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    Brasileira Que Comanda o Maior Avião Comercial do Mundo Ainda Quer Voar Mais Alto
    Forbes Brasil·23 de out., 08:00

    Brasileira Que Comanda o Maior Avião Comercial do Mundo Ainda Quer Voar Mais Alto

    Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo. Filha de um comandante da extinta Varig, Karina Buchalla Lutkus cresceu correndo pelos aeroclubes do interior de São Paulo e com o sonho de ser pilota de avião . Décadas depois, tornou-se a primeira mulher brasileira a assumir o posto de comandante do Airbus A380 da Emirates , a maior aeronave comercial de passageiros do planeta, com capacidade de até 615 assentos.

    “Nunca deixei que o preconceito limitasse os meus sonhos”, diz em entrevista à Forbes Brasil. Não faltaram obstáculos no seu caminho. No início, Karina enfrentou portas fechadas em um setor dominado por homens.

    “Amigos do meu pai que tinham aviões diziam claramente: ‘No meu avião, mulher não entra'”, conta. Atualmente, as mulheres representam apenas 5,18% dos pilotos das 34 principais empresas aéreas do planeta, segundo a International Society of Women Airline Pilots. Na época em que decidiu seguir a profissão, o cenário era ainda mais desigual.

    500 horas de voo necessárias para entrar em uma companhia aérea no início dos anos 2000, Karina precisou voar três anos sem qualquer remuneração em táxis aéreos e voos para garimpos, pagando a própria estadia e alimentação. Acervo pessoal Recorte de jornal com Karina Buchalla no início da carreira de pilota Mesmo quando o mercado formal se abriu, o destino parecia testar sua vocação. Após meses de processo seletivo na Varig, que incluiu até uma cirurgia de emergência no meio do caminho, ela concluiu o teste final no simulador exatamente no dia 11 de setembro de 2001 — data em que o setor aéreo global entrou em colapso após o atentado às Torres Gêmeas, em Nova York, e as contratações foram canceladas.

    No ano seguinte, Karina foi aprovada pela TAM (que se fundiu com a chilena LAN em 2016 para formar o Grupo Latam ), pegou o uniforme e concluiu o treinamento, apenas para ser demitida na véspera do seu primeiro voo devido a um corte em massa na empresa. ” Finalmente deu certo. Recontratada pela TAM anos depois, ela ascendeu rapidamente, tornando-se comandante aos 30 anos.

    Mas o malabarismo constante entre as escalas de voos nacionais e a maternidade a fez recalcular a rota e mirar um objetivo ainda mais alto: a Emirates. Acervo pessoal Karina Buchalla ao lado dos filhos e do marido A jornada até a maior companhia aérea do Oriente Médio, conhecida por oferecer benefícios como auxílio-moradia em Dubai e motorista particular aos comandantes, exigiu um preparo que vai muito além dos manuais de treino. “A aviação não é só conhecimento técnico; exige muitas habilidades como liderança, comunicação, resolução de problemas e tomada de decisão.

    ” Desde outubro de 2025, quando foi promovida a comandante na Emirates após seis anos na companhia, Karina lidera tripulações de dezenas de nacionalidades e serve de inspiração para uma nova geração de mulheres que sonham em pilotar. ” A seguir, a primeira comandante brasileira do A380 detalha os bastidores de sua trajetória e revela por que, apesar de já ter chegado (literalmente) ao topo, ainda não tem planos de parar de subir. Confira os destaques da entrevista com Karina Buchalla, comandante da Emirates Forbes: De onde veio essa paixão pelos aviões?

    Karina : Começou na infância. Meu pai era aviador, comandante da Varig. Meu irmão é piloto, um primo também seguiu a carreira, e acabei me casando com um piloto.

    A aviação sempre esteve na minha vida. Desde criança, eu estava dentro de aviões, indo a aeroclubes com meu pai e viajando com ele. O pai costuma ser o herói da filha, então eu observava muito a atitude dele, o comportamento e a admiração que as pessoas tinham.

    Acervo pessoal Karina Buchalla vivia apaixonada por aviões desde criança O meio da aviação é apaixonante; parece um vício do qual você não consegue sair. Aos 16 anos, na época do vestibular, eu reafirmei para os meus pais: “Eu quero ser piloto”. No começo, meu pai não queria.

    Há 31 anos, não havia muitas mulheres voando. Ele tinha receio do preconceito que eu enfrentaria e questionava como eu faria para casar e ter filhos. Mas eu insisti.

    Ele então propôs um voo de teste. Sem que eu soubesse, ele pediu para o instrutor fazer manobras para me assustar. O tiro saiu pela culatra: quanto mais ele fazia, mais eu adorava e pedia para repetir.

    Quando pousamos, o instrutor disse ao meu pai que eu estava apaixonada. A partir dali, a chave virou. Meu pai passou a me dar todo o suporte financeiro, técnico e emocional.

    Nesse começo, você conhecia alguma mulher piloto que serviu de inspiração? Naquela época, eu vi uma revista da VASP que mostrava o primeiro voo com tripulação feminina: a comandante Carla Roemmler e a copilota Arlete Vitória Ziolkowski. Meu primo, que voava na VASP, me trouxe a revista.

    Quando vi aquilo, falei: “Uau, é isso que eu quero”. Também me lembro da Claudine Melnik, a primeira mulher pilota da TAM. Uma vez, eu estava voando com meu pai no aeroclube e ele me incentivou a desejar um bom voo para ela pelo rádio.

    Anos depois, acabei voando com ela na TAM. E também havia a Kalina Milani, da Varig, que mais tarde se tornou a primeira mulher comandante da Emirates. Ela voou nas duas empresas que eu mais sonhava na vida: a Varig e a Emirates.

