A rota do gelo
Não é só na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia que há rotas terrestres bloqueadas por intensas nevascas durante o inverno do Hemisfério Norte (HN). Na América do Sul, a travessia da cordilheira dos Andes entre Chile e Argentina, durante o inverno austral — do fim de junho ao fim de setembro —, é um exemplo análogo desse problema no Hemisfério Sul (HS). Nesse período, especialmente em agosto, determinados quadros meteorológicos provocam precipitação significativa de neve sobre as montanhas e podem inviabilizar o transporte terrestre por dias.
Depois das notícias generalizadas sobre o caos provocado pelo inverno de 2025-2026 no HN em cidades e vilarejos de diversos países, especialmente nas rotas de transporte terrestre, com regiões isoladas pelo acúmulo de neve, o inverno de 2026 no HS também apresentou transtornos semelhantes. Na América do Sul, as rotas andinas são as mais atingidas, geralmente em latitudes superiores a 28°S, estendendo-se facilmente até o extremo sul do continente. A elevada precipitação de neve é ocasionada pelas menores temperaturas do inverno e pela umidade que a baixa troposfera — a primeira camada da atmosfera, de baixo para cima — recebe em contato com o Oceano Pacífico Sul.
Embora o ar frio tenha menor capacidade de reter vapor d’água, a principal contribuição de umidade para grandes nevascas é proveniente da persistência do escoamento atmosférico de oeste, que domina a circulação dos ventos nessas latitudes e se torna mais intenso no inverno. Assim, mesmo que as parcelas de ar carreguem menor quantidade de vapor em razão das baixas temperaturas, o transporte acelerado acaba por compensar essa condição, aumentando a carga final de umidade. Uma vez que esse fluxo persistente é forçado a galgar as elevações a barlavento da cordilheira dos Andes — a face da montanha atingida pelo vento —, a temperatura das parcelas de ar cai ainda mais, possibilitando que o vapor saia do ar tanto por condensação quanto por congelamento.
Inicialmente, a face da elevação que recebe o escoamento do ar é a que acumula mais chuva e precipitação de neve, recarregando as bacias hidrográficas de toda a região. No caso andino, porém, a circulação é tão intensa e carregada de umidade que consegue transpor parte das regiões mais altas e descarregar pancadas de neve nas montanhas interiores da cordilheira e, às vezes, um pouco além. Esses casos são mais excepcionais porque, em geral, depois da transposição e da perda de umidade na vertente a barlavento, o ar que passa a descer a elevação é comprimido, pois a pressão atmosférica aumenta à medida que a altitude diminui.
Como a compressão ocorre de forma adiabática, praticamente sem troca de calor e sem acréscimo de umidade, as parcelas chegam a sotavento da cordilheira — a face da montanha de onde sai o vento — muito secas e com temperaturas mais elevadas. É justamente nessas regiões que se localizam áreas extremamente áridas ou desérticas, como o deserto da Patagônia, na Argentina, com cerca de 673 mil quilômetros quadrados, o oitavo maior do mundo em extensão. No inverno andino deste ano, os quadros meteorológicos apresentaram o padrão de circulação de ventos de oeste descrito anteriormente, sempre acompanhado pela passagem consecutiva de Anticiclones Polares Móveis (APM).
Um episódio que reforçou as intensas nevascas andinas e interrompeu algumas rodovias que ligam o Chile à Argentina começou em 2 de agosto e durou até o dia 10. Em 5 de agosto, foi possível observar que um dos quadros foi composto pela passagem de pelo menos dois Anticiclones Polares Móveis, em uma configuração mais zonal — dentro de uma estreita faixa de latitudes —, deslocando-se de oeste para leste entre as latitudes de 28°S e 45°S (Fig. 1).
Recorte de imagem do satélite geoestacionário GOES-19, Canal 13 Infravermelho, América do Sul. Formações de Ciclones Extratropicais (CET, L), em diversos estágios evolutivos, intercaladas por Anticiclones Polares Móveis (APM, H) que atuaram no Cone Sul. A seta azul indica o fluxo constante que transportou umidade contra a cordilheira dos Andes, provocando intensas nevascas (linha tracejada amarela), em 5/8/2026, às 00h10Z (4/8/2026, às 21h10, horário de Brasília, ou 21h10P).
L — Centros de baixa pressão atmosférica em superfície; H — Centros de alta pressão. (Fonte: Inmet, 2026) Na ocasião, houve a formação de um Ciclone Extratropical (CET) a sudoeste do Chile, sobre o Pacífico, e de outro, de menor envergadura, na costa da Argentina. Com o passar das horas (Fig.
2), este último evoluiu para seu estágio maduro e se posicionou a cerca de 600 km a nordeste das Ilhas Malvinas (Fig. 3). Entre eles, é possível observar que o escoamento de oeste, marcado pela nebulosidade, tomou toda a região da cordilheira, desde o sul do Chile, na região do Parque Laguna San Rafael, até mais ao norte, na região mais seca de La Serena.
Recorte de imagem do satélite geoestacionário GOES-19, Canal 13 Infravermelho, América do Sul. Evolução do quadro apresentado na Fig. 1, com o fluxo troposférico zonal do Pacífico bem acentuado (seta azul).
É possível observar algumas ondas de montanha na imagem, no setor onde ocorreriam as nevascas (linha tracejada amarela). O fluxo se conectou ao grande CET que se forma no Atlântico Sul, a nordeste das Ilhas Malvinas, em 5/8/2026, às 12h10Z (9h10P). L — Centros de baixa pressão atmosférica em superfície; H — Centros de alta pressão.
