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    André Naves: Espírito do Tempo — Mudança, Autonomia e Afeto
    Revista Oeste·25 de out., 12:00

    André Naves: Espírito do Tempo — Mudança, Autonomia e Afeto

    13 de outubro de 1806. Em Jena, ocupada pelos exércitos bonapartistas, um professor de filosofia, Georg Wilhelm Friedrich Hegel, viu passar o Imperador Napoleão Bonaparte. A posteridade condensava a cena na célebre expressão "o espírito do tempo a cavalo".

    Hegel não viu um homem. Viu o espírito do tempo — o Zeitgeist — passar diante de seus olhos. Beethoven também soube enxergar o seu tempo.

    A Terceira Sinfonia, composta entre 1803 e 1804, nascera com o nome de Bonaparte. O compositor o admirava como encarnação do ideal republicano. Quando soube que Napoleão se havia proclamado imperador, decepcionou-se e gritou: "Então ele também não passará de um homem comum.

    Agora ele pisará os direitos do homem para satisfazer sua ambição; agora ele se colocará acima de todos e se tornará um tirano". E tirou o nome Bonaparte da sinfonia. v=_CyxAawe3M8&t=1s Duas maneiras de enxergar o mesmo espírito do tempo.

    Entre as duas está uma importante lição: o espírito do tempo é maior que qualquer pessoa. Ele não pode ser impedido, aprisionado: chega livre como o vento, como o galope de um cavalo, com um acorde harmônico. O Brasil está vendo chegar o espírito do tempo.

    Ele se apresenta como mudança na condução da política, mas sua raiz é o resgate de valores. Valores de pertencimento — a família, a comunidade, os laços de afeto, o cuidado uns com os outros, o acolhimento.   Valores de autonomia — o desejo, tão humano, de ser protagonista da própria existência, e não cativo de um Estado que determina todas as regras.

    E valores de tradição — as melhores conquistas transmitidas de geração em geração, que merecem ser resgatadas porque humanizam. v=0LaT90rScIk As pesquisas mais recentes capturam esse espírito. No levantamento global da Ipsos sobre felicidade, divulgado em 2026, entre os brasileiros que se declaram felizes 34% apontam como fonte sentir-se amados ou apreciados; 29% citam a família e os filhos; outros 29%, sentir-se no controle da própria vida; 27%, sentir que a vida tem sentido.

    Repare: afeto e autonomia. O afeto fortalece nossos vínculos para que possamos reconhecer a humanidade de quem está fora deles. Ou seja, o espírito do tempo recusa o Estado tutelar, que trata adultos como incapazes, comunidades como menores e toda iniciativa como suspeita.

    Recusa a dependência da autorização permanente de quem governa. Recusa, também, o desamparo travestido de liberdade. A alternativa à tutela não pode ser o abandono.

    Uma pessoa sem escola, sem saúde, sem acessibilidade, sem condições materiais de participar da vida comum, não se torna autônoma. É por isso que os direitos humanos são universais e horizontais; sua concretização, é sempre uma responsabilidade pessoal, comunitária e social. Eles se realizam na família que cuida, na comunidade que acolhe, na pessoa que planeja, sonha e constrói — e encontram no Estado um parceiro que cumpre seus deveres sem se tornar tutor das escolhas alheias.

    Cada pessoa é um fim em si mesma. É disso que fala o espírito do tempo que atravessa o Brasil: o espírito do afeto, da construção individual e comunitária dos direitos humanos, da autonomia. v=6MreiLx7eec Beethoven ensinou que é possível amar o espírito de uma época sem se ajoelhar diante de quem diz encarná-lo.

    Ou seja, fica a tarefa democrática do nosso tempo: reconhecer a mudança quando ela chega e sermos protagonistas da mudança.   André Naves é defensor público regional de Direitos Humanos em São Paulo. Especialista em Inclusão Social, Direitos Humanos e Economia Política.

    Membro dos Grupos de Trabalho da DPU: Pessoas Idosas, Pessoas com Deficiência e Pessoas em Situação de Rua. Comendador Cultural. Escritor.

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