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    Forbes Brasil·24 de out., 08:00

    Eleições 2026: Como as Redes Sociais Influenciam a Percepção dos Eleitores

    Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo. Às 22h10 do domingo passado, enquanto Lula e Flávio Bolsonaro ainda se encaravam no estúdio da Band, o deputado André Janones mandou uma mensagem para o canal “Exército do Lula”, no WhatsApp. Pedia aos seguidores que fossem ao Google e digitassem “Flávio miliciano”.

    Às 22h48, o termo estava entre os mais buscados do país e passava de 500 mil pesquisas, segundo a Agência Bites, em levantamento publicado pelo Poder360. Foram 38 minutos. A própria Bites avisa que não dá para saber quantas dessas buscas vieram do chamado e quantas teriam acontecido de qualquer jeito.

    Acho essa ressalva mais reveladora do que o número. É essa a sensação de acompanhar a eleição de 2026. A gente vê tudo se mexendo, mas já não consegue separar a opinião de alguém daquilo que foi produzido para parecer a opinião de muita gente.

    E isso nunca pesou tanto. Flávio terminou o primeiro turno com 47% dos votos e Lula com 45%. A Quaest divulgada nesta quarta mostra Flávio com 45% e Lula com 44%, empate técnico.

    Com uma diferença dessas, quem vê o quê, e em que momento, deixa de ser detalhe técnico. Virou munição. As duas campanhas entenderam isso, e as duas foram ao TSE contra a mesma empresa.

    A de Lula acusa a Meta de frear seus anúncios e de favorecer o adversário. A de Flávio acusa a mesma Meta de deixar circular anúncios negativos contra ele. Acusar o algoritmo passou a fazer parte da estratégia de campanha.

    Vale olhar a sequência com calma. Em 23 de setembro, a Meta desabilitou a conta de anúncios da campanha de Lula, alegando que “algumas das suas atividades não seguem nossas regras”. Depois admitiu que foi engano.

    Também reconheceu uma falha na Meta AI, que recusava pedidos de imagem com o nome de Lula e aceitava os de Flávio, e atribuiu o problema a um filtro que confundia nome de candidato com número de urna. Em 15 de outubro, o ministro Marco Aurélio Bellizze, do TSE, mandou a plataforma tratar as duas candidaturas de forma igual, sob multa de R$ 500 mil por dia, e o plenário confirmou a ordem por unanimidade. A Meta respondeu com uma nota de título que dispensa interpretação: “A Meta não está interferindo nas eleições brasileiras.

    Estes são os fatos”. No mesmo dia, a campanha de Flávio apresentou a sua queixa. Depois do debate, a de Lula denunciou um novo bloqueio e pediu nada menos que a cassação da chapa adversária, com base em “manipulação algorítmica”.

    Bellizze subiu o teto da multa para R$ 1 milhão por dia. Na resposta ao tribunal, a Meta trouxe um detalhe que me fez parar: até o segundo turno, qualquer restrição automática às contas das duas campanhas vai ser revisada por uma pessoa em até duas horas. A maior empresa de redes sociais do mundo resolveu o problema do próprio algoritmo pondo um ser humano para vigiá-lo.

    Nesta quinta, o Ministério Público Eleitoral entrou na conversa. O parecer diz que a Meta descumpriu cinco das determinações do TSE e cumpriu outras duas só em parte, e afirma que a diferença de comportamento conforme o candidato “reduz a credibilidade da alegação de simples falha aleatória”. No mesmo documento, o MPE pede para rejeitar a perícia da Polícia Federal que a campanha de Lula queria e os recursos apresentados pela de Flávio.

    Uma semana antes, ao dar a liminar, Bellizze tinha registrado que não havia, até ali, “prova de manipulação deliberada de algoritmos”. São duas leituras do mesmo sistema, por duas instituições com acesso aos autos, e nenhuma conclusão até domingo. O que me interessa aqui está menos em quem foi prejudicado e mais nesse buraco.

