SJX NEWS

    revistaoeste.com

    Revista Oeste

    SJXNEWS
    Entenda como as canetas emagrecedoras mudaram o tratamento da obesidade
    Revista Oeste·23 de set., 00:30

    Entenda como as canetas emagrecedoras mudaram o tratamento da obesidade

    A obesidade atingiu 25,7% dos adultos das capitais brasileiras e do Distrito Federal em 2024, mais que o dobro dos 11,8% registrados em 2006. Os dados, divulgados pelo Ministério da Saúde em julho deste ano, ajudam a dimensionar o mercado que transformou medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro em protagonistas de uma mudança no tratamento da doença — e abriu espaço para uma cadeia paralela de produtos sem registro, manipulados irregularmente e até substâncias que ainda estão em fase de pesquisa. Para o médico endocrinologista José Eduardo Salles, os dois fenômenos precisam ser separados.

    De um lado estão medicamentos aprovados, prescritos e acompanhados por médicos. Do outro, produtos de procedência desconhecida, canetas trazidas irregularmente do exterior e moléculas experimentais oferecidas a consumidores antes de receber autorização das agências reguladoras. “O remédio funciona”, ressaltou o médico.

    ” Essa avaliação encontra respaldo em artigos científicos de grande porte, embora os resultados variem conforme o medicamento e o perfil dos pacientes. 604 pessoas com sobrepeso ou obesidade, doença cardiovascular preexistente e sem diabetes, um evento cardiovascular grave (morte cardiovascular, infarto não fatal ou AVC não fatal) ocorreu em 6,5% dos participantes tratados com semaglutida, princípio ativo de medicamentos como Ozempic e Wegovy, e em 8% daqueles que receberam placebo, substância sem o princípio ativo usada para comparação. A redução relativa do risco foi de 20%.

    O acompanhamento médio foi de aproximadamente 40 meses. Foto: Shutterstock A redução de eventos cardiovasculares observada nos estudos é um dos argumentos citados por Salles ao defender os benefícios das canetas. “Reduziu morte, reduziu AVC, reduziu infarto”, acrescentou o endocrinologista, ao explicar que parte dessa proteção ocorre como consequência da perda de peso, enquanto outra estaria relacionada diretamente à ação do medicamento no organismo.

    Os medicamentos, contudo, não são isentos de efeitos adversos e têm indicações específicas. No SELECT, por exemplo, 16,6% dos participantes que receberam semaglutida interromperam permanentemente o tratamento em razão de eventos adversos, ante 8,2% no grupo placebo. Uma história que começou antes do Ozempic Salles lembrou que a história dos medicamentos baseados no GLP-1 remonta à década de 1980.

    O primeiro remédio dessa família chegou ao mercado em 2005. De lá para cá, novas moléculas e formulações aumentaram a duração do efeito e, posteriormente, a capacidade de promover perda de peso. “Estamos falando de 21 anos de pesquisa, de 21 anos de segurança”, afirmou.

    Os primeiros estudos tinham como alvo principalmente o diabetes. O salto ocorreu quando os medicamentos começaram a ser testados especificamente contra a obesidade. “Os estudos desenhados para obesidade começaram a mostrar reduções em perda de peso que nunca tínhamos visto”, disse Salles.

    Embalagem do medicamento Wegovy | Foto: Shutterstock O mercado brasileiro entrou em uma nova etapa em 2026, com a expiração da patente da semaglutida e a entrada de novos produtos. A substância ficou conhecida sobretudo por causa do Ozempic, indicado para diabetes tipo 2, mas também está presente em medicamentos destinados ao controle do peso. Salles trata dos benefícios comprovados e dos riscos associados ao uso irregular das canetas no Conversa com Augusto Nunes desta terça-feira, 22.

    v=980mDkpfLGI O outro lado da febre A expansão dos medicamentos veio acompanhada de um mercado que preocupa as autoridades sanitárias. Em abril, a Polícia Federal e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deflagraram a Operação Heavy Pen em 12 Estados. Foram cumpridos 45 mandados de busca e apreensão.

