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    A direita morrerá em 20 anos se não começar a produzir cultura
    Revista Oeste·07 de nov., 11:00

    A direita morrerá em 20 anos se não começar a produzir cultura

    A direita tem que aprender rapidamente com seus erros. E calma, nem estou falando de eleições. Estou falando de preparo intelectual.

    Quem me conhece sabe que não sou lá tão fã do intelectualismo, isto é, da percepção de que a realidade só é corretamente explorada por meio da ciência e da reflexão sistemática. Quem já teve a graça de conversar com velhos sabe que muitas coisas — mas muitas mesmo — não são apreendidas em livros e tubos de ensaio. No entanto, não é mentira que a busca por aprofundamento intelectual capacita o homem para o enfrentamento no mundo atual.

    Um homem sincero, que busca a verdade dos fatos, sabe que o sistema econômico de Marx, baseado no valor-trabalho, foi engolido e desmanchado por Böhm-Bawerk com sua explicação sobre a preferência temporal, que depois foi especialmente aprofundada e expandida com a ideia de ação humana de Ludwig von Mises . Se um debatedor conservador desconhece esses pontos, acabará parecendo um tolo agarrado a chavões e slogans diante de um marxista treinado na exegese acadêmica de O capital — mesmo que este esteja comprovadamente errado nos fatos econômicos. + Leia mais notícias de Curiosidades em Oeste Ainda que ache maravilhoso que todo e qualquer ser humano, em especial os inclinados ao conservadorismo, estude os livros de Edmund Burke, Alexis de Tocqueville, Russell Kirk e Roger Scruton, sei que isso é utopia.

    Nem todos querem, têm tempo para isso ou simplesmente interesse em se aprofundar no estudo dedicado aos pais do pensamento conservador. E, sinceramente, ok. Porém, é certo que, enquanto os conservadores não entenderem que estudar os fundadores do pensamento conservador é o mesmo que ganhar profundidade cultural, estabelecer uma estruturação intelectual valorosa em suas vidas e ganhar munição em debates que inevitavelmente virão.

    Enquanto isso não estiver claro, a esquerda continuará dominando o espaço intelectual e cultural do país. Ludwig von Mises foi um economista austríaco e um dos principais expoentes da Escola Austríaca de Economia, conhecido por suas contribuições à teoria do livre mercado e pela defesa do liberalismo econômico. Sua obra influenciou significativamente o pensamento econômico sobre o papel da ação humana e a crítica ao intervencionismo estatal | Foto: Wikimedia Commons Um segundo aspecto no qual os conservadores também falham é o da produção cultural, acadêmica e retórica no debate social.

    A esquerda produz enxurradas de livros, peças e músicas, estabelece espaços de propagação de seus ideais e submete a sociedade como um todo a seus dogmas não somente por meio de imposições — que são reais e repugnantes — mas também por meio do vácuo deixado por essa direita anestesiada. Polemistas de direita A produção cultural de pensadores, literatos e polemistas conservadores — ainda que seja visivelmente melhor do que era no passado recente — permanece praticamente nula. E, veja, não estou falando somente de intelectuais e escritores politicamente engajados.

    Falo daqueles que simplesmente são mais alinhados a uma perspectiva conservadora em suas vidas privadas e que, naturalmente, sem uma agenda por trás, acabam vertendo seus valores em seus trabalhos. Um levantamento realizado pela Gazeta do Povo , utilizando a ferramenta Google Pinpoint AI para analisar mais de 7 mil trabalhos do Banco de Teses da Capes, apontou que os pensadores mais citados nas universidades brasileiras são Karl Marx, Michel Foucault e Paulo Freire. Em 2018, um estudo acadêmico desenvolvido pelos pesquisadores Caroline Pacievitch (UFRGS) e Luís Fernando Cerri (UEPG) apontou que 84,5% dos professores de História entrevistados no Brasil se identificam ou dizem preferir a esquerda ou o centro-esquerda, enquanto 15,5% se situam no centro ou na direita.

    Não encontrei dados relacionados ao mundo editorial, por exemplo, mas, para quem está nesse meio e participa de feiras literárias e debates do tipo há mais de dez anos, vocês podem acreditar quando digo que é um meio dominado pela esquerda também. Enfim, a pergunta que fica é a seguinte: onde estão os novos Jorge Luis Borges, Mario Vargas Llosa, Adonias Filho e Rachel de Queiroz da América Latina ? Por onde andam os novos Nelson Rodrigues e Gustavo Corção?

    Por que não novos José da Silva Lisboa, Bernardo Pereira de Vasconcelos, Paulino José Soares de Sousa? Sem alma não há vida, sem produção cultural robusta e séria não há — no longo prazo — sustentação de valores e organização de pensamento. Sem morrer A direita não vai morrer pela perseguição, pela censura ou até mesmo pelo extermínio como muitos afoitos histéricos vêm profetizando.

    O século 20 provou que até diante das piores perseguições as ideias sobrevivem, seja por meio de cadeias clandestinas ou, nos piores casos, na escondida e estratégica educação familiar. Uma ideia só morre por inanição, quando indivíduos capazes de produzir cultura e pulverizar valores, por medo, preguiça ou desinteresse, escondem-se em vidas ordinárias ou sob os cobertores da covardia. Nelson Rodrigues começou a carreira jornalística aos 13 anos, no Rio de Janeiro | Foto: Reprodução/Flickr Pode parecer elitista, apocalíptico e até mesmo descolado da realidade o que direi agora, mas anotem e me cobrem em uma ou duas décadas se nada mudar: a direita brasileira morrerá miseravelmente em menos de vinte anos se não começar a produzir cultura profunda.

    Literatura para difundir tradições, valores e perspectivas. Produção acadêmica para solidificar e propagar as verdades de um pensamento. Meios de difusão de ideias (jornais, revistas e podcasts) para popularizar críticas e pontos de vista.

    Sem essas coisas, o conservadorismo contemporâneo brasileiro será sempre algo como utensílios domésticos: úteis em determinadas ocasiões, mas nada além disso. Leia também: "O mercado editorial descobre a direita" , reportagem de Anderson Scardoelli publicada na Edição 286 da Revista Oeste O post A direita morrerá em 20 anos se não começar a produzir cultura apareceu primeiro em Revista Oeste . ]]>

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