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    Forbes Brasil·27 de out., 08:00

    Ajuste Fiscal de R$ 450 Bilhões Expõe o Tamanho do Desafio de Lula

    Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo. Lula terá pela frente um ajuste fiscal que pode chegar a R$ 450 bilhões para estabilizar a dívida pública. A estimativa da Instituição Fiscal Independente (IFI) parte de um cenário em que o Brasil registre déficit primário de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2027.

    Para interromper o avanço da dívida em relação ao tamanho da economia, seria necessário inverter o resultado e alcançar um superávit de aproximadamente 2% do PIB. A diferença entre os dois resultados é de três pontos percentuais do PIB. Considerando uma economia de cerca de R$ 15 trilhões em 2027, isso equivale a um esforço fiscal de R$ 450 bilhões.

    A conta indica a dimensão da mudança necessária entre receitas e despesas para atingir o resultado considerado suficiente para estabilizar o endividamento. O desafio será promover essa mudança sem agravar a desaceleração econômica e em meio à pressão de despesas obrigatórias que crescem de acordo com regras legais. Para Marcus Pestana, diretor-executivo da IFI, não basta anunciar cortes ou buscar novas receitas.

    O governo precisa apresentar um plano que indique como pretende melhorar as contas ao longo dos anos e convencer investidores de que conseguirá executá-lo. “Não é necessário promover um ajuste da noite para o dia, mas é fundamental que o ministro da Fazenda seja alguém capaz de transmitir confiança e credibilidade, com um programa que dê previsibilidade à condução da política econômica”, afirma. A preocupação não se limita ao resultado fiscal de um ano.

    O Brasil registra déficits primários desde 2014, e a dívida acumulada torna o país mais sensível ao custo de financiamento. Em agosto de 2026, a dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB, ou R$ 11,1 trilhões, segundo o Banco Central. O indicador havia aumentado 4,2 pontos percentuais do PIB desde o fim de 2025.

    O aumento do endividamento não decorre apenas da diferença entre o que o governo arrecada e gasta antes do pagamento de juros. O custo de carregar a dívida também pesa: em 12 meses até agosto, os juros nominais do setor público somaram R$ 1,18 trilhão, o equivalente a 8,86% do PIB, segundo o Banco Central. Quando os investidores percebem maior risco fiscal, tendem a exigir remuneração mais alta para emprestar ao governo, tornando mais cara a emissão de títulos e a renovação de dívidas que vencem.

    Esse custo não fica restrito às contas públicas. As taxas de mercado também influenciam as condições de crédito para empresas e famílias, que enfrentam mais dificuldade para financiar investimentos e consumo quando os juros estão elevados. “Chegamos a esse momento com um país bastante endividado, e o problema não se restringe ao governo: as famílias e as empresas também enfrentam níveis elevados de endividamento.

    Ao mesmo tempo, as taxas de juros de mercado, especialmente as projetadas nos contratos futuros, permanecem muito altas”, afirma Silvio Campos Neto, economista-chefe de Macroeconomia da Tendências Consultoria. A combinação de crédito caro e endividamento elevado limita a capacidade de expansão da economia. Famílias comprometidas com dívidas têm menos margem para consumir; empresas podem adiar projetos diante do custo do financiamento; e o governo precisa lidar com uma conta de juros que reduz o espaço disponível no Orçamento.

    O resultado é um círculo difícil de romper: a fragilidade fiscal contribui para manter o custo do dinheiro elevado, enquanto os juros altos dificultam a retomada da atividade e tornam mais custoso administrar a dívida. As perspectivas para 2027 reforçam a preocupação. A IFI projeta crescimento real de 1,8% para o PIB no próximo ano, abaixo dos 2% estimados para 2026.

    A instituição também prevê que a dívida bruta suba para 86,4% do PIB em 2027. São projeções, não resultados certos, mas apontam para a combinação de crescimento moderado e endividamento crescente que torna mais urgente a discussão sobre as contas públicas. Para Campos Neto, a economia brasileira deve entrar em 2027 com menos fôlego, pressionada pelo custo elevado do crédito e pelo endividamento de governos, empresas e famílias.