    Em uma importadora da Região Metropolitana de São Paulo, os agentes identificaram movimentações consideradas suspeitas de R$ 4,8 milhões e 3,5 quilos de tirzepatida — quantidade que, segundo a Anvisa, seria suficiente para produzir mais de 1 milhão de dispositivos injetáveis. A fiscalização encontrou ainda mais de 17 mil frascos de tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, manipulados irregularmente, além de 509 gramas do insumo farmacêutico ativo. Em 11 inspeções realizadas pela Anvisa em farmácias de manipulação e importadoras neste ano, oito estabelecimentos sofreram interdição por problemas técnicos e falhas de controle de qualidade.

    Embalagem do medicamento Ozempic | Foto: Shutterstock Entre os problemas encontrados pelas autoridades estão falhas de esterilidade, risco de contaminação microbiológica, armazenamento inadequado, quebra da cadeia de refrigeração e uso de matérias-primas sem origem ou composição devidamente identificadas. É esse mercado que provoca as críticas de Salles. Indagado se o problema se restringia às canetas clandestinas ou se alcançava também produtos paraguaios sem registro no Brasil, respondeu sem hesitar.

    “As duas são ruins”, ressaltou. A legislação brasileira exige registro próprio. Na quarta-feira 16, a Anvisa proibiu a importação, o armazenamento, a distribuição, a propaganda, a venda e o uso da T36, uma caneta de GLP-1 sem registro no país.

    De acordo com a agência, produtos comprados fora dos canais regulares não oferecem garantia de procedência, composição nem conservação. Medicamento em fase de testes Há uma etapa ainda mais arriscada nesse mercado: a venda de substâncias que sequer concluíram o percurso necessário para chegar às farmácias. A retatrutida é uma delas.

    Desenvolvida pela Eli Lilly, a substância ainda é experimental e atua simultaneamente em três hormônios envolvidos no controle do apetite, da glicose e do metabolismo: GLP-1, GIP e glucagon. Estudos de fase 3 divulgados neste ano mostraram resultados expressivos de perda de peso, mas o medicamento ainda não foi aprovado para comercialização. Mesmo assim, a substância já apareceu no mercado brasileiro.

    Na Operação Heavy Pen, a Anvisa encontrou retatrutida em Goiás e identificou notas fiscais referentes à molécula em empresas de São Paulo. A agência também informou neste mês que sites vinham anunciando produtos que alegavam conter retatrutida, apesar de a substância ainda não possuir registro em nenhum país. Foto: Shutterstock Salles conhece o problema de perto.

    O médico participa de pesquisas clínicas e relatou à Revista Oeste que a retatrutida continua sob avaliação de eficácia, dosagem e segurança. “Não pode ser usada no Brasil”, disse. ” Conforme ensinou o endocrinologista, o processo de pesquisa permite identificar problemas antes que um medicamento chegue ao público.

    Por isso, Salles vê com preocupação a corrida para consumir a próxima geração de medicamentos antes que os próprios estudos estejam concluídos. “As pessoas vão usando remédio que não é aprovado, remédio que não é estudado ainda, que não tem certeza da segurança”, disse. A diferença entre esses produtos ficou mais importante à medida que as canetas ganharam espaço.

    Em uma ponta estão medicamentos registrados, submetidos a ensaios clínicos e à fiscalização sanitária. Na outra, autoridades brasileiras já encontraram insumos sem origem identificada, produtos manipulados irregularmente e até uma molécula experimental circulando comercialmente. Para Salles, colocar tudo sob o mesmo rótulo de “caneta emagrecedora” acaba escondendo a informação mais importante para o paciente: o que há dentro da caneta e de onde veio.

    v=_EO0BxkZXrY O post Entenda como as canetas emagrecedoras mudaram o tratamento da obesidade apareceu primeiro em Revista Oeste . ]]>

    Resumo publicado pelo SJX NEWS. O conteúdo integral pertence ao veículo de origem.

    Leia a matéria completa em Revista Oeste