Copom mantém cautela e evita ‘cheque em branco’ para novos cortes, dizem economistas
O comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom ) , do Banco Central (BC) , que acompanhou a decisão de cortar a taxa básica de juros (Selic) em 0,25 ponto porcentual, para 13,75% ao ano , anunciada na noite desta quarta-feira, 16, já era esperado pelo mercado financeiro e manteve tom semelhante ao da reunião anterior do colegiado, em agosto. De acordo com economistas e analistas do mercado ouvidos pela reportagem de Oeste depois da quinta redução consecutiva dos juros básicos da economia, a autoridade monetária deixou a “porta aberta” para novos cortes nas próximas reuniões, mas não deu um “cheque em branco” para garantir que isso ocorrerá. Com a decisão do Copom, a Selic alcançou o menor nível em um ano e meio, desde março de 2025.
O atual ciclo de queda da Selic começou em março deste ano, sempre com cortes de 0,25 ponto porcentual a cada reunião. Naquela ocasião, o Copom promoveu o primeiro corte de juros desde 2024. + Leia mais notícias de Economia em Oeste O que diz o mercado Segundo Vitor Kayo, economista sênior da Nomad , o comunicado manteve a estrutura e boa parte do diagnóstico de agosto.
“O cenário externo segue marcado pela incerteza sobre os conflitos no Oriente Médio e pela política monetária em economias avançadas. O balanço de riscos permanece com assimetria altista, e o Copom repete que segue acompanhando os desenvolvimentos da política fiscal e monitora com atenção a desancoragem das expectativas de inflação para prazos mais longos. O texto também mantém a mensagem de serenidade e cautela diante do significativo aumento da incerteza”, afirma.
Para Kayo, “o Copom não sinalizou os próximos passos, mas deixou a porta aberta para um novo corte na próxima reunião”. “A decisão final dependerá da evolução dos dados até lá. A leitura é de continuidade, com serenidade, cautela e política monetária dependente de dados”, completa o analista.
Pablo Spyer, conselheiro da Ancord , observa que “há uma mudança clara no diagnóstico da economia”. “Em setembro, o BC passou a destacar uma moderação mais evidente da atividade, principalmente nos setores mais cíclicos, enquanto em agosto falava em uma desaceleração gradual, mas ainda com sinais mistos entre os setores”, compara. “A inflação corrente também apresentou melhora: em setembro, o Copom afirmou que tanto o índice cheio quanto a média das medidas subjacentes desaceleraram e ficaram abaixo do limite superior do intervalo de tolerância”, explica Spyer.
v=PENYCxuLAhk Por outro lado, segundo o analista, o BC “ficou mais cauteloso” com o cenário à frente. “As expectativas de inflação continuam desancoradas, em 4,9% para 2026 e 4,3% para 2027, e o comitê passou a destacar com ainda mais ênfase os riscos relacionados ao petróleo, aos efeitos climáticos sobre alimentos e energia, ao câmbio e à combinação das políticas econômicas”, afirma. ” A grande mensagem, portanto, observa Spyer, é que “o corte não representa um compromisso com novas reduções”.
“Em agosto, o Copom já dizia que a magnitude total do ciclo seria definida conforme as novas informações; agora, mantém exatamente essa flexibilidade e reforça que o ambiente de maior incerteza, as expectativas desancoradas e os riscos elevados exigem cautela”, diz. “O Copom entregou o corte que o mercado esperava, mas não entregou um cheque em branco para os próximos cortes. A atividade está desacelerando, e a inflação corrente melhorou, mas as expectativas continuam desancoradas e os riscos aumentaram.
Agora, o mercado vai acompanhar os dados para descobrir até onde essa calibragem pode avançar”, conclui Spyer. Leia também: "Na última reunião antes da eleição, BC corta juros pela 5ª vez seguida, para 13,75%" Para Eduardo Palomine, sócio na EXM Partners , “o controle da inflação continua sendo o principal norteador da política monetária”, mas “a dúvida para muitas empresas é por quanto tempo ainda será necessário conviver com os efeitos de um cenário de juros altos”, no qual “o custo de capital permanece elevado, o crédito segue restrito e uma parcela relevante da geração de caixa continua comprometida com o serviço da dívida”. “A decisão é relevante, mas o que está em jogo agora é quando a redução da Selic poderá efetivamente ser considerada um alívio para as empresas e quanto desse alívio poderá ser convertido em desalavancagem e investimento”, afirma.
José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos , destaca que a desaceleração da inflação se deveu, em grande parte, a questões puramente temporais, como a redução da inflação de alimentos. “Algo que pode voltar nos próximos meses, devido ao El Niño mais intenso, ao mesmo tempo em que a guerra no Oriente Médio continua fazendo com que o preço do petróleo permaneça acima de US$ 100 o barril”, explica. Neste contexto, continua Camargo, “existem muitas incertezas pela frente”.
