Com inflação em alta nos EUA, credibilidade do Fed é colocada em jogo nesta superquarta
Se depender do mercado, as decisões sobre juros nesta superquarta (16) já estão dadas: o Federal Reserve (fed, o banco central americano) vai subir as taxas em 0,25 ponto percentual e o nosso BC vai cortar a Selic em 0,25 ponto. O CME FedWtach e as Opções de Copom da B3, ferramentas que medem o posicionamento de investidores sobre os rumos futuros das políticas monetárias nos EUA e no Brasil, indicam 95% de possibilidade de as autoridades realizarem uma subida lá fora e um corte aqui. Apesar de os dois BCs sempre reiterarem que não são direcionados pelas visões do mercado, é uma pressão e tanto.
Leia também Investimentos Maior deflação em quatro anos aumenta chance de mais um corte na Selic – nos EUA, a perspectiva é o oposto No caso do Fed, contrariar a projeção majoritária pode significa perder a confiança de que vai fazer o necessário para controlar a inflação que dá sinais de aceleração e não ceder a pressões políticas. O presidente dos EUA, Donald Trump, voltou a afirmar que os juros americanos tem de baixar, repetindo uma tática de pressão que usou e abusou na época do antigo chefe do Fed, Jerome Powell. O novo presidente do BC dos EUA, Kevin Warsh, foi indicado pelo próprio Trump.
A reunião portanto ganha um tom a mais de drama: se subir os juros vai desagradar o presidente, mas manter a percepção de um Fed independente. Se contrariar a visão predominante, pode alimentar a turbulência no mercado de juros e impulsionar ainda mais as altas das taxas mais longas. Leia também Investimentos Escalada de juros nos EUA eleva taxas do Tesouro IPCA+ no Brasil Na terça-feira (15), o título de 10 anos do Tesouro americano passou da marca de 5% ao ano, um nível que foi visto pela última vez em 2007.
Já a Treasury de 30 anos chegou a 5,36%, se consolidando no patamar mais alto em 19 anos. Lá fora, a pergunta para a qual todos querem resposta agora é: até onde vai o ciclo de altas? O Goldman Sachs enxerga só uma alta neste ano: nesta quarta-feira (16).
Em 2027, o banco americano prevê uma guinada na política monetária, com o Fed entregando dois cortes de juros. As taxas nos EUA terminariam 2026, portanto, no intervalo entre 3,75% e 4%. No ano que vem, os juros americanos de curto prazo voltariam para a faixa de 3,25% a 3,50%, na projeção do Goldman.
“Não vemos um caso econômico forte o suficiente para justificar mais altas de juros. Achamos que a elevação da inflação pode ser atribuída a fatores pontuais com impactos que, provavelmente, vão se dissipar”, afirmou o analista do Goldman, David Mericle. Leia também Investimentos Rendimento do título de 10 anos dos EUA acima de 5,25% pode mudar relação entre ações e títulos.
Entenda A avaliação de um Fed mais contido, porém, não é partilhada pela maioria das casas de análise. O Bank of America e o Deutsche Bank, por exemplo, veem três altas de 0,25 ponto cada ao longo de 2026, ou seja, subidas de juros em todas as reuniões restantes do Fed neste ano. Se prevalecer essa estimativa, os juros de curto prazo nos EUA alcançariam o intervalo de 4,25% a 4,50% Um grupo maior, com Barclays, BNP Paribas, Citigroup, Mufg, Nomura, Société Générale, UBS e Wells Fargo, enxerga mais duas altas de 0,25 ponto em 2026.
Nesse cenário, as taxas subiriam para a faixa de 4% a 4,25%. Leia também Economia Barril do petróleo supera US$ 107 e reforça perspectiva de alta dos juros nos EUA, com efeitos no Brasil No Brasil, as previsões colocam a Selic entre 13,25% a 13,75% no fim de 2026. A XP acredita que o Comitê de Política Monetária do BC (Copom) vai cortar a taxa básica em 0,25 ponto em todas as próximas reuniões de 2026, o que levaria a Selic dos atuais 14% ao ano para 13,25%.
A Suno Research se mostra mais conservadora nas estimativas: espera apenas um corte neste ano, com manutenção da Selic em novembro e dezembro. “O balanço de riscos para a inflação tem um viés mais de alta, com um cenário de resiliência dos [preços de] serviços, o El Niño, a volatilidade cambial, os choques de segunda ordem do petróleo e a desancoragem adicional das expectativas de inflação para 2027 e 2028”, aponta o economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung. Após a virada do ano, com a saída de cena das incertezas relacionadas às eleições e com os efeitos do choque do petróleo mais claros, o BC tende a ter mais espaço no ciclo de queda.
A maioria do mercado espera que o Copom intensifique a redução dos juros entre 2027 e 2028. O boletim Focus, do BC, que reúne as projeções de instituições financeiras sobre uros, câmbio, PIB e inflação, mostra que a mediana das casas consultadas coloca a Selic em 12% no fim do próximo ano e em 10,5% anuais no término de 2028. Como as expectativas para as decisões aqui e lá fora já estão consolidadas para a reunião de hoje, os investidores vão voltar as atenções na busca de qualquer sinal sobre a duração e intensidade dos ciclos nos comunicados e, posteriormente, nas atas das reuniões.
“Mais importante do que a decisão isolada será entender a comunicação dos bancos centrais e o que ela sinaliza para os próximos meses”, afirma a estrategista-chefe da Nomad, Paula Zogbi. A superquarta deve mexer com os mercados aqui e lá fora. Uma alta de juros nos EUA combinada com queda de juros aqui pode provocar um fortalecimento do dólar e incentivar a saída de capital do emrcado brasileiro.
Uma potencial saída de recursos estrangeiros da bolsa pode levar a uma queda do Ibovespa, uma vez que os investidores internacionais representam cerca de 60% do volume negociado na B3. Por outro lado, uma queda de taxas no Brasil ajuda algumas ações. É o caso dos bancos, que se beneficiam de um custo menor de capital, e das companhias de infraestrutura, como energia e saneamento, um grupo com receitas previsíveis que, com a redução dos juros, veem o valor estimado pelo mercado do fluxo de caixa futuro subir.
Na renda fixa , a queda da Selic tende a trazer um alívio para as taxas de mercado, em um momento no qual as de longo prazo se mantêm muito voláteis. O problema pode vir de fora. Se houver uma sinalização de que o ciclo de alta de juros nos Estados Unidos possa avançar até início de 2027, o dólar se fortalece, há um aumento de pressão sobre os preços no Brasil, com encarecimento das importações.
Entenda como os juros altos no exterior afetam os investimentos no Brasil. Nesse caso, a perspectiva de juros altos por mais tempo elevaria ainda mais a volatilidade dos títulos IPCA+ e prefixados. ]]>
Resumo publicado pelo SJX NEWS. O conteúdo integral pertence ao veículo de origem.
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