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    Forbes Brasil·23 de out., 08:00

    Como Fazer o Brasil Voltar a Crescer? Quais São os Desafios Econômicos do Próximo Presidente

    Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo. Estamos a menos de três dias de saber quem será o  novo presidente do Brasil . Neste domingo (25), os brasileiros voltam às urnas para decidir quem comandará o país pelos próximos quatro anos.

    No primeiro turno, realizado em 4 de outubro,  Flávio Bolsonaro (PL) terminou na frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente Lula (PT). E, a partir de janeiro, o presidente eleito encontrará um cenário bastante desafiador . Isso porque a economia brasileira está desacelerando com juros elevados e uma situação fiscal deteriorada.

    Além disso, a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) da CNC aponta que  81,7%  das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida. Já o número de empresas inadimplentes no Brasil bateu recorde em agosto de 2026 , alcançando  9,3 milhões  de CNPJs no vermelho. Em agosto, a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) chegou a  82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), ou R$ 11,1 trilhões .

    Ou seja, o estoque da dívida dos governos federal, estaduais e municipais equivale a quase 83% de tudo o que a economia brasileira produz em um ano. O número é alto, mas  não é o maior da história . A máxima da série ocorreu durante a pandemia, quando a dívida chegou a cerca de 87,7% do PIB em 2020.

    O patamar atual, no entanto, é o mais elevado desde 2021 e chama atenção principalmente pela trajetória de alta. Em julho, por exemplo, a relação estava em 82,5%; no fim de 2025, em 78,6%. Por que comparar a dívida com o PIB?

    O PIB funciona como uma medida do tamanho da economia que, de maneira geral, gera renda e arrecadação para o governo. Quanto mais rápido a dívida cresce em relação ao PIB, maior tende a ser o esforço necessário para financiá-la. Uma trajetória crescente, como é o caso do Brasil, pode aumentar a percepção de risco dos investidores, pressionar os juros exigidos para financiar o governo e consumir uma parcela maior do orçamento com o serviço da dívida.

    Para Mauro Rochlin, professor de MBAs da FGV, o cenário econômico é marcado por uma situação fiscal muito grave. “A dívida publica avançou muito nos últimos quatro anos e isso tem feito com que a taxa de juros se mantenha em patamares muito elevados”, comenta. Segundo ele, o gasto que o país tem com juros consome quase um terço de toda a despesa pública.

    A economista Zeina Latif , associate no Gibraltar Consulting Economia, enfatiza que o ajuste fiscal precisa ser a prioridade, funcionando como o alicerce para a estabilidade macroeconômica, a redução dos juros e a previsibilidade. Para ela, a falta de clareza fiscal cria um ambiente que paralisa as decisões de investimento do setor privado. ” Ela lembra que a falta de controle das contas públicas não prejudica apenas os indicadores econômicos, mas afeta a capacidade do Estado de cumprir suas funções básicas de saúde, segurança pública e apoio à educação.

    Brasil perde fôlego Nos 12 meses encerrados em julho, os  juros nominais (juros contabilizados sobre a dívida pública) do setor público chegaram a R$ 1,15 trilhão, ou 8,67% do PIB , de acordo com o BC. No mesmo período, o setor público teve déficit primário de R$ 89,3 bilhões, equivalente a 0,67% do PIB. Depois de acrescentados os juros, o déficit nominal saltou para  R$ 1,24 trilhão, ou 9,34% do PIB , segundo Banco Central.

    Quando as despesas superam as receitas, há déficit primário; quando ocorre o contrário, há superávit. O resultado primário mostra a diferença entre o que o setor público arrecada e gasta antes do pagamento dos juros da dívida. O PIB brasileiro cresceu  0,5% no segundo trimestre de 2026  em relação aos três meses anteriores, depois de avançar 1,1% no primeiro trimestre.

    Em quatro trimestres, o crescimento acumulado desacelerou para  1,9% , segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As expectativas para os próximos meses não apontam para uma aceleração. O último Boletim Focus divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira (19) mostrou nova revisão para baixo das projeções do mercado.

    A mediana das estimativas para o crescimento do PIB em 2026 caiu de 1,85% para  1,83% . Para 2027, a redução foi mais expressiva: de 1,40% para  1,32% , o menor nível desde que o BC começou a coletar previsões para o próximo ano. Além disso, o mercado espera inflação de  5,22% em 2026  e  4,32% em 2027 , enquanto a Selic é projetada em  13,25% ao fim deste ano e 12% ao fim de 2027 .

    Atualmente, a taxa básica de juros está em 13,75% ao ano. O professor da FIA Business School, Rodolfo Olivo , destaca o cenário difícil, independentemente de quem sairá vitorioso nas urnas. Na avaliação do economista, a prioridade tem que estar nas contas públicas.

    “Com a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) caminhando em direção ao patamar dos 85% a 90% do PIB, há temores crescentes quanto ao risco de solvência do país caso a taxa de juros de longo prazo não caia substancialmente. Se nada for feito esse patamar pode se aproximar de 100% do PIB nos próximos anos”, afirma Olivo. O economista explica que o próximo governo precisará reafirmar o respeito à autonomia do Banco Central e ancorar as expectativas de inflação , fazendo com que as políticas fiscal e monetária trabalhem na mesma direção.