“O comunicado teve poucas mudanças em relação à reunião passada. Não mencionar o fato de que a desaceleração da taxa de inflação depende de fatores pontuais, e não da política monetária, sugere uma expectativa mais suave da política monetária”, analisa. Segundo Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos , o comitê manteve uma “avaliação de ambiente incerto”.
“No cenário doméstico, reforçou a moderação gradual da atividade, principalmente nos setores mais cíclicos. O parágrafo sobre a política fiscal foi mantido, com a reafirmação de que seus efeitos sobre as expectativas e os prêmios de risco seguem em monitoramento”, diz. “O comitê não se comprometeu com os próximos passos e deixou a condução totalmente dependente dos dados, reforçando que as decisões seguirão a evolução do cenário.
Entendemos que a falta de sinalização é deliberada: diante da volatilidade esperada para o período eleitoral, o Copom preserva a flexibilidade para calibrar o ritmo, sem indicar que vai interromper o ciclo”, explica Oliveira. v=JKAJ6waLwoo Rafael Cardoso, economista-chefe do Daycoval , compartilha da avaliação de que o comunicado trouxe “poucas novidades”. “Foi muito parecido com o anterior, com duas alterações marginais no diagnóstico sobre a atividade econômica e sobre a inflação”, diz.
“Na atividade econômica, dando mais um passo no reconhecimento da desaceleração, e na inflação, também um reconhecimento do quadro inflacionário, mas sem grandes alterações”, afirma. Para Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay , apesar da piora nas estimativas de curto e médio prazo, “o cenário de referência continua indicando convergência da inflação para próximo da meta ao longo do horizonte de atuação do BC”. “Isso preserva espaço para a continuidade do ciclo de cortes, ainda que sem margem, neste momento, para aceleração do ritmo”, diz.
Leia também: "Fiesp considera 'tímido' corte de juros do BC diante do endividamento do país" De acordo com a economista, “as expectativas de inflação também seguem exigindo cautela”. “O comitê voltou a destacar a desancoragem das expectativas de prazos mais longos e seus efeitos sobre a formação de preços e sobre o custo do processo de desinflação. Ao mesmo tempo, retirou a referência à ‘desancoragem adicional’, presente no comunicado anterior, o que sugere ausência de uma piora adicional na avaliação desse risco”, afirma Benedito.
Segundo a economista, “o balanço de riscos permanece mais elevado que o usual e com assimetria altista”. “Entre os principais riscos de alta, o Copom manteve a possibilidade de persistência da inflação de serviços, os efeitos de uma taxa de câmbio mais depreciada, choques de oferta associados ao petróleo, clima e energia, além de eventuais estímulos à demanda e ao consumo”, observa. ” Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital , destaca o peso do cenário internacional na decisão do Copom.
“No mesmo dia em que o Copom corta, o Fed sobe os juros de forma unânime e sinaliza mais uma alta este ano . O Banco Central Europeu já subiu, e o Banco do Japão deve subir na sexta-feira. Estamos entrando em um aperto monetário global, puxado pelo petróleo acima de US$ 100.
Cortar juros enquanto o mundo sobe estreita o diferencial e deixa o real mais vulnerável, e o BC sabe disso”, alerta. Para Trevisan, o cenário eleitoral interno também exerce influência sobre o comportamento do Copom. “As próximas reuniões acontecem em novembro e dezembro, já com o resultado das urnas conhecido.
Não faz sentido o BC se comprometer com qualquer trajetória antes de saber qual será a política fiscal dos próximos quatro anos”, afirma. ” Augusto Parente, especialista em investimentos e fundador da AW Capital , também acredita que o Copom manteve um tom cauteloso, aguardando algumas definições “quanto aos choques de oferta do petróleo e seus derivados decorrente do conflito no Oriente Médio”. “Apesar disso, o BC reafirma que a economia vem desacelerando mais rápido do que o que foi projetado”, aponta.
Leia também: "BC dos EUA aumenta taxa de juros pela 1ª vez desde 2023" Próximas reuniões A reunião do Copom concluída na quarta-feira foi a última antes do início do processo eleitoral no Brasil. O primeiro turno das eleições acontece no dia 4 de outubro, e o segundo, em 25 de outubro. A próxima reunião do Copom, a sétima do ano, está marcada para os dias 3 e 4 novembro.
Será o penúltimo encontro da autoridade monetária para definir a taxa básica de juros em 2026. A última reunião do ano acontecerá nos dias 8 e 9 de dezembro. v=1hW-l5R_0i4 O post Copom mantém cautela e evita ‘cheque em branco’ para novos cortes, dizem economistas apareceu primeiro em Revista Oeste .
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