A disputa pelos melhores gabinetes da Câmara
Procurar um imóvel costuma exigir algumas escolhas. É preciso olhar o tamanho, a localização, a distância do trabalho, a facilidade de acesso e, naturalmente, verificar se há banheiro. Na Câmara dos Deputados , a procura pelo endereço onde os parlamentares passarão os próximos quatro anos não é muito diferente.
Com uma peculiaridade: ninguém paga aluguel e nem todos podem escolher onde vão ficar. Depois de meses percorrendo cidades, participando de comícios, pedindo votos e enfrentando as urnas, os deputados eleitos em outubro ainda terão uma última disputa antes de começar a nova legislatura. Desta vez, não haverá santinhos, cabos eleitorais ou horário eleitoral.
O prêmio é uma sala. São nesses poucos metros quadrados que deputados recebem prefeitos, governadores, ministros, empresários e eleitores. Ali trabalham assessores, são preparadas propostas legislativas e acontecem algumas das conversas que antecedem decisões tomadas no plenário.
E nem todas as salas são iguais. Durante décadas, bastava atravessar os corredores da Câmara para perceber a diferença. De um lado estavam os gabinetes do Anexo 4, maiores, com banheiro privativo e servidos por elevadores.
Do outro, o Anexo 3. Ali, o banheiro já foi um problema político. + Entenda de Política em Oeste Em dezembro de 2008, o então primeiro-secretário da Câmara, Osmar Serraglio, levou o assunto à tribuna.
Segundo ele, 76 deputados trabalhavam no Anexo 3. Considerando pelo menos quatro ou cinco funcionários em cada gabinete, Serraglio estimou que aproximadamente 400 pessoas trabalhavam no primeiro andar. Para todos eles, havia quatro banheiros.
Anos depois, a situação ainda rendia comentários no plenário. Em 2013, um deputado resumiu: “Só não há banheiro nos gabinetes do Anexo III da Câmara dos Deputados, mas há no corredor”. Ter um banheiro a poucos passos da mesa de trabalho, portanto, já foi um luxo capaz de separar alguns dos endereços mais e menos cobiçados do Congresso.
Não era o único. Tamanho da sala, janela, andar, elevador, distância do plenário e proximidade das comissões também entram na conta de quem precisa escolher onde instalar o mandato. Quase duas décadas depois, o cenário mudou.
O Anexo 3 passou por uma reforma que redesenhou seus gabinetes. A Câmara informa que o edifício terá 85 salas de aproximadamente 40 metros quadrados. Em janeiro deste ano, 73 já haviam sido entregues reformadas e as 12 restantes tinham conclusão prevista para abril.
A diferença em relação ao Anexo 4 diminuiu. Ali, os gabinetes têm atualmente entre 43 e 47,5 metros quadrados. Reformar paredes, porém, não acabou com a disputa.
Em dezembro, os deputados eleitos começarão a descobrir qual será seu endereço político pelos próximos quatro anos. Para alguns, bastará escolher. Para outros, restará a sorte.
A segunda eleição Arte de localização dos gabinetes da Câmara | Arte: Revista Oeste A Câmara marcou para 22 de dezembro o sorteio dos gabinetes remanescentes para a 58ª Legislatura. Será presencialmente no Auditório Nereu Ramos e, segundo o calendário oficial preparado pela Casa para os novos deputados, haverá transmissão pela TV Câmara. Mas nem todos precisarão participar.
Antes de colocar os números na urna, existe uma fila de prioridades estabelecida pelo Ato da Mesa nº 88, de 2006. Entre 8 e 18 de dezembro, os deputados que se enquadram nessas regras poderão indicar, pelo Gabinete Digital, os espaços que pretendem ocupar. A lista cria uma hierarquia.
Ex-presidentes da Câmara estão entre aqueles com preferência. Também existem critérios envolvendo dificuldade de locomoção e necessidades especiais, idade, sexo e experiência parlamentar. Deputados que já exercem mandato possuem vantagem sobre boa parte dos estreantes.
Há ainda um critério peculiar: Família. Cônjuge, pai, filho ou irmão de deputado da legislatura que termina também pode se enquadrar nas hipóteses de prioridade previstas pela Câmara. Na prática, em determinadas circunstâncias, até gabinete pode ser herdado.
