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    Falta de fé ou preconceito? O que a psicologia descobriu sobre a religiosidade de quem vive nas ruas e usa drogas
    CNN Brasil·27 de out., 00:21

    Falta de fé ou preconceito? O que a psicologia descobriu sobre a religiosidade de quem vive nas ruas e usa drogas

    Um estudo conduzido pela Unifesp e pelo Instituto de Psicologia da USP desmistificou a ideia de que a dependência química em populações vulneráveis decorre da “falta de Deus”. Publicada na revista científica Nursing & Health Sciences, a pesquisa investigou a relação entre espiritualidade e o transtorno por uso de substâncias (TSU) por meio de entrevistas com 40 pessoas em situação de rua no Brasil e em Portugal. Os resultados revelaram que a religiosidade permaneceu viva durante o período de consumo e, frequentemente, se intensificou como uma ferramenta de amparo e sobrevivência.

    A investigação identificou que muitos entrevistados desenvolvem o que a psicóloga Camila Chagas denomina de “proteção subjetiva”: a crença profunda de que uma divindade os protege ativamente contra overdoses ou infecções. Leia Mais Vídeo: adolescente de 14 anos é agredido por PM em Santa Catarina Shamonda: o que se sabe sobre vírus que infectou homem na França Pesquisa da FMUSP encontra fentanil em 32% dos usuários de drogas de São Paulo Embora traga alívio emocional, essa percepção pode se tornar um fator de risco quando leva à negligência de cuidados básicos de saúde. Além disso, a maioria relatou desconforto e sensação de rejeição em igrejas e cultos tradicionais devido ao estigma associado às drogas e à condição de rua .

    Pluralidade religiosa e o contraste entre as políticas de drogas do Brasil e de Portugal A escolha dos dois países levou em consideração suas raízes religiosas e modelos opostos de políticas públicas na área de drogas. Enquanto Portugal é predominantemente católico (81%), o Brasil apresenta maior pluralidade, com 50% de católicos e um crescimento expressivo de cristãos evangélicos (31%). No campo regulatório, Portugal ocupa o 3º lugar no Índice Global de Políticas sobre Drogas por descriminalizar o consumo e investir em estratégias de redução de danos.

    Em contrapartida, o Brasil figura em 30º lugar , mantendo a criminalização e apostando em comunidades terapêuticas focadas na abstinência total, método criticado pela pesquisadora devido à ineficácia científica comprovada, além dos riscos à saúde física e mental e das altas taxas de recaída. Brasil versus Portugal: como a religião e os modelos de tratamento impactam a recuperação O estudo comparou as realidades dos dois países e revelou dinâmicas distintas: no Brasil, a maioria dos entrevistados era evangélica (40%) e passava por comunidades terapêuticas focadas na abstinência total, acumulando sentimentos de culpa e falha pessoal diante de recaídas. Em Portugal, prevaleceram católicos (50%) e pessoas sem religião (40%), inseridos em modelos de redução de danos e com postura mais crítica em relação às instituições.

    A análise genealógica dos participantes mostrou ainda que o consumo severo está enraizado em históricos familiares de traumas e violência desde a infância. Igrejas sem paredes e políticas públicas: caminhos para o acolhimento sem dogmas Como alternativa ao afastamento dos templos convencionais , a pesquisa destaca iniciativas internacionais como as “igrejas sem paredes”, estruturas montadas ao ar livre no México e nos EUA que realizam cultos sem julgamentos morais. Ao comprovar que a espiritualidade já integra o cotidiano dessa população , o estudo conclui que a assistência social e a saúde pública não precisam impor visões dogmáticas, mas sim desmantelar preconceitos para oferecer redes de apoio humanizadas.

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