    Os juros altos encarecem os financiamentos, dificultam a realização de investimentos e limitam o consumo, o que tende a reduzir o ritmo da atividade econômica. O cenário, porém, traz um complicador: a desaceleração não significa necessariamente um alívio rápido para a inflação. A desvalorização do real pode encarecer produtos importados e mercadorias com preços vinculados ao dólar, mantendo pressões sobre os preços mesmo com a economia crescendo menos.

    A discussão sobre o fim da escala de trabalho 6×1 também pode acrescentar custos às empresas, dependendo de como a mudança for implementada. Se essas pressões persistirem, o Banco Central terá menos espaço para reduzir os juros sem colocar em risco a convergência da inflação para a meta. “Esse cenário já indica uma economia perdendo força, com uma desaceleração que deve se intensificar em 2027 e uma inflação que continua preocupando por diferentes fatores”, afirma Campos Neto.

    Na avaliação do economista, a combinação de atividade mais fraca e inflação ainda pressionada pode dificultar a condução da política monetária. Ele considera possível mais um corte na taxa básica de juros na próxima reunião, mas avalia que o Banco Central poderá interromper o ciclo em seguida para acompanhar a evolução do câmbio e dos preços. É nesse contexto que o ajuste fiscal se torna decisivo.

    Sem uma trajetória crível para conter o avanço das despesas e estabilizar a dívida, os juros podem permanecer elevados por mais tempo, limitando o crédito, o investimento privado e o crescimento. O desafio do próximo governo será mostrar como pretende corrigir as contas públicas sem comprometer ainda mais uma economia que já dá sinais de perda de fôlego. Uma conta que ficou maior A IFI também vê um descompasso nas contas previstas para 2027.

    Em seu relatório de setembro, a instituição calculou que o resultado fiscal poderá ser R$ 104 bilhões pior do que o estimado pelo governo no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA), enviado ao Congresso em agosto. A diferença não corresponde a uma única despesa, mas à combinação de gastos que, na avaliação da IFI, foram subestimados e receitas que foram superestimadas pelo governo. Na prática, isso significa que o Orçamento pode contar com menos dinheiro entrando e mais recursos saindo do que o previsto, ampliando o desafio para cumprir as metas fiscais.

    Agora, novas medidas anunciadas pelo governo ampliaram a pressão sobre as contas públicas. O reajuste do Bolsa Família deverá custar R$ 23 bilhões em 2027. A proibição das apostas on-line, as chamadas bets, pode reduzir a arrecadação em R$ 6 bilhões a R$ 10 bilhões.

    Já o perdão de dívidas de microempreendedores individuais (MEIs) deverá provocar, inicialmente, uma perda de receita de aproximadamente R$ 8 bilhões. Juntas, essas iniciativas representam um impacto adicional estimado em R$ 41 bilhões, sem incluir a gratuidade das passagens de ônibus aos fins de semana e o Pé-de-Meia voltado ao ensino superior. “É um conjunto de promessas e medidas que torna ainda mais complexo um cenário fiscal que já é extremamente delicado”, afirma Campos Neto.

    Além disso, o resultado primário não mostra toda a pressão sobre a dívida. Pestana chama a atenção para o avanço das despesas financeiras e parafiscais, que ficam fora do cálculo da meta primária, mas afetam o endividamento. Entre os exemplos estão subsídios do Minha Casa, Minha Vida e programas de crédito favorecido para veículos e motoristas de aplicativos.

    “Não adianta controlar o resultado primário se, ao mesmo tempo, houver expansão das despesas financeiras e parafiscais”, diz Pestana. Por que é tão difícil cortar gastos O problema fiscal brasileiro não está apenas no volume de dinheiro que o governo gasta, mas na dificuldade de frear o crescimento dessas despesas. Uma parcela expressiva do Orçamento é comprometida com obrigações que aumentam de acordo com regras estabelecidas em lei.

