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    Como os FIDCs se tornaram uma ‘tábua da salvação’ para varejistas em crise financeira
    InvestNews·16 de set., 09:00

    Como os FIDCs se tornaram uma ‘tábua da salvação’ para varejistas em crise financeira

    A onda de empresas brasileiras altamente endividadas e em crise financeira escancarou o uso crescente de um instrumento para levantar capital: os fundos de investimento em direitos creditórios, os FIDCs. Esse instrumento se tornou particularmente importante para empresas do varejo, para quem antecipar o dinheiro de carnês, parcelas e outras formas de recebíveis tornou-se uma forma de conseguir hoje o dinheiro que só entraria no caixa no futuro. Com operações e caixa pressionados e um quadro de inadimplência das famílias em alta e consumo aquém do esperado, essas empresas se depararam com um custo de capital mais caro e escasso – e isso vale principalmente para canais mais tradicionais, como bancos.

    Ou seja, onde o sistema financeiro recuou, o mercado de capitais avançou. Enquanto debêntures, CRIs e CRAs tiveram retração como instrumento de captação na primeira metade de 2026, os fundos de investimento em direitos creditórios cresceram. Leia também Investimentos Desconfiança de investidor com títulos privados afeta o mercado até de empresas saudáveis Negócios Empresas zumbi se multiplicam no Brasil sob o peso de dívidas.

    E ampliam o risco de contágio Um levantamento ao qual o InvestNews teve acesso apontou que 27 companhias de varejo listadas na B3 possuem cerca de R$ 6 bilhões em operações ligadas a FIDCs. Considerando exposições que não aparecem claramente nos balanços, o montante pode ser ainda maior e variar entre R$ 6,6 bilhões e R$ 8,4 bilhões. E há casos mais evidentes.

    Em recuperação judicial, a Casas Bahia tem aproximadamente R$ 3,95 bilhões ligados a 12 fundos. FIDCs da rede varejista chegavam a pagar CDI+30% ao na tentativa de atrair investidores – o retorno mais elevado é reflexo justamente do risco que o ativo oferece –, como mostrou o InvestNews em reportagem sobre a crise da empresa. Casas Bahia: FIDCs se tornaram instrumento fundamental para sustentar a operação de varejo (Maira Erlich/Bloomberg) Na Lojas Quero-Quero , de materiais de construção, as cotas seniores de um FIDC, o Verdecard, somam cerca de R$ 1,36 bilhão.

      “FIDC no varejo brasileiro não é um fenômeno setorial, é um fenômeno de rating.   Essa alternativa, porém, nem sempre vale a pena em termos de custos. O CFO de uma varejista listada na bolsa que ainda não utiliza FIDCs como instrumento de crédito disse ao InvestNews que a empresa avalia acessar o instrumento, mas não encontrou ainda vantagem sobre a antecipação de recebíveis de cartão.

    “Hoje é muito difícil você achar um FIDC mais barato do que CDI mais 4% ou CDI mais 3,8%, por exemplo”, afirmou o executivo, ouvido sob condição de anonimato, em referência ao custo da dívida. Essa conta ajuda a explicar por que os fundos não se espalharam uniformemente pelo setor. Para empresas que ainda têm acesso a alternativas mais em conta, o FIDC pode não compensar.

    Mas ganha relevância quando bancos encurtam prazos, exigem garantias adicionais ou não oferecem todo o volume de recursos necessário. Do banco ao mercado de capitais O crescimento do uso de FIDCs por empresas em dificuldades não começou, deve-se dizer, com o atual quadro de deterioração do crédito. Ele faz parte de uma mudança estrutural no financiamento das empresas brasileiras e do amadurecimento do mercado de capitais.

    O patrimônio líquido dos fundos passou de R$ 639,79 bilhões em maio de 2025 para R$ 791,42 bilhões em julho de 2026, segundo a Anbima. h+"px","important"); }); })(); No primeiro semestre deste ano, as emissões de FIDCs atingiram o recorde de R$ 53,1 bilhões, de acordo com a Moody’s. Parte relevante desse avanço veio dos fundos financeiros, especialmente os ligados ao crédito consignado, e não apenas a operações com varejistas.

