Demoscopia de encomenda
A pesquisa Quaest divulgada na quarta-feira. 21, trouxe a manchete pronta, e a imprensa companheira tratou de repercuti-la: pela primeira vez desde agosto, o medo da volta dos Bolsonaro (44%) teria superado o medo da permanência de Lula (42%). Eis o produto.
Resta visitar a linha de montagem. + Entenda o que é Política em Oeste Comecemos pelos indecisos. Na pergunta espontânea, eram 7% em 14 de outubro.
Sete dias depois, 14%. A quatro dias do segundo turno, quando o natural é que o eleitor vá se decidindo e o contingente dos hesitantes encolha, a Quaest descobriu um Brasil que desaprende a escolher. Dobrar a indecisão em uma semana, numa disputa polarizada há meses, não é um fenômeno sociológico.
Está mais para um milagre estatístico. Diante da falta de contingente eleitoral de onde a candidatura luloalexandrina extrair votos para uma improvável virada, a Quaest dá uma forcinha e inventa artificialmente esse contingente de reserva. Depois, a rejeição.
Segundo o instituto, a de Lula, que oscilava entre 55% e 53% desde setembro, caiu para 47% de uma semana para outra: 6 pontos percentuais! A de Flávio Bolsonaro mal se moveu, de 54% para 52%. Ocorre que nenhum outro instituto enxerga o que a Quaest enxerga.
Meio/Ideia, BTG/Nexus e Datafolha situam a rejeição a Flávio entre 44% e 46,8%, sempre abaixo da de Lula. A Quaest é a única a inverter a ordem, e o faz com folga de cinco pontos. v=KfYXcJV6cCo Platão separava a episteme, o saber sobre o que é, da dóxa, a opinião sobre o que parece.
As pesquisas eleitorais pretendem ser a ciência da doxa. Quando erram sempre para o mesmo lado, porém, deixam de medir a opinião e passam a fabricá-la. O sociólogo americano Robert Merton batizou celebremente esse mecanismo de profecia autorrealizável.
Diga-se ao eleitor que o país teme mais o bolsonarismo do que o lulismo, e talvez ele passe a temer. Elisabeth Noelle-Neumann, fundadora do Instituto de Demoscopia de Allensbach, descreveu a outra face do fenômeno, a que chamou espiral do silêncio: quem se julga em minoria tende a calar-se, e o silêncio de uns amplifica a voz dos outros. Uma pesquisa que encolhe a rejeição de um candidato e infla a do adversário não se limita a medir o clima de opinião.
Ajuda a produzi-lo. Convém saber quem assina o produto. Felipe Nunes, CEO da Quaest, já atuou como colaborador das campanhas petistas de Dilma Rousseff e Fernando Pimentel.
Agora, segundo o portal Metrópoles, mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro mostram que Nunes negociou com o Banco Master uma consultoria de R$ 150 mil mensais por um ano, R$ 1,8 milhão no total. Ele afirma que o contato foi “estritamente técnico”. Técnica também foi, decerto, a última pesquisa do primeiro turno, que dava Lula à frente por 46% a 43,7%, quando as urnas deram a dianteira a Flávio, com 47% dos votos válidos contra 45,2%.
Em suma: uma pesquisa que sai da fábrica com a conclusão embutida diz menos sobre o eleitor que sobre o cliente. O post Demoscopia de encomenda apareceu primeiro em Revista Oeste . ]]>
Resumo publicado pelo SJX NEWS. O conteúdo integral pertence ao veículo de origem.
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