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    A guerra da Tata: as 24 horas que detonaram a disputa pelo maior império empresarial da Índia
    InvestNews·19 de set., 14:36

    A guerra da Tata: as 24 horas que detonaram a disputa pelo maior império empresarial da Índia

    Pouco antes do meio-dia de 17 de setembro, os conselheiros da Tata Sons , holding do maior conglomerado da Índia, reuniram-se em uma elegante sala no quarto andar da sede da companhia. De um lado da longa mesa, com capacidade para 20 pessoas, estava Noel Tata, presidente da Tata Trusts , o grupo de instituições filantrópicas que detém 66% da holding que, por sua vez, controla algumas das maiores marcas da Índia, da Air India à Jaguar Land Rover . Com as mangas arregaçadas e um documento de sete páginas à mão, ele chegou preparado com uma estratégia para manter fechada a empresa que leva o sobrenome de sua família.

    Entre os que estavam diante dele encontrava-se Natarajan Chandrasekaran, presidente da Tata Sons, de terno e gravata rosa-fúcsia. Conhecido como Chandra, Chandrasekaran comandava havia uma década a empresa de capital fechado e havia sinalizado abertura à ideia de levá-la à bolsa. Mas, depois que sua recondução não conseguiu apoio unânime no início deste ano, decidiu sair em vez de buscar outro mandato.

    Ainda assim, aquele não seria o último ato de Chandra. Em uma decisão surpreendente, os conselheiros da Tata Sons votaram por 4 a 1 para prorrogar seu mandato por mais cinco anos e decidiram avançar com medidas rumo a uma listagem em bolsa — rejeitando a posição de Noel e aprofundando a divisão sobre o controle e o futuro do conglomerado de 158 anos. Leia também Negócios J&F, dos Batista, se prepara para virar companhia aberta e ampliar acesso ao mercado de dívida Negócios Guerra familiar ameaça império de óculos que reúne Ray-Ban e Oakley O racha desencadeou uma guerra interna que provavelmente chegará aos tribunais da Índia e ao governo do primeiro-ministro Narendra Modi antes de ser resolvida.

    Uma linha de batalha clara foi traçada: a Tata Sons considera o assunto encerrado, enquanto a Tata Trusts classifica como “ilegal” a votação que prorrogou o mandato de Chandra. A controvérsia envolvendo a Tata Sons e o mandato de seu presidente deve alimentar a incerteza sobre a liderança do conglomerado indiano justamente quando o grupo conduz vários projetos emblemáticos para o país. O Tata Group planeja ampliar a produção local de iPhones da Apple e está construindo a primeira fábrica de chips da Índia.

    Os negócios já existentes do grupo estão entre os mais presentes e conhecidos do país, incluindo marcas globais como os hotéis Taj, produtos de consumo como o chá Tetley e a gigante de software Tata Consultancy Services. A tensão entre os conselheiros vinha crescendo antes mesmo da chegada à reunião na Bombay House, sede do grupo em Mumbai. A sequência imediata de acontecimentos começou seis dias antes, em 11 de setembro, quando o banco central da Índia rejeitou um pedido da Tata Sons para livrá-la de uma exigência regulatória que a obrigaria a abrir o capital.

    No dia anterior à reunião do conselho, uma das fundações tentou — sem sucesso — impedir que seu conselheiro representante, Venu Srinivasan, participasse do encontro e votasse nas propostas, refletindo divisões internas que logo viriam a público. Este relato das 24 horas em torno da reunião se baseia em entrevistas com pessoas a par dos acontecimentos, que pediram para não ser identificadas porque as discussões eram privadas. Representantes da Tata Trusts e da Tata Sons não responderam aos pedidos de comentário.

    Srinivasan não respondeu imediatamente a um pedido de comentário. Durante a primeira meia hora da reunião decisiva, os integrantes do conselho trataram de assuntos corriqueiros, como o desempenho trimestral e as contas da companhia, segundo as pessoas ouvidas. Em seguida, a conversa se voltou para a decisão do Reserve Bank of India, e o clima mudou à medida que a gravidade do assunto pesava sobre os presentes, disseram essas pessoas.