    “Há dez anos, para cada R$ 1 que os bancos emprestavam às empresas, havia cerca de R$ 0,20 no mercado de capitais e menos de R$ 0,10 em securitização. Hoje, para cada R$ 1 dos bancos, há mais de R$ 1 no mercado de capitais e quase R$ 0,50 em securitização”, afirma Carolina Yaginuma, diretora sênior de Finanças Estruturadas da Fitch. A comparação considera a securitização como um todo, e não somente os FIDCs.

    Ainda assim, mostra como esses instrumentos deixaram de ocupar uma posição marginal no financiamento das empresas. O risco também varia conforme o recebível e a estrutura de cada fundo. No cenário atual, porém, bancos e investidores estão mais seletivos.

    Companhias com boa qualidade de crédito ainda conseguem captar e, em alguns casos, reduzir spreads (a diferença em relação a taxas de referência). Para as empresas mais alavancadas, por outro lado, as negociações demoram mais e resultam em prazos menores, taxas mais altas e exigência de garantias. Isso quando conseguem fechar novos contratos.

    Leia também Investimentos Cobertor curto: 7 ações do Ibovespa mais expostas ao impacto dos juros altos em seus resultados Investimentos FIDCs da Casas Bahia ofereciam retornos de até CDI+30% ao ano – e dobraram captação na crise Segundo Leonardo Albuquerque, analista sênior da Moody’s, os bancos estão restringindo especialmente as linhas mais longas. Em muitos casos, as novas operações ficam limitadas a prazos de até dois anos. “Não é uma crise de liquidez, mas é um cenário macroeconômico desafiador”, afirma Patricia Maniero, diretora e analista de crédito da Moody’s.

    A agência registrou 13 rebaixamentos e três elevações no primeiro semestre nas notas de crédito na carteira de empresas não financeiras apresentada em recente relatório. Também houve aumento das perspectivas negativas, muitas associadas à liquidez e à necessidade de administrar vencimentos nos próximos 12 meses. A Fitch faz uma avaliação semelhante.

    A agência de classificação de risco de crédito apontou o varejo como um dos setores com maior número de rebaixamentos no ano, atrás apenas da saúde, mas ressalta que há companhias bem preparadas e até casos de elevação de rating. Dívida nova para pagar… dívida velha A finalidade das captações ajuda a dimensionar o aperto. Em vez de financiar novas lojas, aquisições ou grandes projetos de expansão, a maior parte dos recursos levantados está sendo destinada ao pagamento de dívida que já existe – o que reforça o debate sobre se esse dinheiro está sendo bem alocado, como contou o InvestNews ao tratar do fenômeno das empresas zumbi .

    Segundo Albuquerque, mais de 70% a 80% das emissões recentes foram feitas para gestão de passivos. Em algumas operações, uma pequena parcela fica no caixa. Em outras, todo o dinheiro é usado no pagamento ou na substituição de dívidas anteriores.

    A Fitch observa o mesmo movimento. Grande parte dos recursos captados nos últimos dois anos serviu para refinanciar passivos, alongar vencimentos e reduzir custos. No varejo, empresas diminuíram a expansão e fecharam lojas pouco rentáveis.

    A pressão financeira nem sempre aparece imediatamente no desempenho operacional. “Quando olhamos o balanço e a demonstração de resultado, os números até são satisfatórios. O problema está no fluxo de caixa, basicamente no pagamento de juros, que subiu muito”, afirma Renato Donatti, diretor sênior da Fitch.

    Quanto maior a alavancagem, mais dinheiro a companhia precisa destinar às despesas financeiras. Sobra menos para investir, financiar estoques, abrir lojas ou reduzir a própria dívida. A janela de captação de 2024 e 2025 ajudou a evitar uma deterioração ainda maior.

    Segundo a Fitch, o mercado de capitais movimentou quase R$ 750 bilhões por ano no período, ante cerca de R$ 300 bilhões anuais anteriormente. Esse volume permitiu que muitas empresas alongassem vencimentos e reduzissem o risco de refinanciamento. “Quem não aproveitou a janela de 2024 e 2025 para se refinanciar, com spread s baixos e prazos longos, perdeu uma boa oportunidade de alongar os passivos”, diz Donatti.

      Para as demais, captar deixou de ser uma escolha ligada ao crescimento.   ]]>

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