Famílias ainda buscam por desaparecidos após terremoto na Venezuela
O ruído estridente do maquinário pesado ressoa com força entre os escombros, abafando qualquer outro som. O calor do meio-dia é sufocante, ainda mais para Eilyn Solano, que está há mais de 100 dias abrigada em uma tenda. Mas ela suporta todo o desconforto com a esperança de alcançar seu objetivo: encontrar Jhoniel José Morales, seu filho de 11 anos, que desapareceu após o desabamento de uma das estruturas de habitação social do governo da Venezuela na sequência do duplo terremoto que abalou o país em 24 de junho.
Leia Mais Correspondente da CNN mostra região mais afetada por tremores na Venezuela Venezuelano de 12 anos é resgatado de escombros dias após terremotos Venezuela sob escombros: Entenda a situação do país após terremotos Eilyn não saiu do local nem por um único dia. Ela come e dorme naquela pequena tenda, montada a poucos metros de onde as lajes caíram. De lá, ela mantém um controle rigoroso da contagem dos corpos recuperados naquelas torres residenciais, convencida de que Jhoniel, seu filho mais novo, ainda está ali — tendo ela mesma verificado, pessoalmente, os nomes de cada vítima resgatada.
509 vítimas fatais. A CNN consultou o governo sobre um número oficial de desaparecidos , mas não obteve resposta. Enquanto isso, os moradores das áreas devastadas denunciam a falta de informações detalhadas e passaram a realizar sua própria contagem.
Na avaliação de Eilyn, os trabalhos de busca continuaram graças à solidariedade dos vizinhos e à logística dos próprios familiares, que providenciam água, gelo e eletrólitos para os bombeiros e militares. Nessa busca desesperada, a própria família Solano — composta por cerca de dez pessoas, entre irmãs, cônjuges e parentes próximos — entrou em túneis e inspecionou as fendas do edifício. Dessa forma, conseguiram resgatar os corpos de mais de 17 pessoas.
É justamente na área onde a torre se partiu e desabou sobre a quadra esportiva — segundo relatam Eilyn e sua irmã Chiquinquirá — que se concentram mais de três meses de incerteza. Jhoniel Morales aparece em uma gravação de câmera de segurança descendo as escadas às 15h59 (horário local) do dia 24 de junho, poucas horas antes do terremoto. María Yailén, de 15 anos, irmã mais velha de Jhoniel, conseguiu sobreviver.
Mas a segunda filha de Eilyn, Mariangel, de 12 anos, não teve a mesma sorte. Seu corpo foi encontrado no terceiro andar, logo na saída do apartamento de sua avó, que cuidava dela naquele dia. A avó foi resgatada com vida horas mais tarde.
No dia 26 de setembro, enquanto o maquinário pesado permanecia em operação na área da quadra onde supunham que Jhoniel tivesse ido brincar, o olhar de sua tia e de sua mãe acompanhava cada movimento das máquinas, em um cenário marcado pela dor e pelo desespero. No entanto, aquela tarde, que acreditavam ser decisiva, terminou sem que se encontrasse qualquer vestígio do menino. “Nem perto da quadra, nem na entrada, e muito menos nos corredores”, afirmou Chiquinquirá Solano.
O que encontraram, contudo, foi a sala de controle das câmeras e, nela, um disco contendo um segundo vídeo no qual, de acordo com a família, é possível ver o menino saindo do prédio poucos minutos antes do terremoto. “Em meio a todas as possibilidades, existe um fio de esperança; por isso, continuamos as buscas até o fim, até obtermos algum tipo de resposta sobre o paradeiro do menino”, afirma a tia de Jhoniel. A família relata que, desde o primeiro dia, percorreu hospitais, abrigos e o necrotério; Eilyn chegou, inclusive, a ir a Caracas para formalizar a denúncia de desaparecimento junto ao Ministério Público.
Após a confirmação, por meio de um segundo vídeo, de que a criança havia saído do prédio, decidiram iniciar uma nova etapa de buscas em ruas, centros de acolhimento e cemitérios — como o “La Esperanza”, em Catia la Mar, que conta com uma área destinada a pessoas sepultadas sem identificação. A família Solano sobreviveu ao deslizamento de terra em Vargas, em 1999 — uma tragédia que deixou milhares de mortos. Por isso, definem-se como uma família resiliente, que se recusa a desistir sem encontrar a criança.
Com o apoio de parentes, amigos e voluntários em motocicletas, organizaram uma rede de busca para percorrer, de moto, centros de atendimento, necrotérios e abrigos entre La Guaira e Caracas. Ao mesmo tempo, fazem um apelo às autoridades e à sociedade para que continuem divulgando a imagem de Jhoniel e forneçam qualquer informação que possa ser útil para encontrá-lo. Muitas famílias ainda buscam os seus Em alguns terrenos de La Guaira, onde dezenas de edifícios desabaram após os dois sismos, hoje restam apenas o vazio e o silêncio.
Contudo, em várias áreas, a remoção de escombros estruturais continua sendo um desafio pendente. No local, observa-se agora uma presença militar mais expressiva dedicada à retirada de entulhos — um cenário que contrasta com os relatos de diversas testemunhas nas primeiras horas da tragédia, as quais afirmaram que não havia autoridades presentes, embora o governo da presidente interina, Delcy Rodríguez , tenha defendido a atuação das equipes de resgate. Em meio às ruínas, vários estabelecimentos comerciais funcionam para atender à população local, superando a falta de visitantes, enquanto algumas escolas retomaram as aulas.