    Hoje, segundo ele, ocorre o contrário, pois enquanto a política fiscal “acelera”, a política monetária “freia” a economia. Na prática, de um lado, o governo mantém uma política fiscal que sustenta a demanda por meio dos gastos públicos, benefícios, transferências e outras medidas de estímulo. Mais dinheiro circulando e um consumo mais resistente ajudam a atividade econômica, mas também podem dificultar a queda dos preços quando a economia já opera com pouca folga.

    Do outro lado está o BC, cuja principal missão é levar a inflação de volta à meta. Para conter a demanda e evitar que os preços continuem subindo, a autoridade monetária mantém os juros em patamar elevado. Felipe Salto , economista-chefe e sócio da Warren Investimentos e ex-secretário da Fazenda e do Planejamento do Estado de São Paulo é mais um especialista a afirmar que o quadro atual é de fragilidade fiscal .

    Mas, o atual patamar ainda está distante de representar um risco de solvência , segundo a sua análise. Solvência é a capacidade do governo de  honrar suas dívidas ao longo do tempo . Um país entra em uma situação de risco quando cresce a percepção de que ele pode não conseguir gerar recursos suficientes, refinanciar seus débitos ou encontrar investidores dispostos a continuar financiando sua dívida em condições sustentáveis.

    Quanto maior esse risco, maior tende a ser o retorno exigido pelos investidores para emprestar dinheiro ao governo, podendo encarecer ainda mais a dívida e alimentar um ciclo de deterioração fiscal. Salto aponta que a situação é diferente de outros momentos de estresse econômico. ” Por outro lado, ele diz que os gastos crescem acima do PIB e a dívida é alta e crescente , demandando um plano de estabilização.

    “O desafio central é apresentar um plano, rapidamente, mas com efeitos distribuídos em quatro anos “, destaca Salto. A conta não fecha Equilibrar as contas públicas sem mexer em impostos ou cortar gastos parece pouco provável na avaliação dos especialistas consultados pela Forbes. “Não existe mágica”, resume Felipe Salto.

    Para ele, será necessário aprovar um plano capaz de conter o crescimento da despesa pública e recuperar um superávit primário suficiente para estabilizar a relação entre dívida e PIB no médio prazo. ” O economista também afirma a necessidade de rever gastos tributários, isto é, benefícios e renúncias fiscais concedidos pelo governo. Para o professor da FIA, o governo terá que negociar uma combinação entre aumento de tributos e redução de gasto s, em um ambiente no qual boa parte do orçamento já está comprometida com despesas obrigatórias.

      Segundo Zeina Latif em torno de 95% do orçamento da União está comprometido com despesas obrigatórias previstas na Constituição. A especialista aponta que aumentos na carga tributária dificilmente compensariam a expansão contínua dessas despesas. ” Como fazer o Brasil voltar a crescer?

    Colocar as contas em ordem será apenas parte do trabalho do próximo presidente. O principal obstáculo será criar condições para que o país volte a crescer de forma consistente , sem depender de estímulos pontuais ou de ciclos passageiros de expansão. “Para falar de crescimento sustentável, tem que se pensar em um orçamento público minimamente equilibrado”, afirma Mauro Rochlin, professor dos MBAs da FGV.

    Na avaliação do economista, não haverá uma solução única para chegar a esse equilíbrio. “A solução desse problema maior, sem dúvida nenhuma, passa tanto pelo aumento de impostos como por corte de gastos. Acho que não existe solução miraculosa”, diz.

    Outro ponto de atenção são as despesas vinculadas ao salário mínimo. Como o piso nacional tem recebido reajustes acima da inflação, gastos atrelados a ele também avançam. Na avaliação de Rochlin, um crescimento mais moderado dessas despesas já poderia ajudar a encaminhar parte do desequilíbrio.

    A economista Zeina Latif ainda chama atenção para a  insegurança jurídica no país, para as incertezas em torno da implementação da Reforma Tributária, que ainda geram preocupação no setor produtivo e para a rápida transição da escala 6X1. “O setor privado já tem sofrido com outras fontes de preocupação”, afirma Latif. “O Brasil não cresce de forma prolongada e sustentável há cerca de 40 anos , porque há diversas barreiras estruturais para isso acontecer”, acrescenta Rodolfo Olivo, professor da FIA Business School.

    De acordo com Olivo, algumas das  principais reformas de longo prazo  necessárias para o crescimento sustentável do PIB brasileiro são: 1- Reforma tributária:  Concluir a regulamentação e a transição para o novo modelo de Imposto sobre Valor Adicionado (IVA dual), formado pela CBS federal e pelo IBS estadual e municipal, com segurança jurídica. A desoneração dos investimentos produtivos e das exportações, segundo Olivo, é necessária para reduzir o custo do capital e aumentar a competitividade da indústria. 2- Reforma administrativa:  Rever o desenho das carreiras do setor público, privilégios e distorções remuneratórias, como os chamados supersalários, além da indexação de despesas obrigatórias.

    “Existe a necessidade de discutir reforma administrativa para os estados, municípios, poderes Legislativo e Judiciário. Por exemplo, municípios com menos de 5 mil habitantes são extremamente deficitários e precisam ser sustentados pelos repasses federais. Poderia haver um tamanho mínimo para municípios”, afirma.

    3- Reforma da Previdência:  O envelhecimento da população e a queda da taxa de fecundidade pressionam o atual modelo de repartição da Previdência. Olivo também aponta distorções entre as aposentadorias dos setores público e privado. 4- Aber

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