Afya e Yduqs inauguram nova fase na corrida pelas faculdades de medicina
Anunciada nesta semana, a fusão entre a Afya e a Yduqs criará a maior empresa de ensino de medicina do país. O negócio acontece num momento de virada para o setor: depois de uma década marcada pela abertura acelerada de novos cursos, crescer agora depende cada vez mais de fusões e aquisições de faculdades já consolidadas. Com a fusão, que ainda depende do aval dos órgãos reguladores, a empresa conjunta terá 50 escolas de medicina, 38 mil alunos e 5,9 mil vagas anuais.
Trata-se de 17% de todas as vagas de faculdades privadas de medicina no Brasil. O negócio une uma empresa especializada em medicina a um dos maiores grupos de ensino superior do país. A Afya construiu seu negócio em torno da formação médica, com 32 faculdades espalhadas pelo país.
E a Yduqs atua em diferentes áreas da educação e reúne seus cursos de medicina no IDOMED, que hoje tem 19 escolas no país, sob marcas como Estácio, FAMEAC e UniFacid. A operação cria uma distância considerável para os outros grandes grupos desse mercado, como Ânima, Ser Educacional, Cruzeiro do Sul e Cogna. A segunda colocada, a Ânima – dona de faculdades como Anhembi Morumbi, São Judas e UniSul – responde por 5% das vagas privadas do curso.
Para Afya e Yduqs, a combinação também amplia a presença geográfica de seus negócios. Juntas, elas terão cursos de medicina em 18 estados. Para a Afya, o acordo vem poucos meses depois de um revés nos planos de expansão .
400 vagas de medicina pelo Mais Médicos III, mas o governo cancelou o edital em fevereiro – em meio a uma revisão mais ampla do ensino médico no país, que colocou no centro da discussão a qualidade dos cursos abertos nos últimos anos. A corrida por novos cursos Medicina virou um dos negócios mais cobiçados pelos grandes grupos de educação do país, já que as mensalidades altas e os seis anos de curso tornam cada aluno especialmente rentável. Em média, um estudante desembolsa R$ 800 mil ao longo da graduação, segundo o Semesp, uma entidade do setor.
Leia também Negócios O que está por trás da explosão de processos contra os planos de saúde Negócios Na Amil, Júnior Seripieri já se pagou. O que vier agora é (mais) lucro Desde então, o número de vagas anuais de medicina no país saltou de 16,4 mil em 2010 para 67,8 mil em 2024, uma alta de 313%. A corrida por novas vagas desacelerou em 2018, quando o governo suspendeu a abertura de novos cursos.
Na época, o Ministério da Educação (MEC) dizia que era hora de reavaliar os termos e a qualidade dessa expansão. A suspensão levou centenas de faculdades à Justiça para tentar abrir cursos sem passar pelos editais do governo, fazendo prevalecer a judicialização como caminho para a criar novas vagas. Neste ano, o governo apertou novamente o cerco.
Na primeira edição do Enamed , exame criado para avaliar a formação dos estudantes de medicina, 107 dos 351 cursos avaliados tiveram desempenho insatisfatório. O resultado levou o MEC a impor restrições aos cursos com pior avaliação. A rota das aquisições Com isso, grandes grupos de educação passaram a olhar com mais atenção para faculdades que já têm cursos de medicina autorizados – já que uma aquisição permite incorporar vagas que já existem, em vez de esperar uma nova autorização do MEC.
A Afya foi uma das que seguiu por este caminho. Em 2024, comprou por R$ 620,8 milhões a Unidom, em Salvador, que tinha autorização para oferecer até 300 vagas anuais. Outro exemplo é a Ser Educacional, dona de faculdades como UNINASSAU e UNAMA.
Ela comprou três instituições entre 2020 e 2022 e, com essas aquisições, elevou suas vagas de medicina de 268 para 521. A Cogna, dona da Anhanguera, voltou às aquisições em 2025, depois de seis anos sem comprar uma faculdade. Pagou R$ 54,4 milhões pela Faculdade de Medicina de Dourados, que tinha 60 vagas autorizadas.
O teste da concentração A fusão entre Afya e Yduqs leva a estratégia de M&As do setor para uma nova escala. E, segundo uma análise do JP Morgan, a concentração em algumas cidades pode se tornar um ponto de atenção nessa análise. A Yduqs também tem uma presença forte no Nordeste, sobretudo no Ceará, além de uma concentração importante no Rio.
Em algumas cidades, a união das duas redes resultará em uma fatia expressiva do mercado. Em Ji-Paraná, em Rondônia, Afya e Yduqs somam 100% das vagas privadas de medicina. Em Teresina, 53%.
No Rio de Janeiro, 48%. Mas há um contraponto: como muitos estudantes de medicina mudam de cidade para estudar, o Cade pode entender que essas faculdades também concorrem com instituições de outros municípios – o que reduziria o peso da concentração em uma única cidade. Os concorrentes Uma eventual exigência do Cade para que Afya e Yduqs se desfaçam de algumas faculdades pode movimentar novamente o mercado de aquisições.
O Itaú BBA aponta Cogna e Cruzeiro do Sul como as principais candidatas a essas compras. As duas têm maior capacidade financeira para aproveitar uma eventual venda, enquanto Ânima e Ser Educacional vivem momentos diferentes. A Ânima ainda está absorvendo a compra da FMU.
A Ser, por sua vez, tem apostado mais na abertura de novas vagas e na expansão das faculdades que já possui no Norte e Nordeste. A fusão também pode aumentar a pressão sobre os concorrentes para investir na qualidade e na estrutura dos cursos. Na avaliação do Itaú BBA, o tamanho da nova empresa amplia sua capacidade de investir na atração de alunos, na força das marcas e em ferramentas digitais voltadas à formação e à prática médica.
É uma boa notícia num momento em que o setor enfrenta uma cobrança maior pela qualidade dos cursos. É uma boa notícia num momento em que a qualidade do ensino médico está sob escrutínio . Neste ano, o MEC começou a usar o desempenho dos alunos no Enamed para punir cursos com resultados ruins, com medidas que incluem redução de vagas e suspensão de novos ingressos.
As sanções chegaram a ser suspensas pela Justiça, mas voltaram a valer em agosto. Para o ano que vem, o Enamed ficará ainda mais presente na rotina das faculdades: a prova passará a ser aplicada duas vezes por ano e também servirá para avaliar alunos do quarto ano de medicina – dois anos antes do término do curso. ]]>
Resumo publicado pelo SJX NEWS. O conteúdo integral pertence ao veículo de origem.
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