    Com isso, mesmo quando o governo tenta conter os gastos, sobra pouco espaço para reduzir despesas sem mexer em benefícios sociais ou no financiamento de serviços públicos. A mudança do teto de gastos para o arcabouço fiscal, em 2023, não eliminou essa dificuldade. O novo regime estabeleceu limites para o crescimento das despesas, mas não mudou todas as regras que determinam quanto o governo precisa gastar com aposentadorias, benefícios sociais e outras obrigações.

    Na avaliação de Silvio Campos Neto, economista-chefe de Macroeconomia da Tendências Consultoria, essa combinação ajuda a explicar por que o controle das contas públicas continua sendo um desafio. Parte da pressão vem do aumento das despesas autorizado no início do atual governo. A PEC da Transição, aprovada no fim de 2022, abriu espaço para cerca de R$ 200 bilhões adicionais no Orçamento de 2023.

    O valor representa uma ampliação da autorização para gastar, e não significa que todo esse montante tenha sido efetivamente desembolsado. Ainda assim, a medida permitiu acomodar despesas que não cabiam no Orçamento elaborado sob as regras anteriores e elevou o patamar de gastos a partir do qual o governo passou a operar. Outro fator é a política de valorização do salário mínimo.

    Como o piso nacional serve de referência para aposentadorias e pensões de menor valor, o Benefício de Prestação Continuada (BPC), o seguro-desemprego e o abono salarial, os reajustes acima da inflação aumentam também o custo desses benefícios. O efeito se acumula ao longo do tempo: a cada reajuste real do mínimo, cresce a despesa que o governo precisa acomodar nos anos seguintes. As regras de financiamento da saúde e da educação também influenciam a distribuição dos recursos.

    Desde 2024, o governo voltou a ter pisos de gastos nessas áreas vinculados à arrecadação. Na prática, quando a receita aumenta, também pode crescer o valor mínimo que precisa ser destinado a esses setores. Isso não significa que o gasto seja desnecessário – são serviços essenciais -, mas reduz a liberdade do governo para usar o dinheiro adicional em outras prioridades, como investimentos ou melhora do resultado fiscal.

    O resultado é um Orçamento cada vez mais disputado. Aposentadorias, benefícios sociais e despesas mínimas com serviços públicos ocupam uma parcela relevante dos recursos, enquanto investimentos em infraestrutura e outras áreas podem ser adiados ou reduzidos. Por isso, melhorar as contas públicas não depende apenas de arrecadar mais ou cortar despesas de um ano para o outro.

    Exige também rever as regras que determinam como os gastos crescem. “Não falo necessariamente em cortes, porque sabemos como é difícil reduzir gastos públicos de forma efetiva. O caminho passa também por mudanças nas regras que determinam a evolução das despesas, de modo a sinalizar que os gastos crescerão em um ritmo menor nos próximos anos”, afirma Campos Neto.

    A diferença é importante. Cortar uma despesa pontualmente pode ajudar a fechar as contas de um ano, mas não impede que ela volte a crescer no exercício seguinte. Mudar as regras que determinam essa evolução pode aliviar a pressão sobre o Orçamento de forma mais duradoura.

    O problema é que as medidas capazes de produzir esse efeito também estão entre as mais difíceis de aprovar. Rever a política de valorização do salário mínimo, alterar a relação entre o piso nacional e os benefícios previdenciários ou mudar as regras de financiamento da saúde e da educação significa mexer em compromissos importantes do governo. São decisões que afetam diretamente a renda dos beneficiários e os recursos destinados a serviços públicos.

    Por isso, qualquer mudança exigiria negociação política e teria custos para a administração. Campos Neto avalia que o governo poderá ter de rever parte das promessas feitas durante a campanha para evitar que a deterioração fiscal comprometa o restante do mandato. “Ninguém vai querer governar, ou conseguirá governar, durante quatro a

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