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    A Omertà de Gilmar Mendes
    Revista Oeste·27 de set., 19:00

    A Omertà de Gilmar Mendes

    *Marlon Reguelin Desde que foi lançado em 1972, a trilogia O Poderoso Chefão povoa o imaginário coletivo de milhões de pessoas que maravilharam-se com as atuações de Marlon Brando, Al Pacino, Diane Keaton, entre várias outras estrelas do cinema mundial. Um dos grandes trunfos das artes cénicas é transmutar a vida real à dramaturgia, incluindo aqui e acolá elementos cotidianos que enriquecem o enredo e mimetizam a vida de quem está do lado de cá da telona. + Entenda o que é Política em Oeste Na sessão da ultima terça-feira (15) no Supremo Tribunal Federal (STF) , o ministro Gilmar Mendes discursou em defesa do colega Alexandre de Moraes — este sob investigação (indireta) por estreitíssima relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, do falido Banco Master — com palavras/frases que não deixam margem para interpretação: "Eu protejo você; Relação de máfia; Isso não se faz, não é ambiente de pessoas dignas.

    ] Mesmo o colega que esteja eventualmente envolvido, que teve um filho [envolvido], não pode estar submetido a esse tipo de vexame”. O vexame, no caso, é a possibilidade de aprofundamento da investigação contra Moraes. Gilmar, ele próprio, usou a palavra: Máfia.

    Ele próprio invocou o código dela. Só faltou urrar “ omertà ", em italiano mesmo para fechar a comparação — mas o espírito dela já estava todo ali. Vale registrar o cenário de onde ele veio para dizer isso.

    Poucos dias antes, Gilmar Mendes estava do outro lado do Atlântico, brindando às margens do Lago di Como, na Itália, no casamento da filha do empresário Marcos Molina — dono da Marfrig/BRF e amigo de longa data do ministro. Consta que ele chegou a participar remotamente de um julgamento por telefone, ainda na festa, antes de passar por uma conferência na Universidade de Turim e embarcar de volta a Brasília bem a tempo de discursar, pessoalmente, sobre lealdade, dignidade e os limites do que se pode expor sobre um outro membro. Trocou o brinde por um sermão sobre honra de família — a coincidência do cenário deixa a coisa toda ainda mais vexante.

    Omertà : o silêncio como lei não escrita Na Sicília do século 19, omertà era o nome dado ao código que unia as famílias da máfia: nunca colaborar com autoridades, nunca testemunhar contra os pares, nunca expor para fora do clã o que dentro acontece. Não era uma regra escrita em lugar nenhum — era mais forte do que isso, pois vivia na tradição, n costume, na lealdade tribal, no medo compartilhado. Gilmar Mendes, sem perceber (ou percebendo muito bem), descreveu essa mesma lógica ao pedir que um colega investigado não fosse exposto a "vexame" só porque seu filho também estaria envolvido no caso.

    Traduzindo: “ la cosa nostra " fica em família. O que vaza para fora das paredes do tribunal é traição, não transparência. v=PmYPy6h9CGE Essa defesa não é isolada.

    Na mesma sessão, ficou claro que o problema não é de um único ministro: mensagens vazadas sugerem supostos pagamentos do Banco Master ao filho do ministro Kássio Nunes Marques, coincidindo com julgamentos de interesse do banco; o ministro Flávio Dino citou a relação do filho do presidente Luiz Fux, advogado, com Vorcaro; e o próprio Dino pediu investigação sobre o ministro André Mendonça por suposta ligação com o banqueiro via o Instituto Iter. Ou seja: não é um ministro protegendo outro. É, aparentemente, uma família inteira de relações cruzadas em torno do mesmo nome — e Gilmar Mendes, ao pedir silêncio e discrição, agiu exatamente como o consigliere que orienta a família a não lavar roupa suja em praça pública.

    O juramento de sangue Toda organização que se preza pelo código da omertà tem, na origem, um rito de vinculação: o juramento de sangue, o gesto que transforma um grupo de indivíduos numa família de fato, com lealdade acima da lei. O Supremo não tem cerimônia de iniciação, claro — mas tem algo funcionalmente parecido: décadas de convivência entre os mesmos onze nomes, decisões que se blindam mutuamente, o mais privilegiado dos foros, que na pratica garante que só os próprios colegas podem julgar um deles. Quando Gilmar argumenta que submeter um ministro a "vexame" público — mesmo diante de um filho supostamente envolvido em pagamentos de um banco fraudulento — é "de uma falta de noção" e pede que Deus interceda antes que alguém ceda à "tentação" de revelar, ele está, na prática, descrevendo um vínculo que se protege a si mesmo antes de proteger a lei.

    É o juramento (mal) disfarçado de zelo institucional. O Poderoso Chefão, sem metáfora nenhuma É quase impossível não pensar no clássico de Coppola diante dessa cena: o patriarca (decano) que resolve os problemas da família longe dos olhos do Estado, que trata a exposição pública como a pior das traições, que confunde lealdade pessoal com princípio. A diferença é que, no cinema, ninguém fingia que aquilo era justiça — era, explicitamente, crime organizado se defendendo.

    No STF de 2026, a mesma lógica é apresentada com toga, verniz de sobriedade e a palavra "dignidade" usada no extremo oposto seu sentido. Don Corleone, pelo menos, nunca teve a pretensão de presidir o Judiciário do país enquanto pedia sigilo aos seus. O princípio que Gilmar tentou inverter A ironia mais dura é jurídica, não literária: o próprio conceito de Justiça — aquele que dá nome ao cargo que Gilmar Mendes ocupa — se apoia no princípio de que ninguém está acima da lei, e de que a exposição pública de um investigado não é humilhação, mas devido processo.

    Não existe "vexame" em ser investigado; existe vexame em usar a toga para blindar quem deveria, mais do que ninguém, zelar pela justiça, imparcialidade e retidão. ) —, ele inverteu o sentido da própria instituição — e da justiça — que jurou defender. O placar da lealdade A sessão terminou em 4 a 3 contra a proposta do próprio Gilmar de unir os julgamentos de Moraes e Mendonça — uma votação apertada que, por si só, mostra a Corte rachada ao meio sobre até onde vai essa lealdade interna.

    Flávio Dino pediu vista e tem até 90 dias para devolver o processo, empurrando a definição para o pós eleição de outubro. Enquanto isso, o Brasil assiste, em tempo real, ao que acontece quando uma instituição decide que proteger os seus vale mais do que ser transparente com todos uma nação. A Sicília do século 19 tinha, ao menos, a decência de não fingir que aquilo era Justiça.

    *Marlon Reguelin. Jornalista e teólogo, é articulista no Instituto Liberal e em Oeste. Escreve sobre política, história e cosmovisão.

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