A dosimetria do golpe
Débora Rodrigues dos Santos escreveu “Perdeu, mané” com batom na estátua da Justiça. A frase saiu com sabão neutro. A pena, não: 14 anos de prisão, impostos pela Primeira Turma do STF sob a relatoria de Alexandre de Moraes , por crimes que incluem a tentativa de golpe de Estado.
Luiz Fux registrou em voto que ela não entrou em prédio algum. Pouco importou. No direito penal do inimigo bolsonarista, a intenção presumida dispensa o ato.
Apliquemos a mesma régua ao relator. Segundo o jornalista Cláudio Dantas , o Careca do Master teria determinado uma operação da Polícia Federal contra o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, marcada para a última quinta-feira, 22 de outubro. Seriam cerca de 28 mandados de busca e apreensão, num inquérito sobre a relação do senador com o advogado Willer Tomaz.
v=i8D3X9FU9Qw A operação teria morrido na Procuradoria-Geral da República, cuja cúpula, com Paulo Gonet, Hindemburgo Chateaubriand e Carlos Fernando Mazzoco, recusou-se a fazer o que Dantas chamou de “serviço sujo”. STF, PF e PGR desmentem tudo em nota. Três desmentidos afinados em coro para um fato inexistente revelam um zelo comovente.
Por que a PGR, tão dócil por tanto tempo, descobriu agora os escrúpulos? Arrisco uma hipótese. O vento mudou, e Washington parece hoje bem mais disposta a sancionar os facilitadores do violador de direitos humanos.
A prudência, nesses casos, não é virtude cardeal. É instinto de conservação. v=6f-nmf9wiq8 O roteiro, de resto, não é inédito.
Em 23 de maio de 2025, a dois dias das eleições legislativas e regionais na Venezuela, o ministro do Interior, Diosdado Cabello, anunciou na televisão estatal a prisão do opositor Juan Pablo Guanipa, aliado de María Corina Machado, apontado como líder de uma “rede terrorista” contra o pleito. Em Caracas, a polícia também chegou antes do eleitor. A diferença é que lá ninguém recusou o serviço.
Aqui, num passado não muito remoto, também não. " , perguntava Agostinho: afastada a justiça, que são os reinos senão grandes quadrilhas? Se um batom valeu 14 anos, que pena caberia à caneta que assina mandados contra um candidato às vésperas das urnas?
Moraes suspendeu a Lei da Dosimetria para os réus do 8 de janeiro. Talvez devesse reservá-la para si. Débora escreveu “Perdeu, mané” com batom.
Por pouco, o eleitor brasileiro não leu a mesma frase num mandado. O post A dosimetria do golpe apareceu primeiro em Revista Oeste . ]]>
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