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    InvestNews·31 de out., 14:47

    Eleições no Brasil e em outros países mostram enfraquecimento global do trumpismo

    Os brasileiros pegaram o mercado no contrapé no domingo passado e se uniram em torno do veterano presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva, que conquistou um quarto mandato. Ao fazer isso, os eleitores não só rejeitaram o candidato de direita Flávio Bolsonaro, como também desafiaram a investida de Trump para afirmar o domínio dos EUA sobre a América Latina. Lula fez campanha em torno da soberania, dizendo que o Brasil “não era quintal de ninguém”.

    Essa foi mais uma de várias eleições recentes perdidas por aliados internacionais de Trump. E serve como indício de uma guinada para longe do trumpismo global. Numa cúpula em Montreal nesta semana, a União Europeia e o Canadá se comprometeram a aprofundar os laços em áreas que vão de defesa e segurança a educação, numa demonstração da estratégia de “potência média” do primeiro-ministro Mark Carney.

    Ao exaltar valores comuns como “democracia, respeito pela ordem internacional baseada em regras e compromisso com o comércio livre e justo”, o texto da UE soou como uma tentativa de provocar Trump na véspera do teste eleitoral de 3 de novembro. Líderes estrangeiros, compreensivelmente, evitam dar opinião sobre as eleições americanas, compartilhem ou não o manual de Trump. “Não é segredo que o governo Trump tem dado trabalho”, disse Dino Djalal, ex-embaixador da Indonésia nos EUA.

    Ele previu “um reequilíbrio da política americana” como resultado dos ganhos projetados dos democratas, o que ajudaria a aliviar as tensões internacionais e o que chamou de “clima de medo” nas relações bilaterais sob Trump. Governos asiáticos estiveram entre os primeiros a assinar acordos comerciais com os EUA para reduzir tarifas, muitas vezes com pacotes de investimento vultosos. Não passou despercebido às autoridades americanas que poucos desses acordos, se é que algum, foram ratificados, o que permite aos governos tentar empurrar o tempo caso Trump saia enfraquecido.

    Outros simplesmente esperam que as eleições tragam algum alívio. Entre eles está a África do Sul, alvo de críticas de Trump e excluída das reuniões do G20 sediadas neste ano pelos EUA, embora seja membro permanente desde a criação do grupo, em 1999. Ryan Smith, parlamentar sul-africano e porta-voz de relações exteriores da Aliança Democrática, segundo maior partido da coalizão governista, não espera que uma derrota republicana “abra uma oportunidade para as relações esquentarem”.

    Mas ela “pode voltar a atenção do governo para dentro” e, assim, ajudar a “tirar um pouco o foco de cima de nós”, disse. Em outra rejeição ao populismo alinhado ao MAGA, o líder sérvio Aleksandar Vucic, cujas relações incluem Donald Trump Jr. e o genro do presidente, Jared Kushner, foi apeado do poder sem cerimônia (e sem que ninguém esperasse) no fim de semana passado por eleitores cansados de seus longos anos no cargo.

    Em seu lugar, elegeram um grupo liderado por estudantes, que capitalizou a indignação popular com a corrupção nas instituições. ”, perguntou a revista alemã Der Spiegel, ligando a queda de Vucic à de seu colega, também amigo da Rússia, Viktor Orban, da Hungria. Orban, figura saudada nos círculos MAGA por sua versão autoproclamada de democracia iliberal e por suas provocações à União Europeia, foi derrotado por goleada em abril pelo candidato pró-UE Peter Magyar.

    No Reino Unido, o Reform, partido populista e anti-UE do velho aliado de Trump Nigel Farage, cedeu a liderança das pesquisas ao Partido Trabalhista do primeiro-ministro Andy Burnham, que prometeu se aproximar do bloco de 27 países, inclusive com a possibilidade de reverter o Brexit. O referendo do Brexit, em junho de 2016, no qual Farage teve papel decisivo, foi o primeiro grande marco de um arco do populismo que levou à eleição de Trump cinco meses depois.   Está em jogo um terço do Senado e as 435 cadeiras da Câmara.

    As pesquisas indicam que o Partido Republicano vai perder o controle de pelo menos uma das casas do Congresso.   Por cima de tudo isso paira a questão do custo de vida, o martelo que ameaça rachar a base de Trump nos EUA. O custo de vida foi a principal preocupação numa pesquisa on-line com mais de 60 mil pessoas em 32 países, feita para o Future Investment Initiative Institute, com sede em Riad.

    A imigração, bandeira emblemática de Trump, ficou em sexto lugar, empatada com o aquecimento global, segundo a pesquisa FII Priority Compass, divulgada em 28 de outubro. Mesmo que o mundo de fato tenha passado do auge do trumpismo, porém, há provas de sobra de que esses valores seguem atraentes, seja qual for o resultado da votação de terça-feira. Lula é praticamente o último líder sul-americano a resistir à chamada Doutrina Donroe, de Trump.

    Na Austrália, o partido One Nation, de Pauline Hanson, ganhou popularidade com políticas ao estilo Trump, como o negacionismo climático e a oposição à imigração. O partido de extrema direita alemão AfD, apoiado pelo vice-presidente americano JD Vance e por Elon Musk, tem a força do momento, e, a seis meses da eleição na França, a defensora histórica da linha anti-imigração Marine Le Pen tem sua melhor chance de vencer a Presidência na quarta tentativa. Benjamin Netanyahu continua no comando de Israel depois de alardear sua proximidade com Trump na campanha.

    Apesar de toda a turbulência internacional dos últimos dois anos, as relações entre os EUA e seu principal rival global, a China, se estabilizaram. O presidente Xi Jinping deve receber Trump numa cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec) em Shenzhen em meados de novembro e depois viajar aos EUA para o G20 em dezembro, após dois encontros anteriores neste ano. Mas a concorrência nunca está longe.

    A Bloomberg Intelligence prevê que a China liderará o mundo em oito de 17 tecnologias estratégicas até 2030, entre elas os grandes modelos de linguagem que são o núcleo da IA. A China e o resto do mundo têm uma forma mais imediata de pressão para contrapor qualquer perturbação presidencial após as eleições: as compras de dívida americana. Uma análise da Bloomberg com dados do Tesouro e do Departamento de Estado dos EUA constatou que aliados americanos, entre eles Japão e Coreia do Sul, compraram nos primeiros oito meses de 2026 o menor volume de Treasuries em cinco anos.

    Numa viagem à Ásia nesta semana, o chanceler alemão Friedrich Merz alertou para “a erosão de uma ordem internacional” em curso. Qualquer que seja a natureza da “nova era geopolítica” que ele vê pela frente, Merz não achou por bem mencionar o papel de Washington nela: citou a China e Pequim 15 vezes sem se referir uma única vez aos EUA ou a Trump. ]]>

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