Além das telas: por que levar crianças ao teatro ainda importa?
Em uma infância cada vez mais atravessada por celulares , tablets , televisão e outros dispositivos , levar uma criança ao teatro pode parecer uma experiência de outro tempo. Neste sábado (19), quando é celebrado o Dia Nacional do Teatro , a data também pode servir como convite para redescobrir a experiência de assistir a um espetáculo ao vivo. Para além da história contada no palco, o contato com um espetáculo ao vivo proporciona uma experiência que envolve presença , interação e imaginação .
No teatro , a criança não está apenas diante de uma narrativa. Ela divide o mesmo espaço com atores, atrizes, objetos de cena e outras pessoas da plateia. E, segundo Ferdinando Martins , crítico teatral e professor da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo) , essa é uma das principais diferenças entre a experiência teatral e aquela proporcionada pelas telas.
Instituto Inhotim comemora 20 anos com novas obras e exposições Suspensório e mais: itens do acervo de Jô Soares serão vendidos em bazar Millie Bobby Brown e Jake Bongiovi adotam segundo filho, diz site “A tela é um tipo de interação, um tipo de linguagem que a criança vai dominar inevitavelmente, mas, no teatro, você tem um outro jeito de contar a história”, explica à CNN Brasil. Conforme explica o professor, o teatro é uma “arte da presença” . A criança acompanha a história de forma presencial e pode perceber que suas próprias ações também interferem no ambiente e nas pessoas ao redor.
“A criança tem que pensar o que ela vai fazer com o próprio corpo dela: pode andar? Pode subir no palco? Posso falar?
”, afirma. Essas escolhas, segundo Martins, fazem com que a criança perceba que sua movimentação pode provocar uma reação no outro. Dessa forma, a experiência teatral também pode contribuir para que ela compreenda aspectos das relações interpessoais .
Quando a criança também participa O comportamento infantil durante uma peça pode ser imprevisível. Risadas, comentários, movimentos e outras manifestações fazem parte da experiência e, para o professor, a relação dos espetáculos com essas reações também mudou. “Há uma época em que tentavam coibir: ‘Não pode falar’.
Hoje, não”, conta. Martins também observa que artistas e responsáveis têm buscado deixar as crianças mais à vontade, estabelecendo limites sem que eles sejam excessivamente repressivos. Em alguns espetáculos, a manifestação do público infantil pode, inclusive, ser incorporada à própria cena.
“Se a criança comenta, se a criança fala alguma coisa, os artistas, hoje, conseguem absorver isso e fazer com que isso seja integrado à cena, o que torna a experiência bem mais prazerosa”, afirma. A proposta não significa ausência de regras. Para Martins, o teatro também pode apresentar à criança uma experiência de liberdade acompanhada pelo reconhecimento de que existe um outro a ser respeitado.
“Isso é uma educação para a liberdade, de você perceber até que ponto você pode ser livre, mesmo que você tenha regras e mesmo que tenha um outro ali a ser respeitado”, diz. Uma experiência que não termina no palco Para o professor, o teatro infantil também pode estimular diferentes dimensões da experiência da criança. Ao longo da história do teatro-educação, diferentes métodos foram desenvolvidos para trabalhar com o público infantil, incluindo o jogo teatral e o jogo dramático .
Essas abordagens podem utilizar estímulos sonoros , brinquedos e outras formas de interação para aproximar crianças muito jovens da linguagem teatral. Quando se fala sobre os possíveis efeitos dessa experiência, é comum citar criatividade, imaginação e expressão. Martins, porém, faz uma ressalva: para ele, a experiência estética é ainda mais abrangente.
“Mais do que a expressão, a gente tem a experiência. Porque a expressão pode surgir, a criança pode não querer se expressar por meio do teatro. Mas com certeza a experiência estética é algo universal que todos nós temos”, afirma.
Essa experiência também pode colocar a criança em contato com sentimentos e questões presentes no próprio processo de crescimento. “O teatro para crianças serve para isso, para você trabalhar questões como medo , como o próprio crescimento , como a própria existência desse outro . Então você desperta muita coisa”, explica.
Teatro em tempos de telas A discussão sobre a relação entre teatro e tecnologia ganhou novas dimensões, especialmente durante a pandemia, quando espetáculos e outras manifestações artísticas precisaram migrar para o ambiente digital . Para Martins, embora seja possível criar experiências teatrais utilizando recursos digitais, existe uma diferença fundamental quando o encontro presencial deixa de existir. “O que falta no teatro digital é justamente a presença e o fato de você ter uma intenção e uma arquitetura para isso”, afirma.
Ir a um teatro também envolve uma mudança deliberada de ambiente. Há um deslocamento até aquele espaço e uma separação temporária do cotidiano. “Se você vai ao teatro, então há uma intencionalidade, ainda que seja feita pelos pais.
E, quando se está no teatro, você tem uma arquitetura que isola do mundo. Então você sabe que tudo que está ali é algo da fantasia, é algo da criação e do estético”, diz. Nesse sentido, levar uma criança ao teatro não precisa ser encarado como uma escolha entre a experiência presencial e o mundo digital.
As duas linguagens podem fazer parte da infância contemporânea , mas oferecem formas diferentes de contato com histórias, pessoas e experiências. No palco, porém, existe algo que depende justamente de estar ali: o encontro entre quem assiste e quem faz . E, para uma criança, essa experiência pode começar antes mesmo de entender exatamente o que está acontecendo; no momento em que percebe que, naquele espaço, sua presença também faz parte do que está sendo vivido.
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Resumo publicado pelo SJX NEWS. O conteúdo integral pertence ao veículo de origem.
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