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    Fernando Henning Vê Na IA Uma Nova Fronteira Para o Mercado Sementeiro de R$ 38 bilhões
    Forbes Brasil·17 de set., 08:00

    Fernando Henning Vê Na IA Uma Nova Fronteira Para o Mercado Sementeiro de R$ 38 bilhões

    Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo. ” A definição do pesquisador da Embrapa Soja e presidente da Associação Brasileira de Tecnologia de Sementes (Abrates), Fernando Henning, resume a transformação silenciosa vivida por um dos mercados mais estratégicos do agronegócio brasileiro. Morando no Paraná, Henning fez uma parada estratégica em São Paulo, para conversar com a Forbes Agro antes da 23ª edição do Congresso Brasileiro de Sementes, realizado no final do mês passado, em Foz do Iguaçu.

    Para ele, muito antes de chegar às lavouras, uma semente concentra anos de pesquisa, melhoramento genético, biotecnologia, controle de qualidade e, cada vez mais, inteligência artificial (IA). Esse conjunto de tecnologias sustenta um setor que movimenta, em média, R$ 38 bilhões por ano no País . Apenas na soja, a taxa de utilização de sementes oficiais gira em torno de 80%, enquanto o mercado informal ainda responde por aproximadamente 20%.

    Segundo estudo recente da CropLife Brasil, entidade que reúne empresas nas áreas de sementes, biotecnologia, defensivos químicos e bioinsumos, a pirataria de sementes provoca perdas estimadas em R$ 10 bilhões por safra somente nessa cultura . O Brasil também figura entre os três maiores mercados mundiais de sementes, logo atrás de Estados Unidos e China. A área total cultivada no Brasil para a safra 2025/26 de sementes é de 3,9 milhões de hectares , segundo dados da Associação Brasileira de Sementes Mudas (Abrasem).

    O número ficou praticamente estável em comparação a safra 2024/25, considerando as áreas para grandes culturas, como soja e milho, plantas forrageiras (pastagem para o gado) e de olerícolas (incluindo hortaliças e legumes). Estes números ajudam a explicar por que empresas, instituições de pesquisa e universidades passaram a investir fortemente em ferramentas capazes de extrair mais informações de um objeto que mede poucos milímetros. A pergunta deixou de ser apenas quanto uma semente produz.

    Hoje, a ciência busca responder o que ela pode revelar antes mesmo de ser plantada. Dentro de uma semente existe alimento, produtividade e renda. Mas existe também informação.

    E é justamente essa informação que a inteligência artificial começa a revelar com uma velocidade que poucos imaginavam há poucos anos. Uma tecnologia que começa antes do plantio Getty Images Detalhe de grão de soja ainda na vagem Durante décadas, a inovação no setor esteve associada principalmente ao melhoramento genético, aos tratamentos industriais e à biotecnologia. A inteligência artificial surge agora como uma nova camada tecnológica.

    “O produtor de sementes é um grande consumidor de tecnologia, inovação e novos produtos” , afirma Henning. Segundo ele, a evolução do setor depende da incorporação permanente de conhecimento científico, sem abrir mão dos fundamentos da produção. ” Essa mudança altera a própria forma de enxergar a semente.

    Ela deixa de ser apenas o início de uma lavoura para se tornar uma fonte de dados capaz de antecipar decisões agronômicas, reduzir riscos e aumentar a eficiência de toda a cadeia produtiva. Quando a máquina aprende a enxergar Um dos exemplos mais claros dessa transformação vem da Universidade de São Paulo (USP) . Pesquisadores desenvolveram um sistema que combina iluminação especial, imagens hiperespectrais e algoritmos de inteligência artificial para avaliar sementes de soja.

    Em vez de depender exclusivamente de testes tradicionais, a tecnologia identifica características invisíveis ao olho humano e consegue estimar o potencial de germinação e o vigor dos lotes de forma rápida e não destrutiva . Na prática, a máquina aprende a reconhecer padrões que indicam quais sementes apresentam maior capacidade de originar plantas vigorosas. A mudança pode parecer sutil, mas representa uma alteração importante no processo de controle de qualidade.

    Enquanto métodos convencionais podem exigir vários dias para obtenção de resultados, sistemas baseados em visão computacional conseguem acelerar significativamente as análises, permitindo decisões mais rápidas sobre armazenamento, comercialização e utilização dos lotes. Na avaliação de Henning, esse é justamente um dos espaços onde a inteligência artificial mais avança. “A IA acelera a análise de grandes volumes de dados.

