Dívida externa brasileira é impagável?
Vamos primeiro definir o que é dívida externa. Ela é o conjunto de obrigações financeiras de residentes de um país perante credores não residentes, que exigem o pagamento futuro de principal e/ou juros. Essas obrigações podem ser assumidas pelo governo, por bancos, por empresas privadas ou por outras instituições residentes.
+ Leia mais notícias de Economia em Oeste Hoje, devemos US$ 869,5 bilhões, a maior dívida de todos os tempos. Mas, quando comparada ao PIB , essa dívida representa 31,5%, muito diferente da crise de 1984, quando representava 53,8% do PIB e causou uma grande crise. Outra grande diferença entre 1984 e 2026 é a composição da dívida pública.
Ela é proporcionalmente menor e vence mais rápido. Em 1984, a dívida interna representava 40,2% da dívida pública líquida, e a dívida externa, 59,8%. Hoje, a dívida interna representa 87,8%, e a externa, 12,2%.
Em 1984, o Brasil devia o equivalente a 22,3% do PIB e, hoje, superamos 82% do PIB. A maior parte da dívida atual é privada, US$ 554 bilhões, enquanto US$ 315,5 bilhões são do setor público. Mas por que ninguém fala em uma dívida de US$ 869,5 bilhões?
É que US$ 281,6 bilhões são empréstimos intercompanhia. Imagine que a matriz de uma multinacional tenha emprestado dinheiro para sua filial aqui no Brasil, como, por exemplo, Nestlé, GM ou BYD. E os bancos brasileiros devem US$ 116,1 bilhões.
Se somarmos os bancos públicos, essa dívida chega a US$ 161,7 bilhões. Mas o mais preocupante é que o serviço da dívida representa, em média, 20% ao ano, segundo o FMI. Dívida grande em moeda estrangeira gera vulnerabilidade cambial.
Vamos traduzir e entender o nosso momento histórico. Para facilitar, vou colocar os valores em percentuais, para compreendermos o cenário total. v=Adv6kg6fNcY Primeiro, a dívida externa nunca foi tão alta, mas 32,4% da dívida corresponde a empréstimos de matrizes para suas filiais no Brasil.
Se houver um problema cambial, apenas as empresas perdem. Outros 17% correspondem a setores exportadores, em sua grande maioria, mineradoras e empresas do agronegócio. O aumento do dólar também eleva o faturamento, e o único problema seria o fluxo de caixa de cada empresa.
Dessa forma, 49,4% da dívida está no mercado privado, sem grandes desdobramentos macroeconômicos. O maior problema está na outra metade da dívida, nos 50,6%, ou US$ 431,6 bilhões. O governo deve US$ 269,9 bilhões; os bancos públicos, US$ 45,6 bilhões; e os bancos privados, outros US$ 116,1 bilhões.
E aqui mora o grande problema: da dívida que importa, 62,53% são do governo e 37,47%, dos bancos públicos e privados. Vamos unir os pontos. Em uma dívida com renovação de 20% ao ano do seu serviço, isso quer dizer que, a cada cinco anos, tudo é renovado.
Em uma crise cambial, o governo destruiria as suas reservas cambiais em poucos meses, causando uma inflação interna parecida com a da crise de 1984, com o agravante de termos a maior dívida externa bancária da história. Como desdobramento, poderíamos ter uma quebradeira do sistema bancário! Enquanto a primeira metade da dívida afetaria empresas exportadoras e multinacionais, que poderiam resolver seus problemas sem o comprometimento do dinheiro público, o sistema bancário obrigatoriamente seria salvo com o dinheiro do contribuinte.
Hoje, são aproximadamente US$ 161,7 bilhões que, com o câmbio de R$ 5,00, representam um problema de R$ 808,5 bilhões, mais de 13 vezes o tamanho do outro problema: o rombo do Banco Master. A pergunta que deve ser respondida é: por qual motivo os bancos se endividaram tanto em dólares? Essa resposta eu deixo para outro artigo.
Finalizamos dizendo que a dívida externa não representa necessariamente um problema. Ela pode financiar investimentos produtivos, infraestrutura, expansão empresarial e operações comerciais, permitindo que uma economia utilize recursos provenientes da poupança internacional. O problema surge quando o crescimento das obrigações externas supera a capacidade dos devedores de gerar receitas, obter divisas e refinanciar seus compromissos, caso isso aconteça ela se torna impagável!
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