    Como foi a transição depois de tirar a licença de piloto até conseguir entrar de fato no mercado de trabalho? A aviação não é fácil no começo, porque as horas de voo são caras. 500 horas de voo.

    Para mim, foi ainda mais difícil pelo fato de ser mulher. Além do preconceito, havia a questão da acomodação. Empresas de táxi aéreo pequenas alugavam casas onde os pilotos dormiam juntos.

    Sendo mulher, eu precisaria de um quarto separado. Eles também diziam que mulher engravida, mulher tem TPM. Evitavam ao máximo.

    Acabei voando três anos sem remuneração em São José do Rio Preto e depois em Cuiabá, pagando meu próprio hotel e alimentação com a ajuda do meu pai, apenas para acumular horas. Voava para garimpos na região, trabalhando com a compra e venda de diamantes. 500 horas.

    Quando surgiu a oportunidade em uma grande companhia? Meu foco era a Varig, que começou a exigir faculdade de aviação civil. Prestei vestibular para a PUC em 2000.

    Porém, antes de eu começar o curso, a Varig abriu um processo seletivo enorme sem exigir a faculdade. Cancelei a matrícula e fui fazer a seleção. Eram várias etapas: prova teórica, entrevista, psicotécnico e inglês.

    Quando chegou no exame médico, descobriram uma condição que eu tinha que precisava de cirurgia. Operei imediatamente, passei três meses em recuperação e voltei. Fiz a última etapa (o simulador) exatamente no dia 11 de setembro de 2001.

    Passei em tudo, mas, devido aos atentados, a Varig cancelou as contratações. No ano seguinte, meu pai sugeriu que eu tentasse a TAM. Passei no processo, fiz o treinamento, peguei o uniforme.

    Um dia antes do meu primeiro voo, a empresa teve dois acidentes no mesmo dia e demitiu cerca de 450 pilotos. Fui demitida antes de estrear. Voltei para casa e comecei a cursar psicologia para cuidar da minha cabeça e não ficar frustrada.

    Um ano e meio depois, a TAM me chamou de volta. Entrei como copiloto do Fokker 100, passei para o Airbus A320, A330 (internacional) e, aos 30 anos, fui promovida a comandante da frota A320. Acervo pessoal Karina Buchalla e o seu irmão, também piloto Como foi conciliar essa ascensão com a maternidade?

    Na aviação, quando você descobre que está grávida, tem que parar de voar imediatamente. Por um lado, é bom, porque você passa a ter uma rotina regrada e pode cuidar melhor da saúde. Depois, o problema se tornou a escala de voos curtos no Brasil.

    Meu marido também voava, então nós não parávamos em casa. As crianças ficavam com babás, e a gente monitorava tudo por câmeras pelo celular a cada pouso. Aquilo começou a incomodar bastante.

    Quando meu pai faleceu, no mesmo dia eu sofri o meu segundo aborto — perdi dois bebês entre o meu primeiro filho e a minha filha. Eu pensei: “Nada mais me segura aqui”. Mas, menos de um mês depois, engravidei da minha filha.

    Pedi licença-maternidade, fiquei no Brasil e, quando voltei, precisei voar mais um ano para recuperar as licenças. Nas minhas primeiras férias, fomos a Dubai. Amamos a cidade.

    Meu marido concordou em parar de voar para eu seguir meu sonho. Apliquei para a Emirates, passei e entrei em abril de 2019. Acervo pessoal Karina Buchalla junto com o marido, hoje aposentado dos aviões Como é a sua rotina hoje?

    Tenho uma qualidade de vida que nunca tive antes. A maioria dos meus voos dura poucos dias. Para a Europa ou Ásia, fico uns dois dias fora.

    Em voos muito longos, como Brasil, Estados Unidos ou Austrália, fico três a quatro dias. Em contrapartida, quando volto, chego a ter uma semana inteira de folga em casa com meu marido e meus filhos. Sempre priorizo o meu descanso, a academia e a alimentação sadia.

    Durante as viagens, tento manter o horário de Dubai para não prejudicar meu relógio biológico a longo prazo, já que pretendo voar até os 65 anos. Você tem percebido um aumento no número de mulheres interessadas em seguir carreira na aviação? O cenário melhorou muito em comparação à minha época.

    Eu sou mais reservada, não tenho redes sociais, mas faço parte da AMAB (Associação de Mulheres Aviadoras Brasileiras). Muitas mulheres me procuram para pedir dicas sobre o processo seletivo da Emirates e até treinamos juntas no meu simulador em casa. Fico feliz em ajudar.

    O que você espera deixar de legado para as próximas pilotas? Quero mostrar que vale a pena correr atrás dos sonhos e não desistir. E, principalmente, escolher a profissão por amor e não focando apenas no dinheiro, que deve ser consequência.

    A aviação exige respeito e um comprometimento altíssimo. O sentimento de realização que tenho hoje, podendo proporcionar tudo isso para a minha família fazendo o que amo, é maravilhoso. Eu quero passar para as outras mulheres que corram atrás dos seus objetivos, porque esse sentimento não tem preço.

    Qual o seu próximo sonho? Quero me tornar instrutora do A380. Gosto muito de ensinar, de ajudar colegas e de compartilhar conhecimento.

    Sou muito comprometida com os meus estudos e quero desenvolver essa habilidade. O post Brasileira Que Comanda o Maior Avião Comercial do Mundo Ainda Quer Voar Mais Alto apareceu primeiro em Forbes Brasil . ]]>

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