(Fonte: Inmet, 2026) Recorte de imagem do satélite geoestacionário GOES-19, Canal 13 Infravermelho, América do Sul. Evolução do quadro apresentado na Fig. 3.
O fluxo permaneceu carregando a cordilheira de umidade (seta azul), suprindo as áreas atingidas pela nevasca (linha tracejada amarela), mas se desconectou do CET, a nordeste das Ilhas Malvinas. A sotavento dos Andes, o escoamento provocou a formação de um novo centro de baixa pressão em superfície sobre o Cone Sul, que manteve a força do escoamento, em 5/8/2026, às 18h10Z (15h10P). L — Centros de baixa pressão atmosférica em superfície; H — Centros de alta pressão.
(Fonte: Inmet, 2026) A deposição de neve atingiu uma das principais estradas que ligam Santiago, no Chile, a Mendoza, na Argentina: a CH-60, a Rota dos Libertadores. A rodovia, situada um pouco mais ao norte da capital chilena, é conhecida como Los Caracoles por sua sequência de curvas fechadas que descem da parte alta dos Andes, no Chile, em direção à parte baixa do platô argentino. (A) Recorte de mapa da região da cordilheira dos Andes onde se situa a rodovia Los Caracoles (Fonte: Google Maps, 2026) (B) recorte de imagem de satélite da mesma região (Fonte: Google Maps, 2026) Embora a maior quantidade de neve tenha ocorrido nas vertentes a barlavento, este é um dos casos em que a circulação intensa de oeste consegue transpor as áreas mais altas e provocar precipitação de neve também em parte da vertente a sotavento da cordilheira, em razão da natureza desalinhada do relevo.
As nevascas ocorridas nos primeiros dez dias de agosto de 2026 foram devastadoras para o transporte terrestre, bloqueando não apenas a rodovia que liga os dois países, mas também várias estradas vicinais. Estima-se que pelo menos 2 mil caminhões tenham ficado parados por mais de dez dias, impossibilitados de transitar. Os caminhoneiros sofreram bastante com o frio persistente e a falta de recursos.
Em 10 de agosto, a temperatura do ar chegou a -7°C. O lado chileno executou mais rapidamente o desbloqueio da rota, mas a quantidade de neve foi bastante elevada e dificultou os trabalhos. Dados preliminares indicaram que o acúmulo passou de 6 metros nos trechos mais afetados, igualando-se a marcas recordes de 40 e 100 anos atrás.
Embora ainda aguardemos um registro mais fidedigno do Serviço Meteorológico do Chile, isso remeteria aos anos 1980, no fim do período frio do século 20, e aos anos 1920, outro período de rápida mudança de frio para quente, também no século 20. Algumas notícias relataram que a grande quantidade de neve precipitada estaria associada à maior disponibilidade de umidade na atmosfera sobre o Pacífico em razão do El Niño esperado. Esse não parece ser o caso, porque a circulação zonal de oeste para leste só alcança latitudes menores quando o estágio de El Niño está bem estabelecido, com a quebra da circulação dos ventos alísios de leste sobre o Pacífico tropical.
Além disso, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês), em relatório de julho, sinalizou que estaríamos entrando na fase inicial do El Niño, com base na avaliação do trimestre de maio a julho (Fig. 5). A Temperatura da Superfície do Mar (TSM), nas latitudes correspondentes às áreas das nevascas, mal subiu 0,5°C em relação à média para o período.
Assim, por enquanto, o fenômeno começou a reforçar a precipitação de chuva no setor mais ao norte do Chile. Gráfico temporal do índice que define a fase do fenômeno ENOS-La Niña, elaborado pela NOAA. Segundo o relatório de julho de 2026, estaríamos entrando na fase El Niño em agosto, conforme a avaliação do trimestre de maio a julho.
(Fonte: recorte do relatório ENOS da NOAA, p. 21, 2026) Devemos lembrar que a situação recente não é novidade. Tivemos casos análogos há pouco tempo.
Em agosto de 2023, as rodovias da região andina do Chile estiveram fechadas, e a mesma rota Chile-Argentina, a CH-60, permaneceu duas semanas paralisada por causa das intensas nevascas ocorridas entre os dias 13 e 28. Na ocasião, a Passagem Internacional Cristo Redentor chegou a registrar 5 metros de neve acumulada. Os caminhoneiros brasileiros foram os que mais sofreram na época, especialmente os que se dirigiam aos Estados da Região Sul do Brasil.
Mais recentemente, no início de julho de 2025, foi a vez de a rota CH-27 ficar fechada por cinco dias durante uma das primeiras nevascas intensas que atingiram o Chile naquele ano. A rodovia fica mais ao norte e tem 156 km de extensão, ligando o vilarejo de San Pedro de Atacama ao Paso de Jama, próximo da fronteira com a Argentina. 000 metros acima do nível médio do mar.
Como a rodovia é a principal ligação entre o deserto do Atacama e a fronteira da Argentina, é muito utilizada para o turismo, o que exige atenção especial das autoridades durante o inverno, diante da recorrência de nevascas perigosas na região. De fato, é interessante registrar que, embora o inverno de 2026 no HS esteja quase no fim, ele registrou, até o momento, recordes de precipitação de neve na região andina, especialmente sobre a rodovia CH-60. Isso desbanca a hipótese formulada 18 anos atrás segundo a qual o “aquecimento global” comprometeria a recarga de neve das geleiras da cordilheira, prejudicando o abastecimento de água para a agricultura e para a população na vertente oeste.
Vivemos para testemunhar mais uma afirmação sem fundamento. Leia também: "Onde fica a terra dos veterinários" , artigo publicado na Edição 339 da Revista Oeste O post A rota do gelo apareceu primeiro em Revista Oeste . ]]>
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