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    CNN Brasil·29 de set., 11:35

    Das ‘baterias de água’ às novas soluções de armazenamento de energia

    Antes das baterias de lítio , o Brasil já contava com a rmazenamento de energia em larga escala. Por décadas, os reservatórios das usinas hidrelétricas funcionaram como “baterias de água”: deslocaram a disponibilidade hídrica entre períodos chuvosos e secos e ofereceram flexibilidade para atender às variações sazonais da demanda. Essa capacidade foi um diferencial estratégico da matriz elétrica brasileira.

    O país construiu um sistema renovável, integrado e capaz de aproveitar a complementaridade entre regiões. Mas essa característica já não responde sozinha à complexidade da operação. A expansão hidrelétrica ocorreu com maior participação de empreendimentos a fio d’água, com menor capacidade de regularização, enquanto a geração eólica e solar avançou rapidamente.

    Em 2025, as fontes renováveis responderam por 86,8% da oferta interna de eletricidade. Eólica e solar, somadas, já representam 26,4%, ante 10,9% em 2020 , segundo a EPE (Empresa de Pesquisa Energética). Esses resultados ampliam a necessidade de recursos capazes de oferecer flexibilidade, potência, controle e deslocamento temporal de energia.

    Mais renováveis exigem novas formas de flexibilidade Solar e eólica apresentam perfis variáveis de geração: a produção solar se altera ao longo do dia, enquanto a eólica depende dos ventos. Em determinados momentos, restrições elétricas, energéticas ou operativas exigem reduzir parte da produção renovável porque o sistema não consegue absorvê-la ou transportá-la. Em 2025, o corte de geração eólica e solar (curtailment) chegou a 20,6%, mais que o dobro de 2024, com prejuízo estimado acima de R$ 6 bilhões, segundo a Volt Robotics .

    O desafio é ajustar oferta e demanda, armazenando o excedente e disponibilizando energia quando ela gera mais valor ao sistema. Essa flexibilidade pode vir de baterias, reservatórios, usinas reversíveis, transmissão, resposta da demanda e gestão inteligente da geração distribuída. As usinas hidrelétricas reversíveis merecem atenção especial.

    Ao combinar armazenamento em grande escala e maior duração com resposta às necessidades de potência e flexibilidade, elas podem aproveitar a experiência hidrelétrica do Brasil e complementar as baterias em serviços de maior duração. O debate deve incluir soluções capazes de sustentar a expansão renovável nas próximas décadas. Já as baterias ganharam protagonismo pela rapidez de implantação, capacidade de resposta e queda de custos.

    Em 2025, foram instalados 108 GW de novos sistemas no mundo , avanço de 40%, segundo a Agência Internacional de Energia. Já não é uma tecnologia experimental. No Brasil, o ambiente econômico e regulatório precisa direcioná-la aos pontos e serviços em que o benefício para o sistema seja maior.

    Leilão será um teste para o desenho do mercado Os primeiros leilões no Brasil voltados ao armazenamento em baterias, previstos para dezembro, marcam a passagem dos projetos-piloto para uma nova escala. O desenho prevê contratos de 15 anos, início do fornecimento em 2028 e entrega de energia por pelo menos quatro horas. 807 MW.

    O número é expressivo, mas o cadastro não equivale a projeto habilitado, investimento contratado ou necessidade do sistema. Avaliação técnica, capacidade de conexão e volume demandado ainda funcionarão como filtros. Essa diferença entre intenção e execução é central.

    Para atrair capital de longo prazo, o marco regulatório deverá oferecer previsibilidade sobre remuneração, alocação de riscos, medição do desempenho e tratamento das limitações da rede. Será preciso, ainda, evitar que a competição pelo menor preço produza ativos incapazes de sustentar o desempenho por 15 anos. Baterias perdem capacidade com o tempo , e conexão, software, manutenção e destinação final fazem parte da conta.

    Escala depende de uma combinação de soluções O primeiro leilão é voltado a baterias com ciclos de quatro horas de duração. Esse produto pode contribuir para o deslocamento intradiário de energia, a gestão de rampas e a resposta rápida a necessidades operativas. Sua contribuição, contudo, deve ser avaliada com outros recursos de flexibilidade, porque nenhuma tecnologia de armazenamento atende isoladamente a todos os requisitos do sistema elétrico brasileiro, por isso a importância da diversificação e complementariedade .

    Nesse contexto, as usinas hidrelétricas reversíveis podem ocupar posição estratégica. Esses empreendimentos utilizam energia para bombear água a um reservatório superior e voltam a gerar quando o sistema requer energia, potência ou outros serviços de flexibilidade. O Brasil reúne experiência hidrelétrica e condições naturais favoráveis; sua inserção dependerá de inventários, licenciamento, conexão e mecanismos de remuneração compatíveis com os serviços prestados.

    As tecnologias devem ser comparadas conforme o serviço requerido. Duração, tempo de resposta, localização, disponibilidade, prazo de implantação, conexão, impacto ambiental, usos múltiplos do reservatório e custo total são atributos relevantes. Conforme a necessidade, a alternativa poderá ser bateria, usina reversível, transmissão, participação da demanda ou uma combinação desses recursos.

    Projetos-piloto ajudam a converter hipóteses em evidências. Em janeiro, a CTG Brasil inaugurou, na Usina Hidrelétrica Ilha Solteira (SP), o FlexBess , laboratório que combina geração solar e baterias para avaliar desempenho, segurança e modelos de operação. A experiência reforça que armazenar energia exige inteligência operacional, qualificação técnica e regras que reconheçam o valor entregue ao sistema.

    Esse conhecimento reduz incertezas e cria condições para levar as soluções à escala. O Brasil construiu parte de sua segurança elétrica aprendendo a administrar a água armazenada nos reservatórios. O próximo passo é ampliar essa competência com diferentes formas de armazenamento e outros recursos de flexibilidade.

    O leilão de baterias poderá produzir benefícios duradouros se contribuir para uma agenda de longo prazo, com critérios tecnológicos neutros, coordenação entre planejamento e operação e contratação orientada pelos serviços de que o sistema necessita. * Fernanda Genova Martins é diretora de Desenvolvimento de Negócios e Inovação da CTG Brasil Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.

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