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    InvestNews·26 de out., 09:00

    ‘A eleição ficou pra trás. Agora temos que unir o país’, diz Ricardo Lacerda

    ” (Abraham Lincoln, no segundo discurso de posse nos Estados Unidos, em 1865, semanas antes do fim da Guerra Civil americana) O Brasil foi às urnas no domingo e saiu delas dividido ao meio. Lula obteve 51,78% dos votos válidos; Flávio Bolsonaro, 48,22%. Uma diferença de 4,4 milhões de votos num universo de quase 124 milhões de votos válidos.

    Foi uma virada histórica. Pela primeira vez desde a redemocratização, um candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar venceu a eleição presidencial. Há três semanas, Flávio liderava com 47% contra 45% de Lula.

    No domingo, o presidente reverteu uma desvantagem de mais de 2 milhões de votos e terminou com mais de 4 milhões na frente, somando mais de 10 milhões de novos votos entre o primeiro e o segundo turno. E, ainda assim, o país segue partido ao meio. Em 2022, Lula superou Jair Bolsonaro por 1,8 ponto, a menor margem desde a redemocratização.

    Em 2014, Dilma venceu Aécio por 3,3 pontos. Domingo, a diferença foi de 3,6 pontos. As três disputas presidenciais mais apertadas da nossa história aconteceram nos últimos doze anos.

    A divisão não é um acidente desta eleição: é o retrato de uma década de divisão. E, no entanto, o país amanhece nesta segunda-feira funcionando. Leia também Economia Para Walter Schalka, Lula tem a responsabilidade de unir o país e de governar para 210 milhões Isso não é pouco.

    Há quatro anos, a derrota foi recebida por parte dos derrotados com acampamentos em portas de quartéis e, depois, com o insólito 8 de janeiro. Desta vez, depois de uma campanha igualmente acirrada, as urnas foram apuradas e o resultado foi proclamado. A despeito da afronta ao direito de voto representada pela redução do transporte coletivo em várias cidades, episódio que mancha as administrações de Salvador e São Paulo e que levou à prorrogação do horário de votação, tudo transcorreu de forma pacífica.

    Flávio Bolsonaro não reconheceu o resultado e diz que pedirá a anulação do pleito, alegando a prorrogação do horário de votação – prorrogação que sua própria campanha havia pedido ao TSE. Com uma diferença de 4,4 milhões de votos , é o discurso de um mau perdedor, que prefere flertar com o golpismo a agradecer seus eleitores e reconhecer a vitória legítima de seu adversário. Infelizmente a normalidade, num país com nosso histórico de confusões, se transformou em raridade.

    Há quem veja na campanha apenas sinais de um país rachado. Eu vejo também o contrário. As duas candidaturas levaram milhões de pessoas às ruas e mobilizaram as redes sociais como nunca.

    Um país que se divide ao meio não está quebrado; está vivo, está vibrante. Milhões de brasileiros se importaram, se informaram (mesmo que às vezes mal), discutiram e votaram pacificamente. Foi comovente ver a enorme quantidade de idosos e enfermos se esforçando para ir exercer sua cidadania.

    Na minha opinião, o risco agora é outro: transformar essa mobilização em ressentimento permanente. É aí que mora a responsabilidade de quem venceu e de quem perdeu. Lula conquista um quarto mandato com uma vitória legítima, histórica e inquestionável, construída nas urnas.

    Ela deve ser reconhecida sem rodeios por todos, inclusive por quem, como eu, criticou duramente seu governo. A democracia não pede que gostemos ou concordemos com o resultado. Pede que o respeitemos.

    Essa é hoje a obrigação de todas as brasileiras e brasileiros. Mas o recado das urnas para o presidente é claro. Flávio Bolsonaro, em sua primeira disputa presidencial, obteve quase 60 milhões de votos.

    Se não tivesse caído na armadilha de dar ouvidos a profissionais da lacração como Pablo Marçal, Deltan Dallagnol e Nikolas Ferreira justamente quando precisava consolidar seu favoritismo e já ganhava estatura de presidente, talvez o resultado tivesse sido outro. De qualquer maneira, a direita sai desta eleição consolidada como a maior força política do país, com o maior número de governadores e a maior bancada no Congresso. E a melhor notícia de todas: a direita cresceu para além do bolsonarismo.

    Para quem votou nela, a mensagem é simples: a democracia oferece sempre uma nova chance. Basta esperar mais quatro anos. Leia também Economia Alckmin, redes sociais, Congresso e segurança pública: o discurso da vitória de Lula É justo reconhecer os acertos: o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome da ONU em 2025, o desmatamento caiu drasticamente e a reforma tributária foi aprovada.

    Discordar da política econômica de Lula, como discordei tantas vezes de forma veemente, não muda essas conquistas. Mas a vitória de hoje não apaga os erros do terceiro mandato. Eleito em 2022 por uma coalizão de centro, com apoio inclusive da direita moderada, Lula escolheu governar com aqueles que estiveram ao seu lado em Curitiba.

