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    Como é trabalhar em um data center de inteligência artificial
    InvestNews·20 de set., 17:10

    Como é trabalhar em um data center de inteligência artificial

    Quando era mais novo, James Waddy queria ser atleta profissional. Hoje, ele dá 30 mil passos por dia percorrendo os corredores de um data center de quase 93 mil metros quadrados nos arredores da Virgínia. As rondas do homem de 33 anos incluem farejar equipamentos queimados que possam indicar superaquecimento, apalpar tubos à procura de rachaduras e verificar lâmpadas defeituosas ou transformadores de energia quebrados.

    Engenheiro-chefe da unidade, Waddy supervisiona dezenas de outros engenheiros que fazem o mesmo e chama a si próprio de “O General”. “Não ouço nenhum ruído”, disse ele enquanto caminhava sobre um piso elevado, acima de uma câmara que faz o ar circular para resfriar os servidores. “Não sinto cheiro de nada.

    ” Os data centers estão sob intenso escrutínio à medida que os americanos ficam cada vez mais desconfiados da IA e dos possíveis riscos da tecnologia. Eles também permanecem um tanto misteriosos para além de suas fachadas geralmente quadradas e sem características marcantes: o que há lá dentro e o que os funcionários fazem? Leia também Negócios O mundo está ficando sem energia para a IA – e isso coloca o Brasil no mapa dos data centers Negócios Desafio dos novos data centers de IA vai além da energia: tamanho inviabiliza proteção de seguros tradicionais A instalação onde Waddy trabalha, pertencente à empresa de data centers Digital Realty, é cheia de corredores com eco, tão compridos que alguns técnicos usam patinetes para se deslocar.

    Há gaiolas altas repletas de fios. Também existem camas e chuveiros para os técnicos que eventualmente precisem permanecer no local durante eventos climáticos extremos a fim de manter os servidores funcionando. Mesmo com até 120 pessoas no local em determinados momentos — a unidade emprega cerca de 50, mas seguranças terceirizados e funcionários enviados pelos clientes também trabalham ali —, o tamanho enorme do prédio fazia com que muitas salas estivessem vazias em um dia de semana recente.

    Os funcionários de data centers exercem uma atividade em alta demanda, responsável por sustentar o gigantesco investimento do país em inteligência artificial. Data centers não exigem equipes numerosas — as estimativas variam de algumas dezenas a algumas centenas de funcionários permanentes para operar uma unidade, dependendo da instalação —, mas a dimensão da expansão nos Estados Unidos pode se traduzir em dezenas de milhares de trabalhadores. 700 instalações de data centers em operação nos Estados Unidos, segundo a provedora de dados do setor Data Center Map.

    Entre elas está a unidade de nove anos onde Waddy trabalha, situada em uma densa concentração conhecida como Data Center Alley, a cerca de uma hora de Washington. 500 se encontram em fase de planejamento, segundo estimativa da Data Center Map. James Waddy, engenheiro-chefe da unidade de Ashburn, começou trabalhando no turno da noite.

    Foto: The Wall Street Journal Mais de 1 milhão de candidatos a emprego procuraram vagas em data centers no site de recrutamento Indeed neste ano. Em agosto, o volume de buscas era oito vezes maior que no início de 2022. Pesquisas do site de empregos constataram que, entre os trabalhadores horistas responsáveis por manutenção e instalação, os data centers oferecem salários cerca de 42% maiores do que funções semelhantes em outros tipos de empresa.

    Segundo o Indeed, um gerente de projetos em um data center ganha por volta de US$ 115 mil por ano — cerca de R$ 591 mil pela cotação de R$ 5,14 por dólar. A Digital Realty afirmou que engenheiros iniciantes em suas instalações podem ganhar aproximadamente US$ 66 mil por ano, ou cerca de R$ 339 mil, enquanto a remuneração média pode superar US$ 120 mil, o equivalente a cerca de R$ 617 mil, para profissionais mais experientes. Profissionais com conhecimento em sistemas elétricos, engenharia de redes e sistemas de refrigeração são muito procurados, disse Brandi Galvin Morandi, diretora de recursos humanos da operadora de data centers Equinix.

    Grandes empresas de tecnologia, entre elas a Meta Platforms, investiram na formação de mão de obra especializada para construir essas instalações. Na Virgínia, onde há uma grande concentração de data centers, o Northern Virginia Community College lançou, com a ajuda do setor privado, um programa de capacitação para o trabalho nessas unidades. “Essas são instalações essenciais, que operam 24 horas por dia, e isso exige uma combinação específica de formação técnica, disciplina de segurança e experiência prática — algo que está em falta diante da velocidade com que o setor cresce”, disse Cindy Fiedelman, diretora de recursos humanos da Digital Realty.