Oeste mostrou um exemplo disso há quatro anos. Luisa Canziani chegou à Câmara em 2019 e ficou com o gabinete que havia sido utilizado pelo pai, Alex Canziani, que deixara a Casa para disputar uma vaga no Senado. Soraya Manato, por sua vez, ocupou o espaço do marido, Carlos Manato, depois que ele concorreu ao governo do Espírito Santo.
Hoje, Luisa continua na Câmara e trabalha no gabinete 842 do Anexo 4. Soraya deixou a Casa ao fim da legislatura passada. O critério de parentesco já chegou ao Supremo Tribunal Federal.
Em 2018, o então deputado Marcelo Calero questionou as regras de distribuição dos gabinetes. O pedido não derrubou o sistema estabelecido pela Câmara. O mecanismo chegou a 2026.
Depois da aplicação das prioridades, vêm os demais. Para esses, o endereço será decidido no sorteio de 22 de dezembro. Espaço ou localização Escolher entre os Anexos 3 e 4 envolve uma espécie de dilema imobiliário.
Espaço ou localização. O Anexo 4 é o grande edifício que concentra boa parte dos gabinetes parlamentares. Quem trabalha ali precisa usar elevadores e percorrer a ligação subterrânea com o restante do complexo para chegar ao coração político da Câmara.
O túnel que conecta os edifícios tem quase 120 metros. Esteiras rolantes ajudam deputados, servidores, jornalistas e visitantes a atravessá-lo. O percurso até as comissões pode consumir vários minutos.
O Anexo 3 oferece uma vantagem diferente. Fica mais próximo de algumas das principais comissões, do Salão Verde e do plenário. Para o deputado que precisa sair de uma reunião, dar entrevista e correr para uma votação, localização pode valer mais do que alguns metros quadrados adicionais.
O Anexo 4, por outro lado, construiu durante anos uma reputação de endereço mais confortável. Documentos contratuais da Câmara mostram que o serviço de operação dos elevadores do Anexo 4 chegou a prever ascensoristas especificamente destinados ao atendimento de parlamentares. Em um dos turnos previstos no contrato, três profissionais eram reservados exclusivamente aos deputados.
A documentação comprova que o modelo existia. A situação atual do serviço, porém, precisa ser confirmada pela Câmara para a próxima legislatura. Acima dos dois anexos existe uma categoria ainda mais restrita.
Os gabinetes do Edifício Principal. A relação atual da Câmara registra apenas quatro deputados trabalhando ali: Arlindo Chinaglia, Eunício Oliveira, Arthur Lira e Aécio Neves. São endereços instalados no coração da Casa, próximos do plenário e longe do percurso cotidiano enfrentado pelos parlamentares instalados nos anexos.
Um deles em breve terá de mudar de Poder. Arthur Lira foi eleito senador neste ano. Gabinetes com história Em um edifício ocupado durante décadas pelos principais personagens da política brasileira, alguns números de porta adquiriram significado próprio.
O 482 é um deles. Foi naquele gabinete do Anexo 3 que Jair Bolsonaro trabalhou durante parte de sua passagem pela Câmara dos Deputados. Quando Bolsonaro deixou a Casa para assumir a Presidência da República, em 2019, Carla Zambelli ficou com a sala.
Documentos oficiais daquele ano registram o endereço de seu gabinete: “Praça dos Três Poderes, Anexo III, gabinete 482”. Oeste voltou ao assunto em 2022. Zambelli contou que havia mantido parte da decoração deixada pelo antigo ocupante.
A reforma do Anexo 3 depois alcançou o espaço e modificou a estrutura física da sala. Zambelli também não está mais ali. Ela renunciou ao mandato em dezembro de 2025.
Adilson Barroso assumiu a vaga deixada pela ex-deputada, mas não herdou seu endereço. Atualmente, trabalha no gabinete 603 do Anexo 4. Na relação pública atual da Câmara, o 482 não aparece associado a um deputado em exercício.
O gabinete que um dia abrigou Bolsonaro chega, assim, à preparação para uma nova legislatura sem parlamentar listado como ocupante. Do outro lado do complexo existe outro endereço carregado de história. O 825 do Anexo 4.
