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    Poder360·24 de out., 10:10

    Bactérias reduzem em 60% severidade de sintomas do fungo no trigo

    Um estudo conduzido pela Embrapa Meio Ambiente (SP) e pela Universidade de São Paulo reforça uma nova abordagem para o controle biológico de doenças do trigo, baseada no manejo da comunidade de microrganismos associada às raízes. Em experimentos realizados em condições controladas, bactérias benéficas reduziram em aproximadamente 60% a severidade de doenças causadas pelo fungo Bipolaris sorokiniana , indicando potencial para diminuir a dependência de fungicidas químicos no manejo da cultura. O diferencial da pesquisa está em como esse controle ocorre.

    Em vez de eliminar diretamente o fungo causador da doença, os microrganismos reorganizam a comunidade microbiana que vive ao redor das raízes —a chamada rizosfera—, restaurando funções ecológicas do solo que favorecem a resistência natural das plantas. Coordenado pelo pesquisador Rodrigo Mendes, da Embrapa Meio Ambiente, o estudo investigou como 3 bactérias interferem na interação entre o trigo e o Bipolaris sorokiniana, causador de doenças como mancha-marrom, podridão radicular, podridão da coroa, queima de plântulas e black point (ponto preto). O patógeno é um dos de maior importância econômica para a cultura, especialmente em regiões de clima quente ou sujeitas à deficiência hídrica.

    Controle biológico Segundo Caroline Nishisaka, pesquisadora do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena-USP), os resultados mostram que o controle biológico vai muito além do combate direto ao patógeno. “Os inoculantes bacterianos remodelam as comunidades microbianas do solo, restauram funções ecológicas importantes e reforçam os mecanismos naturais de resistência das plantas” , explica. Os pesquisadores avaliaram 3 bactérias com potencial de biocontrole e promoção de crescimento vegetal: Streptomyces virginiae CMAA1738, Paenibacillus ottowii CMAA1739 e Pseudomonas inefficax CMAA1741.

    Todas apresentaram características importantes para uso agrícola, como capacidade de estimular o crescimento das plantas, aumentar a disponibilidade de fósforo e atuar contra o Bipolaris sorokiniana. Para testar o efeito das bactérias, os pesquisadores compararam plantas expostas apenas ao fungo com outras que, além do fungo, receberam as bactérias benéficas. Nesse segundo grupo, a severidade da doença foi menor.

    Um dos resultados mais relevantes foi a redução da doença mesmo quando a população do fungo permaneceu estável —e, em alguns tratamentos, até aumentou. Segundo Hélio Quevedo, doutor em microbiologia agrícola pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq-USP), isso demonstra que o sucesso do controle biológico não depende necessariamente da eliminação do patógeno. “O estudo mostra que um patógeno pode permanecer presente no solo sem causar grandes danos quando o microbioma mantém funções ecológicas capazes de limitar sua ação” , afirma.

    Nova abordagem Além de eliminar o agente causador da doença, a nova abordagem busca fortalecer o equilíbrio da comunidade microbiana que protege naturalmente as plantas. Entre as bactérias avaliadas, Pseudomonas inefficax apresentou os resultados mais expressivos. Não só reduziu a severidade da doença, como se destacou pela capacidade de aumentar a disponibilidade de fósforo para as plantas e de promover maior desenvolvimento do sistema radicular.

    As análises mostraram que essa bactéria reorganizou profundamente a comunidade microbiana da rizosfera. Embora representasse menos de 2,5% dos microrganismos detectados ao final dos experimentos, sua introdução foi suficiente para desencadear uma ampla reestruturação do microbioma do solo, o que beneficiou grupos associados à proteção vegetal. Os pesquisadores observaram ainda que as bactérias exerceram mais influência sobre a organização do microbioma do que a própria presença do fungo patogênico, atuando como verdadeiros reguladores ecológicos da comunidade microbiana.

    Além das mudanças na composição da comunidade microbiana, o estudo identificou alterações em seu funcionamento. A infecção por Bipolaris sorokiniana reduziu a presença de genes associados ao crescimento vegetal e afetou processos importantes para a defesa natural das plantas. Por outro lado, os tratamentos com Streptomyces virginiae e Pseudomonas inefficax restauraram essas funções, com aumento de genes associados à resistência a condições de estresse e à produção de substâncias envolvidas na proteção das plantas.

    Outro resultado foi a recuperação da capacidade da comunidade microbiana de produzir compostos naturais que ajudam a combater patógenos. Segundo Thierry Pellegrinetti, pesquisador do Cena-USP, a presença do fungo reduziu essa capacidade, enquanto a introdução das bactérias benéficas contribuiu para restaurá-la. Para Mendes, essa abordagem pode contribuir para o desenvolvimento de inoculantes biológicos mais eficientes e sustentáveis, reduzindo a dependência de fungicidas químicos e fortalecendo sistemas agrícolas mais resilientes.

    Como foi realizado o estudo A equipe isolou bactérias da rizosfera de variedades tradicionais de trigo da Turquia e do Irã. Os experimentos foram conduzidos com a cultivar BRS Guamirim, em solo agrícola coletado em Assis (SP). As análises incluíram sequenciamento metataxonômico, usado para identificar os microrganismos presentes na comunidade, e metagenômico, que permite investigar seu conjunto de genes e suas funções.

    A equipe também empregou qPCR, técnica usada para quantificar o fungo, e ferramentas de bioinformática para analisar genes relacionados ao crescimento e à proteção das plantas. Este texto foi publicado originalmente pela Embrapa em 13 de outubro de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360 .

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    Resumo publicado pelo SJX NEWS. O conteúdo integral pertence ao veículo de origem.

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