    Noel argumentou que a listagem não era inevitável e explicou metodicamente por que essa posição poderia ser defendida, sem elevar a voz nem demonstrar qualquer sinal de hostilidade na linguagem corporal, segundo pessoas a par da reunião. Sua proposta era que o conselho pedisse à Tata Sons que voltasse ao órgão regulador, solicitasse uma audiência com as autoridades mais graduadas para defender seu caso e, em seguida, esgotasse todas as demais opções jurídicas para continuar com o capital fechado. Se essas tentativas fracassassem, disse ele, a companhia poderia pedir ao menos mais três anos para cumprir a determinação, sob o argumento de que a abertura de capital exigiria extensas aprovações societárias e preparação financeira.

    O destino da estrutura fechada da Tata Sons está ligado à morte de Ratan Tata, antigo patriarca do grupo e meio-irmão de Noel, em outubro de 2024. Sete meses antes de sua morte, o conselho da Tata Sons decidiu por unanimidade manter a companhia com o capital fechado. A Tata Trusts reiterou publicamente essa decisão na quinta-feira.

    Em seguida, a companhia gastou cerca de 200 bilhões de rúpias, ou US$ 2,1 bilhões, para reduzir dívidas e sanear seu balanço, como parte de um esforço para deixar de se enquadrar na categoria regulatória que poderia obrigar a Tata Sons a abrir o capital. Noel Tata durante entrevista em Mumbai, na Índia, em 20 de junho de 2019. Depois do período de Ratan no comando, porém, o conglomerado passou a enfrentar uma pressão crescente de outros interessados, especialmente do banco central, para listar as ações da Tata Sons no mercado.

    O Shapoorji Pallonji Group, segundo maior acionista da Tata Sons, também vem defendendo separadamente a abertura de capital como uma forma de dar liquidez à sua participação. Os defensores da listagem, entre eles o SP Group, argumentam que ela aumentaria a transparência e a prestação de contas, além de criar um mecanismo para que os acionistas destravassem valor. A medida, no entanto, também diluiria a influência da Tata Trusts sobre a companhia e poderia limitar sua capacidade de tomar decisões livremente, protegida do intenso escrutínio de investidores e reguladores.

    O debate interno sobre a abertura de capital também se transformou em uma disputa indireta pelo poder entre Noel Tata e Chandra para decidir quem controlará o grupo em um momento crítico. A fabricante britânica de carros de luxo Jaguar Land Rover se recupera de um ataque cibernético prejudicial, a Air India enfrenta prejuízos recordes depois de um acidente fatal, e a Tata Consultancy Services, uma das maiores empresas de serviços de tecnologia do mundo, tenta retomar o crescimento enquanto a inteligência artificial transforma seu setor. Além de Noel Tata e Chandra, estavam reunidos na Bombay House para discutir os próximos passos Srinivasan, presidente emérito da fabricante indiana de motocicletas TVS Motor e, assim como Noel, indicado pela Tata Trusts ao conselho da Tata Sons.

    Também estavam presentes o ex-executivo da Unilever Harish Manwani, o diretor financeiro da Tata Sons, Saurabh Agrawal, e a ex-executiva do Banco Mundial Anita Marangoly George. Os três se juntariam a Srinivasan na votação contra a posição de Noel. Em seu documento cuidadosamente redigido para o conselho, Noel sustentou que a Tata Trusts já havia decidido, dois anos antes e ainda sob Ratan, manter a Tata Sons fechada.

    Também afirmou que as instituições filantrópicas que controlam dois terços da empresa deveriam ter a oportunidade de avaliar qualquer reversão dessa política antes que o conselho da Tata Sons agisse. Como alternativa, Noel apresentou uma proposta do Shapoorji Pallonji Group para vender parte de sua participação de 18,4% na Tata Sons. O plano previa que a Tata Sons recomprasse ações do SP Group em duas etapas ao longo de 18 meses, garantindo ao grupo pelo menos 250 bilhões de rúpias, ou US$ 2,6 bilhões, em dinheiro sem obrigar a Tata Sons a abrir o capital.

