Apocalipse com número na urna
*Students of Liberty Acabou em 2018, acabou em 2022, está acabando de novo agora, e nós continuamos aqui, vivos, pagando Documento de Arrecadação de Receitas Federais, presos no trânsito da 23 de Maio, ressuscitados pontualmente na segunda-feira depois da urna, como figurantes de um filme de zumbi. De um lado, a "democracia". Do outro, a "barbárie".
De um lado, a "civilização". + Entenda o que é Política em Oeste O adversário sumiu do vocabulário. No lugar dele puseram o Anticristo, às vezes de terno, às vezes de camisa verde e amarela.
E se não existe um adversário, se existe apenas a marcha implacável do apocalipse, ninguém mais vota a favor de algo. Vota-se contra o fim do mundo, e de forma religiosa. No centro do altar, Ele .
Nenhum político brasileiro tem uma biografia tão parecida com um filme de M. Lula é claramente um líder messiânico. Seus fiéis não discutem programa.
v=KfYXcJV6cCo Quem critica vira herege. Quem duvida ganha o diagnóstico de "ódio", essa doença misteriosa que só dá no eleitor do outro lado. E a conta pública, o déficit, a dívida, o imposto escondido no preço do feijão?
Detalhes terrenos. Ninguém pede nota fiscal ao Messias. E essa confusão entre o altar e o trono não é nova.
Dom Sebastião sumiu em Alcácer-Quibir em 1578, e Portugal passou séculos esperando que ele voltasse numa manhã de nevoeiro para salvar o reino. Antônio Conselheiro em Canudos, Getúlio pai dos pobres, Jânio de vassoura na mão, Collor caçando marajás de jet ski... O Brasil troca de salvador como trocava de moeda, e com a mesma inflação de expectativas e sem enxergar muito o ambiente.
Se ele perde, a nação perece. Se ele vence, a nação está salva. Não há terceira hipótese, não há eleição normal, não há aquela alternância de poder banal, saudável, quase entediante, em que um governo sai, outro entra e ninguém precisa chamar o exorcista.
Mas a esquerda chama toda vez que vamos à urna. O PT anda de estola roxa e batina todo ano de eleição, tentando exorcizar um mal que ela mesma criou e cuja sombra faz questão de aumentar com uma lamparina bem posicionada. Umberto Eco listou em 1995 os traços do que chamou de fascismo eterno.
E o Estado? Mussolini resumiu tudo numa frase com a qual muito militante concordaria sorrindo: tudo no Estado , nada fora do Estado, nada contra o Estado. Eu mesmo, que passo o dia defendendo imposto menor, Estado enxuto e concorrência, já fui promovido a fascista mais vezes do que consigo contar.
Fascista por querer menos Estado. Mussolini deve estar se revirando no túmulo: com certeza não gostaria de me ver no mesmo balaio. E esse ciclo vai ser repetido daqui a quatro anos, independentemente de quem ganhar no domingo.
Afinal, o apocalipse é o programa de governo mais eficiente já inventado. Se o mundo acaba, a culpa é do outro. Se não acabou, o milagre foi do messias.
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