No entanto, para muitas famílias, a busca por seus entes queridos desaparecidos no dia 24 de junho continua sendo a única prioridade, dia e noite. É o caso dos familiares no Residencias Caribe, que elaboraram um quadro informativo manual com o apoio dos Bombeiros de Mérida e de grupos de voluntários, mantendo um registro estimado dos moradores que permanecem sob o concreto. No local, Nayibe Geromes procura por sua mãe, Leida Mata, com quem falou pela última vez ao meio-dia de 24 de junho, cerca de seis horas antes do terremoto.
Com os dois subsolos inundados por água do mar e a estrutura interna destruída, Nayibe encara a dura realidade das probabilidades após todo esse tempo decorrido: “A esta altura, não espero encontrar um corpo inteiro, mas sim uma ossada”. No entanto, ela ressalta que, enquanto não houver restos mortais, a condição legal e humana permanece. “Enquanto não houver um corpo, não há um falecido”, afirma.
Ao seu lado, Angie Valentina Sojo Andarcia, moradora do apartamento 205, procura pelo marido. Na tarde do terremoto, Angie estava em Caracas, em uma consulta médica com a filha, enquanto conversava por telefone com o marido, de 50 anos. Durante a ligação, ela ouviu o estrondo de vidros se quebrando, antes de a linha cair definitivamente.
Recentemente, ela conseguiu que uma fundação de voluntários removesse os escombros até chegar à área onde ficava a cozinha de sua residência. Além disso, providenciou a vinda de um irmão de seu marido, vindo do estado de Táchira, para a realização de exames de DNA no necrotério, a fim de identificar eventuais restos mortais — o que, até o momento, ainda não aconteceu. Angie afirma desconhecer a existência de canais oficiais para registrar casos de pessoas desaparecidas.
Denúncias que persistem diante da incerteza Em resposta a uma consulta da CNN , a Defensoria do Povo explicou, por meio de um comunicado, que mantém diversos canais abertos para receber denúncias sobre pessoas desaparecidas, com o objetivo de identificar possíveis violações de direitos fundamentais, bem como orientar e oferecer acompanhamento jurídico aos familiares. Informaram também que mantêm vários canais de atendimento, tanto por telefone quanto presencialmente, e que equipes estiveram em campo, em contato com vítimas e familiares nas áreas afetadas e em cerca de 17 centros e acampamentos provisórios. Além disso, relataram ter recebido e trabalhado em mais de 100 casos — envolvendo denúncias ou pedidos de orientação — relacionados a supostas violações de direitos.
Nesse sentido, destacaram que mantêm comunicação com as autoridades de busca e resgate, bem como com outros órgãos, para acompanhar o desdobramento desses casos. Quanto aos casos de crianças e jovens menores de idade dados como desaparecidos — os quais afirmam ter processado integralmente —, informaram que as investigações foram concluídas com a localização de seus corpos sob os escombros. Questionamentos aos protocolos de manejo e identificação de cadáveres O coordenador da área jurídica da organização não governamental de defesa dos direitos humanos Cofavic, Ronnie Boquier, disse à CNN que o cenário no estado de La Guaira, após o terremoto, tem sido marcado por um padrão sistemático de “opacidade informativa, violação dos direitos das vítimas e falhas graves na execução de protocolos internacionais de identificação e manejo de corpos”.
A CNN entrou em contato com a Procuradoria-Geral da República, o Ministério do Poder Popular para Relações Interiores, Justiça e Paz, o Serviço Nacional de Medicina e Ciências Forenses (Senamecf) e o Corpo de Investigações Científicas, Penais e Criminalísticas (a polícia científica) para saber qual protocolo foi aplicado nos casos de pessoas dadas como desaparecidas, bem como para obter uma resposta sobre as denúncias. Boquier explicou que, embora os relatórios oficiais tenham parado no dia 24 de agosto, estimativas independentes e internacionais situam o número potencial de vítimas fatais entre 10 mil e 20 mil. Até o momento, a Cofavic recebeu várias denúncias de famílias e, em pelo menos cinco casos, a organização afirma ter detectado falhas críticas na cadeia de custódia nos silos de La Guaira, onde funciona um necrotério improvisado em razão da tragédia.
O padrão documentado pela ONG descreve como os familiares foram submetidos a processos massivos de reconhecimento visual, por meio da análise de 400 a 600 fotografias digitais de cadáveres em avançado estado de decomposição, sem qualquer acompanhamento técnico ou psicológico. Após a atribuição de um código, ao inspecionarem os sacos correspondentes, os restos mortais — nos casos denunciados — não coincidiam com os de seus entes queridos, segundo as denúncias. Diante dessa situação, há uma profunda preocupação entre os familiares com a possibilidade de que alguns corpos tenham sido entregues erroneamente a outras famílias e, posteriormente, cremados.
“O Estado tem os meios — ou deveria ter — e, se não os tem, precisa fazer todo o possível para buscar recursos, ajuda internacional, tudo o que for tecnicamente necessário para poder dar uma resposta”, afirmou Boquier. Enquanto isso, o ruído de maquinário pesado continua predominando nas áreas mais afetadas de La Guaira, apagando os vestígios da tragédia, ao passo que as famílias prosseguem com suas buscas, em meio à confusão e à incerteza. Veja os 10 terremotos mais mortais da América Latina ]]>
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