    Nomeou ministros tecnicamente fracos apenas para acomodar o arranjo político que imaginava necessário para governar e se manter no poder. Surfou os abusos e perseguições do STF e fez vistas grossas para falcatruas de alguns de seus integrantes. Ignorou todos os sinais de uma crise fiscal e conviveu com juros escorchantes durante todo o mandato.

    Quando finalmente acordou para o risco de perder para um adversário que sempre desprezou, sequestrou as bandeiras de defesa da democracia e da soberania, um discurso que divide mais do que une. Não satisfeito, recorreu a pacotes de benefícios que, segundo levantamento do Estadão , chegaram a R$ 405 bilhões em pleno ano eleitoral, muitos dos quais editados às vésperas da eleição. Nessa tentativa desesperada de evitar a derrota, botou em campo o velho jargão popular: “eu quebro o país, mas não perco a eleição”.

    Não perdeu. Mas o preço dessa vitória ficará para o país pagar, e a forma como ela foi construída vai dificultar ainda mais a união de todos. Metade do Brasil sai das urnas convencida de que a disputa não foi justa no uso da máquina.

    Mesmo assim, é imperativo que agora Lula se esforce para unir o país. Há uma grande lição nisso, e ela vale para o presidente reeleito. Jair Bolsonaro e Lula cometeram o mesmo erro: jamais estenderam as mãos aos eleitores derrotados, preferindo governar e discursar para bolhas de apoiadores radicais, cujo único objetivo é explorar o ódio e dividir a população.

    Como consequência, fizeram o país patinar por oito anos em temas essenciais como educação, segurança pública e responsabilidade fiscal, numa atitude que custou a reeleição a um e quase custou ao outro. Lula deu um primeiro sinal no discurso de ontem , ao dizer que governará para 215 milhões de brasileiros – embora não tenha resistido a chamar o adversário de mentiroso. Precisará de mais do que palavras.

    Mas o primeiro desafio do novo mandato será unir o país de verdade e governar para os 48% que não votaram nele. Um gesto claro nessa direção seria apoiar no Congresso o projeto que acaba com a reeleição e amplia para cinco anos o mandato dos próximos presidentes e governadores, cumprindo, com quatro anos de atraso, a promessa de mandato único que ele mesmo fez em 2022. Muitos já prometeram isso e não cumpriram, Lula entre eles.

    Honrar essa promessa agora seria uma grande oportunidade de reconciliação com a metade do país que não confia nele. O segundo gesto está na escolha da equipe. Lula precisa nomear para seus ministérios nomes tecnicamente respeitados, e não apenas acomodar aliados.

    E, sobretudo, colocar no Ministério da Fazenda alguém comprometido de fato com o ajuste fiscal, com credibilidade junto a quem financia o Estado brasileiro. Nomes como Mansueto Almeida, Pérsio Arida ou o próprio Geraldo Alckmin mandariam o recado certo no primeiro dia. A terceira prioridade é devolver credibilidade às contas públicas.

    O governo precisa criar uma força-tarefa e apresentar um plano de ação para o equilíbrio fiscal: transparente, sem mágicas, com metas verificáveis e o compromisso de ser efetivamente cumprido. O desafio fiscal do Brasil é imenso, nossas contas vêm se deteriorando de forma consistente e preocupante, e há inúmeras amarras para equacioná-lo. Apenas um plano claro, e não discursos vazios, pode abrir espaço para a queda dos juros que asfixiam empresas e famílias com uma crueldade jamais vista.

    Leia também Economia Sem ajuste fiscal crível, economia em novo governo Lula pode entrar em recessão, diz Solange Srour A quarta é um plano para atacar a criminalidade crescente: tanto a das ruas, que aterroriza o cidadão comum, quanto a que vem se infiltrando no mundo corporativo e contaminando setores inteiros da economia formal. Isso tem sido escancarado por operações da Polícia Federal em fintechs, bets e distribuidoras de combustíveis, só para citar alguns setores, e precisa ser enfrentado com a devida atenção. É preciso frear a expansão de uma criminalidade que já se torna endêmica.

    Por fim, Lula precisa patrocinar uma ampla reforma do Poder Judiciário, abandonando a complacência com que tratou os abusos de um ministro cujo nome todos conhecemos. O STF precisa de uma reforma, com critérios mais claros para indicação de nomes reconhecidamente preparados, mandatos fixos e um código de ética claro que proíba as relações incestuosas entre ministros e advogados que circulam de Brasília a Lisboa sem qualquer compostura. Essa reforma precisa permear o Poder Judiciário em todas as instâncias, a fim de reverter a onda que transformou grande parte dos nossos tribunais em balcões de negócios.

    Os desafios de Lula são enormes, e boa parte deles foi criada por falhas de seu próprio governo. Apenas com foco na união do país e numa agenda construtiva ele poderá superar tantas dificuldades e colocar o Brasil no rumo certo. A final da Copa acabou.

    Jogo jogado. A partir de agora, todo mundo tem que vestir a mesma camisa. * Ricardo Lacerda é empresário e fundador do BR Partners.

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