Alta dos títulos do Tesouro dos EUA tira atratividade de papéis no Brasil
O rendimento dos títulos do Tesouro americano de 10 anos disparou e atingiu o nível mais alto em quase duas décadas, em meio ao cenário de inflação pressionada e expectativa de novo aumento dos juros pelo Fed (Federal Reserve). Os papéis do Tesoruro dos EUA são conhecidos como um dos investimentos mais sólidos do mundo, e toda vez que há variações, o efeito reverba sobre o mercado global. Elisa Machado, economista-chefe da KAT Investimentos, chama a atenção para a perda de atratividade dos ativos brasileiros com o avanço dos títulos.
Leia Mais Juros globais reajustados e dúvidas com IA: A semana do mercado em gráficos Wall Street avança com otimismo sobre Oriente Médio Especialista avalia futuro da taxa de juros nos EUA com inflação no radar Em entrevista ao CNN Money , ela aponta que o país vive uma conjução diferente: enquanto grandes economias, como Japão e EUA, cortam as taxas, por aqui o caminho é inverso. “Quando a gente aqui está caindo juros e as principais economias do mundo estão subindo juros, a gente tem uma redução do diferencial de juros, que é justamente o que impulsiona as operações de carry trade, dinheiro externo que vem para o Brasil para aproveitar esses rendimentos elevados”, afirmou a economista. Segundo Machado, a alta dos Treasuries , combinada com a queda dos juros domésticos, diminui a atratividade dos ativos brasileiros de renda fixa indexados à Selic para o investidor internacional.
“Com essa redução do diferencial de juros, você cria uma tendência à desvalorização cambial no médio prazo e isso, em segunda ordem, afeta expectativas de inflação e a inflação em si”, alertou a economista. Sobre o cenário inflacionário, Machado destacou que o Brasil está deixando o período sazonalmente favorável para a inflação e entrando em uma fase mais pressionada. Fatores como o El Niño, o preço do petróleo próximo a 100 dólares e a devolução do bônus de energia elétrica de Itaipu tendem a elevar o IPCA no final do ano.
A economista ressaltou ainda que a inflação de serviços permanece resistente, em patamar incompatível com a meta, especialmente nos serviços intensivos em trabalho, que ainda apresentam aceleração. Em relação ao relatório de política monetária divulgado pelo Banco Central, Machado avaliou que o documento não trouxe grandes novidades em comparação com o comunicado pós-reunião e a ata da semana anterior. “O Banco Central continua se mostrando bastante data dependent , colocando riscos de alta e riscos de baixa”, disse.
Para ela, não há ganho em o Banco Central antecipar decisões em 45 dias diante de um ambiente de elevada incerteza, marcado por conflitos geopolíticos e alta volatilidade no preço do petróleo. A economista apontou ainda que o mercado de trabalho segue aquecido, o que representa um contraponto à desaceleração da atividade econômica observada em dados recentes de indústria e varejo. “Enquanto a gente não observar essa distensão no mercado de trabalho, a tendência é que esses preços continuem pressionados”, concluiu Machado, reforçando que a melhor estratégia para o Banco Central é seguir coletando dados e tomando decisões reunião a reunião.
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