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    InvestNews·01 de nov., 15:08

    Eles venderam tudo para morar num navio de cruzeiro. Agora estão presos no Camboja

    Era para ser a viagem de uma vida. Por a partir de US$ 100 mil, os passageiros do Odyssey, um navio de cruzeiro de 196 metros, compraram cabines e embarcaram no que esperavam ser uma volta ao mundo de vários anos. Agora, muitos estão presos numa cidade portuária do Camboja depois que a dona do navio encerrou a viagem de uma hora para outra, culpando a alta do combustível.

    O Odyssey, da Villa Vie Residences, empresa sediada na Flórida, zarpou de Belfast, na Irlanda do Norte, em outubro de 2024 e passou por mais de 60 países. Os passageiros, muitos deles aposentados americanos e profissionais remotos, desfrutavam de piscina, quadra de pickleball, teatro, vários bares e uma academia com aulas de ioga e outras atividades. Um médico e duas enfermeiras estavam entre os 150 tripulantes.

    Leia também Economia Guerra no Irã faz aluguel de superpetroleiros subir mais de seis vezes em nove meses Mas a guerra no Irã fez o preço do combustível marítimo disparar, e o navio passou a ter dificuldade para pagar, e às vezes até para conseguir, combustível suficiente, disse o comandante do Odyssey num documentário alemão exibido em agosto. Então, na segunda-feira de manhã, os passageiros acordaram com uma mensagem da presidente-executiva da Villa Vie, Kathy Villalba. “ Infelizmente, não conseguimos garantir o combustível necessário para continuar as operações”, dizia a mensagem, segundo um post no blog de Randy Cassingham, passageiro que escreve sobre a vida no Odyssey.

    ” A mensagem dava aos passageiros até as 14h para deixar o navio em Sihanoukville, cidade portuária cambojana conhecida pelos cassinos e pela indústria de golpes on-line. Em comunicado, Long Dimanche, vice-governador da província de Sihanoukville, disse que “ser obrigado a desembarcar de forma tão abrupta deixou muitos aposentados e trabalhadores, na prática, sem casa, a milhares de quilômetros de seus países”. Ele acrescentou que parte dos 203 passageiros já voltou para casa, mas outros continuam na cidade.

    A Villa Vie e Cassingham não responderam aos pedidos de comentário na quarta-feira. Villalba e Mikael Petterson, fundador e presidente executivo do conselho da Villa Vie, não foram localizados. Johan Bodin, carpinteiro nascido na Suécia que morava no Odyssey com a namorada americana, Lanette Canen, publicava atualizações regulares no YouTube sobre os dois anos a bordo.

    O casal, na casa dos 50 anos, contou nos vídeos que vendeu sua locadora de carros em Maui, no Havaí, e pagou US$ 100 mil por uma cabine de 13 metros quadrados no Odyssey. O preço do que a Villa Vie anunciava como “residência permanente” aumentou depois. Uma taxa mensal de manutenção de US$ 3,5 mil cobria os serviços a bordo, incluindo três refeições por dia, lavanderia duas vezes por semana, Wi-Fi, arrumação e duas bebidas alcoólicas no almoço e no jantar, disseram Bodin e Canen.

    “Então estamos gastando bem menos do que gastávamos em Maui”, disse Canen, sorrindo, num vídeo postado em fevereiro, com o bar do Odyssey ao fundo. Bodin disse que a Villa Vie havia garantido ao menos 15 a 20 anos de navegação para os passageiros residentes do Odyssey. Outros tinham comprado cabines por períodos mais curtos.

    A vida a bordo, porém, nem sempre foi tranquila. A partida inicial de Belfast atrasou vários meses por causa de reparos no navio. Embora a Villa Vie tenha dito em 2024 que o Odyssey estava “85% vendido”, vários passageiros afirmaram em redes sociais que ele nunca chegou perto da lotação máxima, de 650 passageiros.

    Depois, o preço do combustível marítimo disparou por causa da guerra. Pediu-se aos passageiros um pagamento único de US$ 6 mil para continuar navegando, segundo o documentário alemão. 999 em ocupação dupla, conforme seu site.

    Num vídeo publicado na terça-feira, Bodin disse que os últimos dois meses foram frustrantes, com a incerteza sobre o futuro do navio causando divisões entre os passageiros. Em seu blog, “Residential Cruising”, Cassingham disse que o número de passageiros caiu para cerca de 200, de 350 no auge. Em comunicado na terça-feira, a Villa Vie disse que a despesa mensal com combustível subiu para algo entre US$ 6 mil e US$ 8 mil por cabine, ante cerca de US$ 1,8 mil.

    “A empresa não pode simplesmente repassar aos residentes aumentos dessa escala, e o descompasso resultante colocou seu atual modelo de operação sob uma pressão financeira insustentável”, disse, acrescentando que trabalha com os residentes para “identificar acomodações temporárias”. A empresa disse que vai usar os próximos 60 dias para tentar resolver seus problemas financeiros, mas que “nenhum resultado está garantido”. Cassingham disse num post na quarta-feira que ele e outros passageiros não receberam nenhum apoio da Villa Vie para encontrar ou pagar hotéis.

    “Alguns estão em estado de choque porque gastaram a maior parte das economias para estar aqui e não sabem como nem onde vão viver”, escreveu. Um porta-voz do Departamento de Estado disse que trabalha com as autoridades do Camboja para apoiar os cidadãos americanos afetados. Cassingham, que navegou no Odyssey com a mulher, Kit, disse que, apesar da incerteza e da frustração, o casal não se arrepende da vida no mar.

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