    A empresa opera mais de 300 data centers em seis continentes. Em unidades como a de Ashburn, a Digital Realty aluga espaço para grandes empresas de tecnologia que precisam de capacidade computacional. Entre seus clientes estão Oracle, Meta e IBM.

    A Digital Realty também enfrenta a reação pública cada vez mais intensa contra a construção de data centers. Em Atlanta, a companhia busca uma exceção a uma proibição local de data centers perto de terminais de transporte enquanto tenta construir na cidade uma unidade de US$ 500 milhões — cerca de R$ 2,57 bilhões. Moradores se opuseram ao projeto, que atualmente se encontra num impasse.

    Um porta-voz da Digital Realty afirmou que o projeto criaria empregos bem remunerados e que a empresa estava “comprometida em chegar lá da maneira correta”, em parceria com a comunidade. A unidade de Ashburn reúne trabalhadores administrativos e operacionais. Entre eles estão seguranças, técnicos que cuidam da estrutura de cabos dos clientes, profissionais da cadeia de suprimentos que buscam materiais e engenheiros que monitoram possíveis problemas.

    As funções são semelhantes em outros data centers pelo país. A parte mais importante do trabalho é manter os centros em funcionamento. A Digital Realty estima que seus data centers ficam operacionais durante 99,999% do tempo, mas agora busca alcançar 99,9999%.

    A diferença parece pequena, mas equivale a reduzir o tempo de interrupção de seis minutos para 30 segundos por ano. Don Atkinson trabalha na empresa há cerca de 14 anos, depois de passar 17 anos nas Forças Armadas e exercer uma função na manutenção de sistemas de energia de reserva. Leia também Negócios Como a Hitachi fez dos dados o seu negócio mais rentável.

    E o Brasil ganhou atenção por data centers Hoje, aos 53 anos, ocupa um cargo de gestão e orienta engenheiros mais jovens. Assim como muitos trabalhadores do setor, Atkinson tenta lidar com a mudança repentina na opinião pública a respeito de um ambiente de trabalho no qual construiu uma carreira estável. “Nós amamos os Estados Unidos, amamos o país, amamos o setor, e é simplesmente estranho”, disse ele sobre a reação pública.

    Atkinson também observou que ele próprio não usa muita inteligência artificial. ” A unidade da Digital Realty em Ashburn fica em uma região a oeste de Washington, conhecida como Data Center Alley. Foto: The Wall Street Journal Outro funcionário, Malcolm Mosely, disse que sua família às vezes menciona as questões políticas envolvendo os data centers, mas ele tenta não se concentrar nisso: “Eu apenas venho aqui fazer meu trabalho”.

    Em uma quinta-feira recente, Mosely estava dentro de uma gaiola preta repleta de fios amarelos, verificando um cabo de interconexão que liga a operação de um cliente à de outro. Waddy, que trabalha na unidade de Ashburn há três anos, tem formação superior de curta duração em administração e anteriormente trabalhava com vendas em uma empresa de aquecimento, ventilação e ar-condicionado. Ele começou no turno da noite do data center, ajudando a manter máquinas de clientes espalhados pelo mundo.

    Desde então, subiu na hierarquia. Suas rondas diárias incluem a inspeção da galeria de tratamento de ar da unidade, onde enormes aparelhos de ar-condicionado bombeiam ar frio para o restante do data center. No andar de cima, o salão de dados parece um vestiário, com servidores empilhados em gabinetes ou gaiolas que as empresas podem alugar.

    Don Atkinson, gerente da unidade de Ashburn, diz que, pessoalmente, não é um grande usuário de inteligência artificial. Foto: The Wall Street Journal Não há logotipos nem nomes de empresas, porém, porque concorrentes mantêm operações lado a lado. O uso de protetores auriculares é recomendado no local para evitar danos provocados pelo rugido dos servidores quando se chega perto deles.

    No telhado, Waddy verifica centenas de condensadores dispostos em fileiras organizadas para ajudar a resfriar a instalação. Ele procura defeitos ou estragos causados por pássaros que gostam de bicar os equipamentos. Do telhado, é possível ver ao longe um guindaste usado na construção do data center de um concorrente.

    “É agradável aqui em cima”, disse Waddy. ” ]]>

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