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    A direita faxineira
    Revista Oeste·31 de out., 16:00

    A direita faxineira

    Em 25 de outubro, Lula venceu Flávio Bolsonaro por 51,8% a 48,2%. Flávio havia liderado o primeiro turno. Dezessete dias antes daquele primeiro turno, um decreto elevou o Bolsa Família em 15%, ao custo de R$ 5,8 bilhões neste ano e R$ 22,7 bilhões em 2027.

    Não escrevo para lamentar o resultado. Escrevo porque a derrota repete um padrão que a direita brasileira, e a latino-americana, ainda não encarou. O padrão é simples.

    A esquerda governa gastando. Quando o dinheiro acaba, a direita é chamada para cortar. Corta, paga a conta política e sai.

    A esquerda volta e gasta de novo. Michel Temer aprovou o teto de gastos em 2016 e deixou o cargo com aprovação de um dígito. Mauricio Macri tentou um ajuste gradual na Argentina e perdeu em 2019 para a chapa de Cristina Kirchner.

    Cortar é menos divertido que gastar. Quem perde um benefício sabe o nome de quem o tirou. Quem ganha com as contas em ordem raramente percebe que ganhou.

    A lição que a direita precisa aprender Bolsonaro tentou o caminho oposto. Em 2022, elevou o Auxílio Brasil para R$ 600 por emenda constitucional, meses antes da eleição. Perdeu mesmo assim.

    A lição não é que a direita deva gastar mais. Num leilão de promessas, a esquerda sempre dá o lance maior. Javier Milei mostra que cortar não é sentença de morte.

    Fez um ajuste duríssimo e venceu as eleições legislativas de outubro de 2025 com cerca de 41% dos votos. O argentino viu a inflação cair. O corte veio com um resultado que se podia sentir no supermercado.

    Milei, porém, é exceção, e exceção não sustenta projeto de poder. A pergunta que importa é outra: por que a esquerda sempre volta, mesmo depois de crises que ela própria criou? Parte da resposta está no que ela ocupa entre uma eleição e outra.

    A peça mais importante é a universidade. v=bqoAIA1lRRM Escrevo de dentro. Sou professor de uma universidade pública.

    A universidade brasileira deixou de ser apenas um lugar de ensino e pesquisa e virou um grupo de interesse, com orçamento a defender, carreiras a proteger e um aliado partidário claro. A UNE é presidida desde 1991 por quadros da União da Juventude Socialista, braço do PCdoB. No Andes-SN, o sindicato nacional dos docentes, a grande disputa interna dos últimos anos foi entre ficar numa central ligada ao PSTU ou se aproximar da CUT, ligada ao PT.

    Os dois lados da briga são de esquerda. Não há conspiração nisso. É a lógica de qualquer grupo de interesse: a universidade pública se alinha ao partido que promete expandir seu orçamento, e esse partido tem sido a esquerda.

    O efeito, contudo, vai muito além do orçamento. A universidade forma o juiz, o promotor, o diplomata, o técnico do Banco Central, o jornalista e o professor do ensino médio. Quem forma essa gente molda o país por 30 anos, muito depois de qualquer eleição.

    A importância de hegemonia ideológica A direita tem respostas, mas pequenas. O Estudantes pela Liberdade ajudou a formar os fundadores do MBL. O RenovaBR, suprapartidário, prepara candidatos.

    Institutos liberais publicam e debatem. Tudo isso tem valor. Mas forma militantes e candidatos, não a elite que ocupa o Estado por décadas.

    Outros países fizeram apostas mais longas. Nos Estados Unidos, estudantes de Direito fundaram a Federalist Society em 1982. Quarenta anos depois, a maioria conservadora da Suprema Corte saiu da sua rede.

    No Chile, economistas e políticos de direita fundaram a Universidad del Desarrollo em 1990. Um dos fundadores, Cristián Larroulet, chegou a ministro de Sebastián Piñera. No Brasil, o agronegócio e o empresariado que financiam campanhas poderiam financiar coisa mais duradoura: bolsas de mestrado e doutorado no exterior para jovens talentosos, com compromisso de volta; cátedras com doadores em universidades que já existem; preparação para os concursos das carreiras de Estado.

    Uma campanha custa caro e dura três meses. Uma geração de quadros custa menos e dura 40 anos. v=Ol-b-dQrWAM A segunda frente é o crescimento.

    A pesquisa sobre clientelismo mostra que o voto do eleitor pobre é mais barato de comprar, porque um benefício pequeno pesa muito no orçamento de quem tem pouco. Uma população mais rica é menos sensível ao decreto de véspera. E o crescimento é a única recompensa que torna o corte suportável.

    Foi o que Milei entregou e Temer não teve tempo de entregar. Eleição se ganha em campanha. Hegemonia se constrói em décadas.

    A esquerda entendeu isso há muito tempo. Enquanto a direita não entender, continuará sendo chamada só para limpar a casa. v=gO6YarQzhf8 Gabriel Cepaluni é professor de ciência política da Unesp e autor de Capitalism and Development (Cambridge University Press) O post A direita faxineira apareceu primeiro em Revista Oeste .

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