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    ‘É uma tragédia socioeconômica’, diz presidente da Abrasel sobre escala 6×1
    Revista Oeste·26 de out., 08:31

    ‘É uma tragédia socioeconômica’, diz presidente da Abrasel sobre escala 6×1

    O presidente-executivo da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) , Paulo Solmucci, classificou como uma “tragédia socioeconômica” a aprovação da proposta que acaba com a escala 6x1. Em entrevista a Oeste , ele afirmou que a mudança pode elevar os preços, reduzir a oferta de serviços e pressionar empresas que já enfrentam dificuldades financeiras. “Para nós, a aprovação é uma tragédia socioeconômica anunciada”, disse Solmucci.

    Segundo ele, os efeitos não ficarão restritos a bares e restaurantes. Condomínios, escolas privadas, hospitais e empresas que prestam serviços a prefeituras também poderão enfrentar aumento de despesas e dificuldades para organizar as equipes. O Senado aprovou a PEC n° 221/2019 em dois turnos em 14 de outubro, com 75 votos favoráveis e um contrário em cada votação .

    A proposta reduz a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas. A implantação prevê uma etapa inicial de 42 horas semanais, seguida da redução para 40 horas. Presidente executivo da Abrasel, Paulo Solmucci também concorda que demais setores serão impactados pelo fim da escala 6x1 | Foto: Reprodução/Divulgação/Abrasel Para Solmucci, a dificuldade de encontrar profissionais e o custo de manter o funcionamento dos estabelecimentos tornam a transição mais complexa.

    A Abrasel estima que cerca de 15 milhões de trabalhadores com carteira assinada atuam na escala 6x1. Para manter o nível atual de atendimento com um dia adicional de descanso, o país precisaria de mais 3 milhões de profissionais, segundo a entidade. “Vai ser um ‘rouba-monte’”, afirmou o dirigente.

    Na avaliação dele, empresas com maior capacidade financeira poderão contratar funcionários de estabelecimentos menores, que terão maior dificuldade para recompor suas equipes. A disputa por mão de obra, argumentou, pode ampliar as diferenças entre negócios de portes distintos. Abrasel prevê alta de até 10% nos preços A entidade estima que os restaurantes que mantiverem o funcionamento por seis dias na semana terão aumento de 20% nos gastos com a folha salarial.

    Se os estabelecimentos repassarem esse custo integralmente aos consumidores, os preços dos cardápios poderão subir de 7% a 8%. Solmucci afirmou que o reajuste pode chegar a 9% ou 10% quando forem considerados os aumentos cobrados por fornecedores e prestadores de serviços. “Se fosse só o repasse na folha, teríamos aumento de 7% a 8% no cardápio, mas com outros serviços esse preço pode chegar aí até 9%, 10% a mais”, declarou.

    O dirigente argumentou que a alta dos preços reduzirá o poder de compra das famílias e poderá diminuir o consumo. Para ele, o impacto não se limita ao orçamento dos restaurantes: quando empresas de diferentes segmentos enfrentam custos maiores, esses gastos podem chegar ao consumidor por meio de preços mais altos. Solmucci também questionou a promessa de que a mudança garantirá mais tempo livre aos trabalhadores sem comprometer a renda.

    No setor de alimentação, ele destacou o peso das gorjetas na remuneração dos garçons. Segundo o dirigente, essa parcela pode representar cerca de dois terços dos ganhos desses profissionais. Com um dia a menos de trabalho por semana, eles teriam menos oportunidades de receber gorjetas e poderiam procurar outras ocupações para compensar a redução da renda.

    Condomínios, hospitais e escolas também podem sentir os efeitos Solmucci citou outros setores que dependem de trabalhadores para manter o atendimento e a operação ao longo da semana. Leia também: "Fim da escala 6x1: a conta que o populismo não mostra" , artigo de Gustavo Segré, publicado na Edição 345 da Revista Oeste O dirigente também mencionou empresas contratadas por prefeituras. Para esses prestadores, a mudança pode elevar o custo da mão de obra sem que os contratos existentes absorvam automaticamente a despesa adicional.

    A extensão do impacto dependerá das condições de cada atividade e da capacidade de reorganizar as equipes, mas Solmucci avalia que a pressão sobre os custos poderá alcançar diferentes segmentos da economia. O presidente da Abrasel afirmou que o setor de alimentação já trabalha com margens apertadas. De acordo com os números apresentados por ele, 40% dos bares e restaurantes têm lucro, 40% ficam no equilíbrio financeiro e 20% registram prejuízo.

    Nesse cenário, avaliou, muitos estabelecimentos não conseguirão transferir todos os custos adicionais para os clientes. v=CEMWSbf1cEE Para reduzir despesas ou lidar com a falta de funcionários, alguns restaurantes poderão diminuir o horário de funcionamento ou fechar em dias adicionais. Solmucci também ressaltou que a disputa por profissionais pode prejudicar negócios localizados em regiões de menor renda, onde os estabelecimentos têm menos condições de oferecer remunerações mais altas.

    “Quando você olha para todo esse conjunto e para esse impacto, estamos jogando o país numa recessão”, afirmou. A previsão representa a avaliação do dirigente sobre os efeitos econômicos da mudança. Ele também criticou a condução política do debate e declarou: “O que pautou foi o calendário eleitoral, e não o interesse do cidadão”.

    Trabalho por hora é alternativa defendida pela Abrasel Como alternativa à mudança na jornada, Solmucci defendeu a ampliação do trabalho remunerado por hora, com direitos proporcionais e garantias previstas em lei. A proposta, segundo ele, permitiria que os profissionais escolhessem os períodos em que desejam trabalhar e organizassem a rotina de acordo com outras necessidades, como estudar ou cuidar da família. A ideia é oferecer maior flexibilidade para trabalhadores e empregadores, em vez de aplicar uma jornada uniforme a atividades com necessidades diferentes.

    Nesse modelo, a remuneração corresponderia às horas efetivamente trabalhadas, com os direitos trabalhistas definidos de forma proporcional, conforme a proposta defendida pela entidade. Para Solmucci o impacto não se limita ao orçamento dos restaurantes | Foto: GNUMarcelo/Flickr Solmucci argumentou que esse formato pode atender pessoas que precisam conciliar o emprego com outras responsabilidades. Para os estabelecimentos, a contratação por hora também poderia facilitar a composição das equipes nos períodos de maior movimento.

    O dirigente afirmou que esse tipo de trabalho recebe remuneração horária mais alta em alguns países e setores, embora a adoção do modelo no Brasil dependa das regras que vierem a discipliná-lo. A Abrasel propõe que a discussão considere as diferenças entre atividades econômicas e permita mais flexibilidade na organização das jornadas. Para Solmucci, a redução do limite semanal, sem uma oferta suficiente de trabalhadores e sem alternativas de contratação, pode pressionar custos e restringir serviços.

    Por enquanto, a orientação da entidade é que os empresários planejem as mudanças sem tomar decisões precipitadas. Solmucci defendeu a discussão de ajustes, prazos de transição e regras que deem maior flexibilidade à organização do trabalho. Na avaliação dele, o debate precisa considerar tanto as condições dos funcionários quanto a capacidade das empresas de manter empregos, atendimento e atividade econômica.

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