    Se o TSE e o Ministério Público, com poder para exigir documentos de uma big tech, não conseguem afirmar se foi erro ou intenção, pense no eleitor rolando o feed no ônibus. Para quem está do lado de fora, erro e intenção produzem o mesmo efeito. E cada lado vai contar a versão que lhe convém.

    Os números de engajamento seguem a mesma lógica: cada campanha escolhe o seu. Logo depois do primeiro turno, Flávio ganhou quase três vezes mais seguidores que Lula. Entre 5 e 17 de outubro, Lula somou 110,7 milhões de interações e Flávio, 31,3 milhões, segundo a Bites.

    E as pesquisas continuam empatadas. A consultoria repete o que ninguém quer ouvir: interação não é voto. A campanha de verdade, na rede, quem faz é o batalhão em volta dos candidatos, de Nikolas Ferreira a Janones, mais do que os perfis oficiais.

    No WhatsApp, a conta fica ainda mais estranha. Em julho, a Genial/Quaest perguntou aos eleitores se pretendiam entrar em grupos políticos, e 87% disseram que não. Pode ser verdade e pode não fazer diferença nenhuma.

    O “Exército do Lula” chegou nesta semana a 7 milhões de inscritos. O “Tropa do Flávio”, a cerca de 2 milhões. Os dois funcionaram sem registro na Justiça Eleitoral até a metade do mês.

    Os dois maiores canais da eleição têm nome de força armada, e acho que isso diz mais do que qualquer métrica. O TSE chegou a discutir desligar os canais com mais de 200 mil seguidores nas 48 horas antes da votação e recuou nesta sexta. Segundo o presidente da corte, Kassio Nunes Marques, o assunto pode ficar para 2028.

    Um projeto do IESP-UERJ acompanha eleitores em grupos de WhatsApp montados para pesquisa, divididos de bolsonaristas convictos a lulistas. Num deles, alguém resumiu: “não votar no PT é uma questão de segurança nacional”. Como psicóloga, conheço esse tipo de frase, e ela tem equivalente do outro lado.

    Não traz informação nenhuma. Diz a que grupo a pessoa pertence. O WhatsApp é onde esse pertencimento se reforça, longe de qualquer algoritmo que dê para auditar e quase fora do alcance da fiscalização.

    O TSE fez o que podia. Desde quinta, está proibido publicar conteúdo novo feito com inteligência artificial até 24 horas depois da votação. Mas até domingo nenhuma decisão vai explicar como o feed escolhe o que mostra.

    Sobra o nosso julgamento, que é mais frágil do que gostamos de admitir. A gente tende a acreditar no que vê muita gente acreditando, e o feed e o grupo da família são ótimos em fazer parecer que muita gente acredita. Meu critério anda simples: quando algo chega rápido demais e encaixa perfeitamente no que eu já penso, é aí que desconfio, venha de que lado vier.

    Pergunto quem quer que eu veja aquilo agora. E procuro o dado original antes de repassar. Escrevo nesta coluna sobre tecnologia no trabalho, e a pergunta vale lá dentro também.

    Quantas decisões nas empresas são tomadas porque um painel de engajamento mostrou um pico que ninguém se perguntou de onde veio? Entre 22h10 e 22h48 do domingo passado, gente digitou a mesma coisa no Google mais de meio milhão de vezes. Alguns por convicção, outros porque alguém pediu, outros por pura curiosidade.

    Nenhum sistema sabe dizer quais. Neste domingo, na cabine, cada eleitor vai estar sozinho. É o único lugar desta eleição onde não tem feed.

    Iona Szkurnik é fundadora e CEO da Education Journey, plataforma de educação corporativa que usa Inteligência Artificial para uma experiência de aprendizagem personalizada. Com mestrado em Educação e Tecnologia pela Universidade de Stanford, Iona integrou o time de criação da primeira plataforma de educação online da universidade.  Iona é também cofundadora da Brazil at Silicon Valley, fellow da Fundação Lemann, mentora de mulheres e investidora-anjo.

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