Como o aluguel de ações ajudou a dar impulso a empresas na bolsa brasileira com o resultado das eleições
O recente movimento de alta de ações na bolsa brasileira guarda relação com expectativas para as eleições. Até aí, isso fica claro com o movimento do Ibovespa a cada pesquisa eleitoral divulgada. Porém, não é só da maneira mais evidente, ou seja, em meio a uma perspectiva de mudança de governo.
Tem um fator indireto: o quadro de alto endividamento das empresas. A crise de muitas companhias abertas, como redes de varejo que dependem do consumo e sofrem com juros nos maiores níveis em duas décadas, é um prato cheio para o investidor que atua como “vendedor a descoberto”, também conhecido no mercado como “ short seller “. Esse tipo de estratégia de investimento obtém ganhos com a queda dos preços de ativos.
Como o nome sugere, basicamente, se trata de vender algo que o investidor não tem para tentar recomprar esse ativo mais barato no futuro – dada a expectativa de queda no preço. A diferença entre os valores de venda e de recompra é o lucro – ou o prejuízo – de quem faz esse tipo de negociação. Se o papel cai, portanto, o vendedor a descoberto tem ganho.
Mas se a ação sobe, ele perde com a operação. Para montar esse tipo de posição, o interessado “aluga” o ativo de quem detém a ação . O problema para esse investidor se dá quando a ação passa a subir – afinal, ele terá que comprar o papel lá na frente.
Quando isso acontece, muitos que estão “vendidos” precisam correr para comprar o papel e evitar acumular prejuízo. E é esse movimento de cobertura de “posições vendidas” que pode estar empurrando para cima várias ações na bolsa atualmente. Após o primeiro turno no último dia 4 de outubro, muitas companhias endividadas passaram a ver as cotações em alta em meio à uma mudança de expectativas sobre um esperado ajuste fiscal no futuro.
Medidas de contenção de gastos públicos poderiam levar a juros menores em 2027. Na segunda-feira (19) desta semana, ações do Azzas 2154, da Casas Bahia e da MRV, que possuem altos índices de aluguel de ações , viveram uma sessão de fortes elevações. As ações do Azzas (AZZA3), por exemplo, subiram 13,25%.
As da MRV (MRV3) tiveram alta de 10,94%, enquanto as da varejista de móveis e eletrodomésticos (BHIA3) avançaram 4,39%. Os três papéis fazem parte da lista das 10 ações com mais posições vendidas atualmente – sim, esses dados são conhecidos. Leia também Investimentos Ações de Magalu, Casas Bahia e outras varejistas sobem até 10%.
O que está por trás das altas? Um terço das ações em circulação da Casas Bahia está nas mãos de quem tomou o papel emprestado. O vendedor a descoberto paga, em média, 32% ao ano pelo aluguel, segundo dados da B3.
A varejista, que pediu recuperação judicial em agosto, lidera o ranking das ações mais alugadas da bolsa brasileira, tanto em termos de taxa de aluguel quanto do percentual de ações alugadas em relação ao volume total de papeís em circulação ( free float ), que alcança 33,4%. Nos últimos meses, movimentos de cobertura de posições podem ter ajudado a turbinar as valorizações. O papel da Casas Bahia tinha cotação de R$ 0,40 em 28 de agosto e passou a R$ 1,14 em 16 de outubro: uma alta de 185%.
No caso das incorporadoras, os números de valorização também sugerem que o movimento aconteceu. A MRV tinha 19,3% do free float vendido em 4 de setembro, com índice de 28,2% ao ano de aluguel. Em outubro, a alta da ação já alcança 47,7%.
Na sexta-feira da semana passada, os dados da B3 passaram a mostrar 17,3% do free float alugado e uma taxa de 6,60%. A queda forte do custo do aluguel é compatível com o movimento de investidores “vendidos” em busca da recompra, para devolverem as ações. Recuperação judicial torna aluguel mais caro No grupo das 20 ações em que o custo do aluguel supera 4% ao ano não é raro ver uma fatia de dois dígitos das ações em circulação emprestadas.
É nesse grupo em que mora o risco de uma corrida para cobrir posições se as cotações subirem. Se considerarmos apenas ações com saldo alugado de pelo menos R$ 10 milhões, seis das 20 ações com aluguel mais caro são empresas em recuperação judicial ou extrajudicial. Nesses papéis, a taxa alta reflete dois fatores: a alta demanda de quem aposta na queda, mas também a escassez de ações disponíveis para empréstimo.
A Casas Bahia é o exemplo mais nítido. A varejista pediu recuperação judicial em 16 de agosto, com R$ 17,3 bilhões em dívidas, depois de um prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre. O percentual de ações em circulação já vinha encolhendo: somavam apenas 17,89% do capital da companhia.
Com pouca ação para emprestar e muita gente querendo vender a descoberto para apostar na queda do preçox, o aluguel chegou a um custo de 32% ao ano. Leia também Investimentos FII pede despejo da Casas Bahia após calote de R$ 4,3 mi em aluguel No caso da petroquímica Braskem, o aluguel com taxa de 24% ao ano reflete a desconfiança de investidores diante dos problemas que levaram a companhia ao pedido de recuperação extrajudicial no fim de agosto, para reestruturar R$ 10,9 bilhões em dívidas. Mas não são só de companhias endividadas que vive o short selling .
Na varejista de moda Azzas 2154, a estratégia vendida tem origem diferente. As posições passaram a ser montadas a partir da colisão entre os principais sócios. Em setembro de 2026, os acionistas controladores Alexandre Birman e Roberto Jatahy fecharam um acordo para cindir e separar novamente a companhia em duas empresas independentes listadas na B3.
A conclusão do processo está prevista para o 1º trimestre de 2027. Como funciona o aluguel de ações Quando um investidor quer tentar ganhar com uma potencial queda de preços, ele pega emprestado os papéis de alguém que os tenha na carteira. Para isso, paga uma taxa anual sobre o valor do ativo.
Digamos, por exemplo, que um investidor aceitou pagar 5% anuais para alugar uma ação e decidiu devolver os papéis depois de dois meses. A taxa bruta para o período, considerando que a B3 só conta os dias úteis, vai alcançar 0,8165%. O cálculo do aluguel é apurado dia a dia com base no fechamento das ações na bolsa.
Na estratégia vendida, como a cotação não pode cair mais que 100%, esse é o limite de lucro possível. Para cima, porém, teoricamente não há limite: se o preço da ação subir mais de 100%, a perda do investidor passa a superar o ganho máximo que ele poderia ter obtido. Para prevenir excessos, existe um mecanismo de segurança estabelecido pela bolsa, conhecido como “chamada de margem”.
A B3, basicamente, exige garantias de quem toma ações emprestadas. Quando o papel sobe, o investidor “vendido” precisa depositar mais garantia ou zerar a posição. Muitos zeram ao mesmo tempo, e a compra simultânea empurra o preço ainda mais para cima.
Quando há um número muito grande de gente querendo cobrir as posições, pode ocorrer o que é conhecido como “ short squeeze “, ou aperto dos vendidos. Nesse caso, a onda de investidores que vão às compras acaba impulsionando ainda mais as altas. O problema é que boa parte desse empurrão artificial pode ser revertido ao longo das semanas seguintes.
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Resumo publicado pelo SJX NEWS. O conteúdo integral pertence ao veículo de origem.
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