    Ferramentas analíticas e de processamento de imagem nos permitem diagnosticar a qualidade de um lote em poucas horas, correlacionando os resultados com testes tradicionais de tetrazólio ou de emergência no campo”, afirma. Depois de enxergar, a IA começa a prever O avanço seguinte já está em desenvolvimento. Pesquisas conduzidas pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) estudam modelos de inteligência artificial capazes de prever o comportamento fisiológico das sementes antes da semeadura .

    O objetivo é utilizar grandes volumes de dados para antecipar informações sobre germinação, vigor e desempenho em diferentes condições ambientais. Essa mudança amplia o papel da inteligência artificial. Em vez de apenas interpretar imagens, os algoritmos passam a construir modelos preditivos.

    Isso ganha importância em um cenário agrícola cada vez mais condicionado por extremos climáticos. Temperaturas elevadas, irregularidade das chuvas e eventos como El Niño e La Niña aumentam a necessidade de prever o comportamento das sementes em diferentes ambientes de produção. Henning observa que produzir sementes significa administrar uma indústria a céu aberto.

    “Não adianta cruzar os braços e dizer que vai dar El Niño. ” Nesse contexto, sistemas preditivos passam a integrar um conjunto maior de informações que incluem genética, ambiente, histórico climático e manejo agrícola. O resultado esperado é reduzir incertezas e apoiar decisões técnicas antes que os problemas apareçam no campo.

    Dados passam a valer tanto quanto genética O avanço da inteligência artificial não acontece apenas dentro das universidades. Empresas globais de biotecnologia também passaram a incorporar modelos de IA ao desenvolvimento de novas variedades comerciais. O Syngenta Group, líder no mercado global de proteção de cultivos e biotecnologia, com faturamento de US$ 28,4 bilhões (R$ 146,3 bilhões, na cotação atual) em 2025, anunciou que colocou a inteligência artificial entre as prioridades estratégicas da companhia, utilizando projetos voltados à geração de valor econômico e à aceleração de processos de inovação.

    No segmento de sementes de hortaliças, a empresa anunciou parcerias para aplicar inteligência artificial na previsão das variedades com melhor desempenho conforme cada região produtora , além de investimentos em novas estruturas de pesquisa e controle de qualidade. A estratégia revela uma mudança importante. O diferencial competitivo deixa de estar apenas na genética desenvolvida ao longo dos programas de melhoramento e passa a incorporar a capacidade de interpretar grandes volumes de dados sobre comportamento das plantas em diferentes ambientes.

    A semente continua sendo o produto final. Mas o conhecimento produzido sobre ela passa a representar um patrimônio igualmente estratégico. Ciência antes do algoritmo Apesar do entusiasmo em torno da inteligência artificial, Henning faz uma ressalva.

    Segundo ele, a qualidade da resposta depende diretamente da qualidade das informações utilizadas para treinar os sistemas. “A inteligência artificial nunca vai dizer ‘não sei’. Ela sempre vai dar uma resposta.

    ” A observação ajuda a compreender por que universidades, Embrapa e empresas privadas continuam investindo simultaneamente em pesquisa básica, experimentação de campo e geração de bases científicas robustas. Na avaliação do pesquisador, a inteligência artificial não substitui o conhecimento agronômico. Ela amplia a capacidade humana de interpretar informações produzidas ao longo de décadas de pesquisa.

    A tecnologia continua sendo a própria semente Embora a inteligência artificial represente uma das principais novidades do setor, Henning lembra que boa parte dos ganhos de produtividade continua dependendo da execução correta de práticas já conhecidas. Secagem adequada, beneficiamento, armazenamento climatizado, tratamento industrial e rastreabilidade permanecem como etapas decisivas para preservar o potencial fisiológico das sementes. “Às vezes, a gente deixa de fazer o básico”, afirma.

    Ele cita situações em que sementes deixam de passar pelo secador para reduzir custos, permanecem expostas às intempéries ou são armazenadas em condições inadequadas. O resultado é perda de vigor antes mesmo da semeadura. Nesse sentido, a inteligência artificial não elimina os fundamentos da tecnologia de sementes.

    Ela funciona como uma ferramenta capaz de ampliar a precisão das decisões, desde que associada às boas práticas de produção. É essa combinação que explica por que uma indústria inteira passou a investir tanto em inteligência artificial. O post Fernando Henning Vê Na IA Uma Nova Fronteira Para o Mercado Sementeiro de R$ 38 bilhões apareceu primeiro em Forbes Brasil .

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