    Noel afirmou que a recompra poderia ser financiada com recursos próprios, vendas de participações em empresas listadas do grupo Tata, investimentos externos em negócios mais novos e possíveis aberturas de capital de algumas unidades do conglomerado. Bombay House, sede do Grupo Tata, em Mumbai, na Índia. Foto: Dhiraj Singh/Bloomberg Ao defender sua posição, Noel também apresentou um parecer jurídico escrito por um ex-presidente de tribunal que apoiava a interpretação da Tata Trusts sobre as regras que disciplinam a nomeação e a recondução do presidente da Tata Sons.

    No primeiro sinal de desunião, porém, o conselho se recusou a incluir formalmente o parecer escrito nos registros da reunião, segundo as pessoas ouvidas. Em seguida, Manwani, presidente do Comitê de Nomeação e Remuneração do conselho, apresentou uma resolução para prorrogar o mandato de Chandra por mais cinco anos. Chandra declarou-se impedido e deixou a sala enquanto os demais conselheiros discutiam seu futuro, segundo pessoas a par da reunião.

    Noel se opôs à prorrogação. Argumentou que a decisão de Chandra, comunicada em 12 de agosto, de não se candidatar a outro mandato havia sido claramente informada e aceita, e disse ao conselho que “a página havia sido virada”. Funcionários, credores e mercados de capitais já haviam agido com base na saída do executivo, sustentou Noel, e reverter a decisão provocaria transtornos.

    Ele também citou o Artigo 121 dos documentos que regem a Tata Sons e afirmou que qualquer medida para nomear ou reconduzir o presidente da companhia exigia o apoio da maioria dos conselheiros indicados pela Tata Trusts. Os dois indicados, no entanto, estavam divididos ao meio: enquanto Noel se posicionou contra a prorrogação do mandato de Chandra, Srinivasan a apoiou, deixando os votos da Tata Trusts empatados em 1 a 1. Noel tentou novamente invocar seus poderes especiais como presidente da Tata Trusts, mas os demais prosseguiram e apoiaram Chandra por mais cinco anos.

    O conselho, sem Noel, também aprovou a proposta de avançar com as medidas necessárias para cumprir as exigências do banco central. Quase três horas depois do início da reunião, os conselheiros fizeram uma pausa para o almoço. Noel havia perdido as votações decisivas na sala do conselho, e a disputa já começava a sair do quarto andar.

    O contra-ataque Por volta das 15h, Noel deixou a Bombay House em um Range Rover cinza e seguiu para um escritório onde uma equipe de advogados e executivos o aguardava. Enquanto atravessava a cidade, a Tata Sons começou a apresentar à imprensa sua versão da reunião. A equipe de comunicação da holding informou que Chandra havia concordado em reconsiderar sua saída, que a maioria dos conselheiros o havia reconduzido por cinco anos e que a Tata Sons começaria a tomar medidas para cumprir as exigências do RBI.

    As manchetes resultantes se espalharam pelos serviços de notícias financeiras e provocaram movimentos expressivos no mercado. Quando Noel chegou ao escritório, já era pública a narrativa que o retratava como derrotado em uma batalha decisiva no conselho. Ele analisou pessoalmente um comunicado que reagia a essa versão, indicando que o debate sobre o futuro do grupo estava longe de terminar e que seus argumentos acabariam prevalecendo.

    Por volta das 16h30, uma primeira ofensiva por e-mail, que reforçava esses argumentos, chegou às caixas de entrada dos jornalistas. Nas horas seguintes, enquanto Noel ditava novos pontos e consultores e advogados acertavam a redação, outros comunicados foram divulgados, classificando as decisões do conselho como injustificadas e indefensáveis. Por volta das 21h15, a Tata Trusts já havia publicado cinco comunicados detalhados — um confronto público extraordinário para um grupo conhecido pela discrição.

    A Tata Trusts contestou a versão da Tata Sons, afirmando que não havia acordo para abrir o capital e que o conselho, na verdade, concordara em examinar todas as alternativas disponíveis. Em relação a Chandra, a linguagem foi mais dura: a prorrogação era “ilegal”, afirmou, e o empate em 1 a 1 entre os indicados da Tata Trusts tornava a nomeação uma “nulidade jurídica”. A contraofensiva rapidamente foi além da troca de comunicados.

    Até o fim da noite, Noel e sua equipe consultavam advogados experiente

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