Luiz Inácio Lula da Silva trabalhou naquele espaço durante seu período como deputado constituinte, entre 1987 e 1991. Décadas depois, o gabinete caiu nas mãos de Joice Hasselmann. Em fevereiro de 2019, a então deputada realizou ali um culto inter-religioso.
Sóstenes Cavalcante, que participou da cerimônia, disse na época que o objetivo era “exorcizar” Lula do gabinete. O ocupante agora é outro. Quem trabalha atualmente no 825 é Fred Linhares, deputado do Republicanos pelo Distrito Federal.
A página oficial da Câmara registra seu endereço no oitavo andar do Anexo 4. A dança das salas A eleição de 2026 iniciou uma nova dança pelos corredores. Vinte e três deputados federais foram eleitos para outros cargos.
São 17 futuros senadores, cinco deputados estaduais e um governador. Outros parlamentares não conseguiram renovar o mandato ou sequer disputaram novamente uma cadeira na Câmara. Cada saída significa uma equipe desmontada, caixas retiradas dos corredores e, no fim do processo, uma porta disponível para outro deputado.
Há endereços interessantes nesse inventário. Bia Kicis, eleita para o Senado, ocupa atualmente o gabinete 309 do Anexo 4. Guilherme Derrite, também eleito senador, está no 750 do mesmo edifício.
Outros deputados que trocarão a Câmara pelo Senado também deixarão seus atuais espaços. O caso de Arthur Lira é particular. Ex-presidente da Câmara, ele ocupa atualmente o gabinete 17 do Edifício Principal.
Por se tratar de um espaço destinado segundo regras próprias da administração da Casa, não significa que a sala entrará no sorteio comum realizado entre os deputados. Nos Anexos 3 e 4, porém, a saída de dezenas de parlamentares abre uma janela de movimentação. E existe uma disputa que dificilmente aparece em documentos oficiais.
A conversa de corredor. Um parlamentar pode preferir outro andar. Outro quer ficar mais perto das comissões.
Um terceiro pode aproveitar a saída de um colega para tentar mudar para uma sala que considera melhor. Os novatos observam o que sobrar. Até agora, não há relação pública da Câmara identificando deputados que tenham formalizado pedidos de mudança para a próxima legislatura.
O calendário também ajuda a explicar por quê: a etapa oficial de escolha prévia ocorrerá somente entre 8 e 18 de dezembro. Até lá, a articulação acontece antes do protocolo. Uma cidade atrás de cada porta Um gabinete não abriga apenas o deputado.
Cada parlamentar pode contratar até 25 secretários parlamentares para exercer atividades ligadas ao mandato. Chefes de gabinete, assessores legislativos, profissionais de comunicação e outros funcionários dividem diariamente esses espaços. É por isso que alguns metros fazem diferença.
Os deputados eleitos precisam preencher, entre 21 de outubro e 20 de novembro, o Cadastro Parlamentar. Segundo a Câmara, as informações servirão, entre outras finalidades, para a destinação dos gabinetes e dos imóveis funcionais da 58ª Legislatura. Em dezembro começa a parte decisiva.
Primeiro vêm aqueles que possuem prioridade. Depois, o sorteio. As providências administrativas avançam durante janeiro.
No dia 1º de fevereiro de 2027, os 513 deputados tomam posse. Todos chegarão ao plenário com o mesmo título. Deputado federal.
Nos corredores, contudo, as diferenças permanecerão. Uns terão salas maiores. Outros estarão mais perto das comissões.
Alguns poderão chegar rapidamente ao plenário. Outros dependerão de elevadores, corredores, túneis e esteiras. Há ainda aqueles que trabalharão em salas por onde já passaram presidentes da República, presidentes da Câmara e personagens que ajudaram a escrever capítulos da história política do país.
As urnas decidiram quem ganhou uma cadeira. Agora começa a disputa para descobrir onde cada cadeira ficará. v=DWxqn53BfgU O post A disputa pelos melhores gabinetes da Câmara apareceu primeiro em Revista Oeste .
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Resumo publicado pelo SJX NEWS. O conteúdo integral pertence ao veículo de origem.
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