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    Às vésperas de eleição, governo proíbe bets no Brasil enquanto dívidas sufocam famílias e empresas
    InvestNews·25 de set., 21:43

    Às vésperas de eleição, governo proíbe bets no Brasil enquanto dívidas sufocam famílias e empresas

    Comício após comício, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem atacado as apostas online em sua campanha por mais um mandato, culpando-as por exaurir o orçamento das famílias e enfraquecer os gastos dos consumidores que impulsionaram o crescimento durante seus governos. Agora, a poucos dias da eleição presidencial de 4 de outubro e com a disputa empatada, o presidente transforma o discurso em política pública. Nesta sexta-feira (25), Lula assinou uma medida provisória que proíbe as bets , incluindo sites de apostas esportivas e cassinos online.

    Para Lula, a medida é uma tentativa de última hora de obter vantagem sobre seu principal rival, o senador Flávio Bolsonaro, e responder à crescente preocupação com vício e endividamento. Pesquisas mostram que os brasileiros apoiam de forma esmagadora a proibição das bets, colocando o ex-sindicalista em confronto com um setor de grande poder financeiro e, ao mesmo tempo, ao lado de famílias preocupadas com as próprias finanças. Leia também Economia Lula e Flávio Bolsonaro mantêm empate técnico no segundo turno, aponta Datafolha Negócios Como a brasileira Luana Lara fez da Kalshi uma máquina bilionária de apostas sobre quase tudo Mas proibir as bets pode empurrar brasileiros para o mercado ilegal de jogos de azar, sem fazer muito para enfrentar um problema de endividamento maior que afeta as famílias.

    Fundamentalmente, Lula continua a insistir em um modelo de crescimento econômico movido por consumo e crédito e não apresenta um plano crível para conter o endividamento do próprio governo – uma das principais causas das taxas de juros extraordinariamente altas do Brasil. O acúmulo de faturas de cartão de crédito e parcelas de empréstimos sufoca os consumidores, as empresas sentem o impacto do crédito caro e a deterioração das perspectivas fiscais do país preocupa investidores de São Paulo a Wall Street. O endividamento das famílias está em nível recorde; a dívida pública voltou aos patamares da pandemia; e a inadimplência das empresas atingiu o maior nível da história.

    Os gastos durante o governo Lula sustentaram o crescimento, mas começam a surgir sinais de fragilidade: o consumo perde força e economistas alertam que a expansão pode não durar muito mais. Leia também Economia Máquinas velhas e juros altos travam a produtividade da indústria brasileira e desafiam próximo governo Negócios Brasil encara a data de vencimento do pré-sal. E ainda precisa encontrar um substituto “É altamente provável que tenhamos uma desaceleração, possivelmente até uma recessão”, afirmou Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central, em entrevista.

    Em julho, 82% das famílias tinham algum tipo de dívida, maior proporção desde o início da série, em 2010, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo. Quase 10% do saldo devedor dos cartões de crédito estava em atraso havia pelo menos 90 dias, recorde nos dados do Banco Central. Um número recorde de brasileiros também recorria ao cheque especial ou mantinha dívidas no rotativo do cartão de crédito, duas das modalidades de financiamento mais caras do país.

    Com a taxa básica Selic em 13,75% ao ano e os juros do cartão de crédito podendo superar 400%, as famílias brasileiras destinam quase um terço da renda ao pagamento de dívidas, recorde na série do Banco Central iniciada em 2005. Modelo de consumo Desde que voltou ao poder, em 2023, Lula busca melhorar a vida dos trabalhadores brasileiros ao estimular o consumo e aprofundar a expansão do crédito que ganhou força durante a pandemia. Dinheiro barato inundou a economia em 2020, quando o governo de Jair Bolsonaro distribuiu auxílio emergencial a famílias afetadas pela pandemia e empresas enquanto o Banco Central reduziu a Selic à mínima histórica.

    Naquele mesmo ano, o lançamento do Pix , sistema de pagamentos instantâneos hoje onipresente, acelerou a migração para os serviços bancários digitais. O avanço das fintechs e das instituições de crédito por aplicativos levou mais brasileiros ao sistema financeiro e facilitou o acesso ao crédito. O número de cartões de crédito ativos quase dobrou, de 134 milhões em 2020 para cerca de 254 milhões em 2025, segundo dados do Banco Central.

    Leia também Negócios Menos espaço na cesta de compras: Assaí aponta bets e juros como vilões do consumo Negócios Empresas zumbi se multiplicam no Brasil sob o peso de dívidas. E ampliam o risco de contágio Mas a euforia do crédito deu lugar à ressaca quando o Banco Central elevou a Selic para conter o salto da inflação que acompanhou a reabertura da economia. A taxa chegou no ano passado a 15%, maior nível em quase duas décadas, com a inflação ao consumidor ainda elevada.

