somavam 616 mil toneladas, 75% acima do registrado um ano antes, segundo a CitrusBR. O mercado brasileiro de suco de laranja está concentrado nas mãos de três empresas: as nacionais Cutrale e Citrosuco e a europeia Louis Dreyfus. Juntas, elas respondem por 90% da produção nacional.
Com os estoques elevados, as processadoras passaram a priorizar as frutas de seus próprios pomares e de contratos já firmados, reduzindo as compras avulsas. Isso deixou os agricultores que dependem dessas vendas com menos opções para escoar a produção. A redução das compras também pressionou os preços pagos pela fruta.
Em outubro de 2024, a caixa de laranja destinada à indústria chegou a superar R$ 90, segundo o Cepea/Esalq-USP. Em 28 de outubro de 2026, era negociada por R$ 26,96. ]]>
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