SJX NEWS

    revistaoeste.com

    Revista Oeste

    SJXNEWS
    A eleição muda o humor; o balanço define o que a empresa pode fazer
    Revista Oeste·01 de nov., 22:00

    A eleição muda o humor; o balanço define o que a empresa pode fazer

    Toda eleição desloca expectativas. Poucas deslocam o caixa. Entre o resultado das urnas e a primeira assembleia de acionistas, o que decide o destino de uma empresa não é o noticiário, e sim a combinação de quatro variáveis que nenhum governo altera por decreto: a capacidade de gerar caixa, o perfil da dívida, o poder de consumo e o objetivo de quem controla.

    A pressão é mensurável. Em agosto de 2026, 9,3 milhões de CNPJs estavam inadimplentes, com R$ 244,4 bilhões em dívidas negativadas, segundo o Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian. No mesmo período, a Selic definida pelo Copom era de 13,75% ao ano.

    O custo do dinheiro segue alto e o acesso ao crédito , seletivo. Esse quadro explica por que temas de dívida e liquidez voltaram à pauta dos conselhos. Não comprova, por si só, uma onda de vendas de empresas depois da eleição.

    As transações que estamos anunciando já estavam em andamento e precificadas independentemente do resultado das eleições. O pano de fundo do crescimento importa na mesma medida. O Relatório de Política Monetária de setembro do Banco Central projeta alta de 1,4% do PIB em 2027, abaixo dos 1,8% estimados para 2026.

    Em um cenário de expansão moderada, ganhar mercado fica mais difícil, e crescer por aquisição fica mais caro. A consequência prática é uma só: a empresa precisa distinguir um problema transitório de liquidez de um modelo de negócio que deixou de gerar retorno sobre o capital investido. Confundir os dois leva a financiar prejuízo com dívida e a converter um problema de margem em um problema de solvência.

    v=OQwMnqwMCpY Como as empresas reagirão A primeira pergunta não é quanto a empresa deve, mas quanto consegue pagar sem estrangular a operação. Dívida compatível com o fluxo de caixa é instrumento de crescimento. Uma estrutura concentrada no curto prazo, indexada a taxas elevadas ou amarrada a garantias excessivas deixa de ser alavancagem e passa a ser restrição estratégica: define o que a companhia pode ou não fazer, inclusive recusar um bom negócio.

    Reestruturar passivos, nesse contexto, não é pedir prazo ao banco. É revisar o perfil de amortização, reprecificar custos e garantias, substituir instrumentos, aportar capital ou vender ativos não estratégicos. Cada caminho exige projeção de caixa, análise jurídica e negociação coordenada com credores.

    E precisa começar enquanto ainda há alternativas. O cenário mais caro que se observa na prática é o da gestão que adia a decisão para preservar a aparência de normalidade. A postergação reduz o poder de barganha e encarece a solução final.

    A segunda pergunta é sobre o ativo, não sobre a dívida. A venda integral faz sentido em casos de sucessão, mudança de tese dos acionistas ou consolidação setorial. A venda minoritária financia a expansão, traz governança e reduz a concentração patrimonial do fundador sem transferir o controle.

    Permanecer independente e fortalecer a geração de caixa antes de qualquer transação é uma terceira via, frequentemente a mais rentável. O preço, em qualquer cenário, não decorre do faturamento: compradores e investidores precificam recorrência de receita, concentração de clientes, qualidade dos controles, previsibilidade de caixa, contingências e dependência dos sócios. Em mercados seletivos, a distância entre uma boa empresa e uma empresa pronta para receber capital é o que separa o múltiplo do deságio.

    v=9Lic7dFcNCc Vale registrar o que os dados não dizem. Não é possível afirmar, com os indicadores aqui reunidos, que haverá aceleração generalizada de fusões e aquisições por causa do resultado eleitoral. A hipótese é plausível, mas precisa ser testada com séries de transações anunciadas e concluídas, por setor e por porte, antes de ser apresentada como tendência.

    No crédito, o repertório se ampliou. Os FIDCs registraram captação líquida de R$ 56 bilhões entre janeiro e setembro de 2026, segundo a Anbima. Em outra métrica, a de emissões no mercado de capitais, o volume foi de R$ 87,8 bilhões no mesmo intervalo, alta de 42,8% sobre igual período de 2025, também segundo a Anbima.

    São medidas distintas, e a captação líquida de fundos não se confunde com o volume de emissões, mas ambas apontam para um mercado em expansão. Expansão de mercado, porém, não é elegibilidade automática. A viabilidade de uma estrutura de recebíveis depende da natureza e da qualidade dos direitos creditórios, do histórico de pagamento dos sacados, da concentração da carteira, da documentação, do custo de estruturação e da governança.

    Para quem tem carteira consistente, o FIDC diversifica fontes e ajusta o financiamento ao ciclo operacional. Para quem não tem, o instrumento pode ser mais caro e mais arriscado que a linha bancária tradicional. O critério é o custo total, o risco retido e a aderência à operação.

    A reorganização do mercado Daí a utilidade de uma ordem de decisões. Primeiro, diagnosticar: se a operação perde dinheiro de forma recorrente, crédito novo apenas financia prejuízo. Segundo, se a margem é saudável, mas recebimentos e pagamentos estão descasados, a solução é capital de giro e revisão do ciclo financeiro.

    Terceiro, se o negócio cresce e os sócios não querem ampliar a exposição, um investidor resolve. Quarto, se a dívida inviabiliza o plano, a reestruturação precede a expansão. Uma decisão de capital defensável combina viabilidade operacional, capacidade de pagamento e objetivos dos acionistas, com cenários de receita, margem, juros, prazo de recebimento, investimento e valor de saída.

    Sem essa integração, o resultado típico é resolver o caixa de hoje ao custo do patrimônio de amanhã. O pós-eleição deve estimular conversas sobre sucessão, reorganização financeira, entrada de investidores e diversificação de crédito. Conversas, não transações automáticas.

    Cada operação se sustenta por seus fundamentos, não por uma narrativa de inevitabilidade. Em um ambiente de juros altos e crescimento moderado, o empresário que chega à mesa com demonstrações confiáveis, projeções consistentes e alternativas reais negocia melhor. Preservar a liberdade de escolha talvez seja, hoje, o ativo mais valioso do balanço.

    v=3KBurtoQuDA Daniel Lasse é CEO da Value Capital e da Lasse's Consultoria O post A eleição muda o humor; o balanço define o que a empresa pode fazer apareceu primeiro em Revista Oeste . ]]>

    Resumo publicado pelo SJX NEWS. O conteúdo integral pertence ao veículo de origem.

    Leia a matéria completa em Revista Oeste →