    Milhões de tomadores de crédito, como Antônio Carlos Ramalhete, professor da rede pública e personal trainer de 38 anos, foram pegos nessa guinada. Cansado da rotina de dois empregos, o paulistano investiu em um negócio em 2020 na esperança de aumentar o patrimônio. Na tentativa de manter a empresa funcionando, esgotou o limite de cinco cartões de crédito e contraiu empréstimos, elevando a dívida a R$ 500 mil, antes de começar a colocar as finanças em ordem no fim do ano passado.

    “Quando você fala em 500 mil, a maioria das pessoas imagina que você pegou uma mala com 500 mil e saiu gastando”, afirmou Ramalhete. “Não é assim. ” Embora o custo dos empréstimos esteja em queda, os brasileiros ainda enfrentam uma taxa média anual de 60% no crédito ao consumidor e juros do cheque especial superiores a 100%.

    Esses custos pesam especialmente em um dos países mais desiguais do mundo, onde dezenas de milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza e é difícil resistir à promessa de dinheiro fácil. Boom após a legalização Isso pode ajudar a explicar o boom de apostas no Brasil. Desde a legalização das bets, em 2018, o mercado cresceu até se tornar um dos maiores do mundo, com brasileiros apostando até R$ 30 bilhões por mês no ano passado, segundo estimativas do Banco Central.

    Apesar dos esforços de Lula para conter o setor de apostas online, que incluíram a imposição de regras e a proibição de apostas por beneficiários de programas sociais, médicos alertam para o aumento da dependência, enquanto um número crescente de brasileiros culpa as bets pela ruína financeira. Pedro Neto, vendedor de 34 anos, começou a apostar em 2021 para tornar os jogos de futebol mais divertidos. Mais tarde, passou a se interessar por modalidades mais rápidas, semelhantes às de cassino, e ficou viciado no Aviator, um jogo popular.

    Pouco tempo depois, já tentava recuperar o dinheiro perdido com novas apostas. Neto contou que perdeu R$ 85 mil de uma só vez. Duas semanas mais tarde, voltou a apostar e perdeu outros R$ 50 mil no banheiro de uma igreja em Sorocaba, cidade do estado de São Paulo onde mora.

    Quando conseguiu controlar o vício neste ano com a ajuda de sua congregação, Neto já havia perdido R$ 300 mil e chegado a vender o iPhone para continuar apostando. “Você só percebe o quanto é ruim quando não sobra nada, quando você chega a zero”, afirmou. Bets e inadimplência O caso dele está longe de ser único.

    Mais de 25 milhões de brasileiros fizeram apostas no ano passado, e pesquisas indicam que apostadores têm probabilidade muito maior de enfrentar dificuldades financeiras. Um estudo do Insper constatou que pessoas que começaram a apostar tinham probabilidade quase 20% maior de ficar inadimplentes. O aperto no orçamento das famílias repercute dos pequenos negócios às salas de conselho das grandes empresas.

    “Elas se retroalimentam”, afirmou Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian, empresa de dados e análise de crédito. ” Um recorde de 9,2 milhões de empresas estavam inadimplentes em julho, segundo a Serasa Experian, com R$ 239 bilhões em dívidas vencidas. A grande maioria era de pequenos negócios, mas algumas das maiores empresas do Brasil também cedem à pressão financeira.

    Neste ano, a gigante de biocombustíveis Raízen, a petroquímica Braskem e a rede de supermercados GPA (Grupo Pão de Açúcar) recorreram a processos extrajudiciais para reestruturar dívidas. Um alívio financeiro duradouro para famílias e empresas depende da redução do custo do crédito no Brasil. Esse custo é pressionado pelo temor de que a dívida pública caminhe para níveis perigosos – e de que nem Lula nem seus adversários tenham apresentado uma estratégia concreta para controlar os gastos.

    Em julho, o déficit fiscal nominal do Brasil chegou a quase 10% do PIB, ou cerca de US$ 235 bilhões. Mais de 90% desse rombo refletiu despesas com juros. “A recusa em gastar nem que seja um pouco menos está aumentando enormemente o ônus para o Estado”, afirmou Adam Goldsmith, diretor para a América Latina da consultoria Greenmantle.

    Lula minimizou as preocupações com o nível da dívida pública e atribuiu o aumento aos juros elevados. O governo destaca que reduziu o rombo orçamentário do Brasil e prevê um pequeno superávit primário no próximo ano. Economistas, porém, afirmam que isso está muito aquém do necessário para conter a dívida, enquanto os esforços do governo para sustentar a demanda correm o risco de manter a inflação e a Selic elevadas por mais tempo.

    Esse é o desafio para Lula – ou para quem vencer a eleição – diante da desaceleração da economia: aliviar a pressão agora pode aumentar a conta mais adiante. Para milhões de brasileiros como Ramalhete, o professor da rede pública que luta para manter as contas em dia, esse dilema é bastante familiar. “Sempre acreditamos que, até o fim do mês, vamos conseguir fazer dar certo”, afirmou.

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