Fórmula 1: como uma ‘reforma fiscal’ transformou a categoria em mina de ouro
Toto Wolff, chefe da Mercedes na Fórmula 1, comprou um terço da equipe em 2013. Pagou US$ 50 milhões. O valor: US$ 300 milhões .
Toto, um austríaco que veio do mercado financeiro , multiplicou seu investimento inicial por seis, vendendo apenas um sexto de sua fatia. Os detalhes dessa história mostram o quanto a Fórmula 1 cresceu como negócio. Se 5% da equipe Mercedes valem US$ 300 milhões, então 100% = US$ 6 bilhões.
Para ilustrar: trata-se de um valor de mercado maior que o de empresas parrudas da B3. Mais do que RaiaDrogasil, Cemig, CSN Mineração, MBRF, para citar algumas. Em 2013, a equipe estava avaliada em US$ 165 milhões – Toto comprou 30% ali; mais tarde, numa reorganização societária, aumentaria sua fatia para 33%.
000%. 600%). 200%.
Leia também The Wall Street Journal A corrida bilionária da Cadillac para construir uma equipe de F1 do zero Não foi só a Mercedes, claro. Todas as equipes tiveram valorizações estapafúrdias na última década – e mais adiante vamos mostrar as razões. Mas os resultados financeiros da Mercedes montam, sozinhos, um retrato fiel da evolução.
Quando Toto entrou, a Mercedes tinha fechado 2012 com um prejuízo de US$ 51 milhões. E em 2013 piorou : US$ 84 milhões no vermelho. Hoje ela dá lucro: fechou 2025 com US$ 168 milhões no azul.
Isso veio em cima de um faturamento de US$ 850 milhões. Temos aí, então, uma saudável margem de 20%. Desse faturamento, US$ 550 milhões vieram basicamente dos patrocínios; o resto, US$ 300 milhões, dos prêmios em dinheiro que a administração da Fórmula 1 paga às equipes com base nos resultados.
99% do lucro virou dividendo : os sócios repartiram US$ 166 milhões pelos resultados de 2025. Dessa forma: US$ 55 milhões para Toto Wolf, US$ 55 milhões para a Ineos (uma petroquímica da Inglaterra) e US$ 55 milhões para a Mercedes-Benz, a montadora. O sócio novo – George Kurtz, fundador da CrowdStrike , que agora tem 5% – ainda não tinha entrado.
O caso da Ferrari é parecido. Mais ou menos 10% da receita da empresa Ferrari, a companhia de capital aberto que faz carros de rua, vem da operação de Fórmula 1. “Mais ou menos” porque não existe um balanço só da equipe , como há no caso da Mercedes.
Temos apenas o da companhia inteira. E ele não mostra o lucro que vem especificamente da Fórmula 1. Mas mostra, pelo menos, o faturamento .
O da Fórmula 1 vem junto com o de uma categoria menor, o WEC, que a Ferrari também disputa. O total da Ferrari deu US$ 915 milhões , somando patrocínio e premiações, no ano passado. É uma receita semelhante à da Mercedes, e que dá 11% do faturamento total da companhia.
E como a Fórmula 1 tem ordens de grandeza maior que os do WEC, dá para inferir que o grosso desse valor vem de lá. Foi a virada da Fórmula 1 como negócio que proporcionou tudo isso. E ela começou há pouco tempo, a partir de 2017.
Foi quando a Liberty, um grupo americano de mídia, comprou a organização da Fórmula 1 do antigo dono. Leia também The Wall Street Journal Como a Mercedes gastou US$ 10 milhões para transformar um prodígio de 11 anos em fenômeno da F1 A chegada da Liberty A Fórmula 1 é um circo com dois donos. A Liberty é a gestora comercial.
Ela vende patrocínio para o campeonato, negocia direitos de transmissão e fecha contrato com os organizadores dos GPs, já que cada um tem o seu. E aí distribui uma parte da receita para as equipes. É daí que vem a parte da “premiação”, que na prática é o dividendo que as equipes recebem por garantirem o espetáculo.
O outro dono ali é a FIA. Mas ela não cuida da parte comercial. Cuida da parte esportiva e escreve as regras.
O próprio termo “Fórmula 1” se refere à “fórmula” da FIA para os carros: motor de tal cilindrada, asa traseira assim, asa dianteira assado. Bom, a Liberty comprou a parte comercial e deu um gás num esporte que parecia cansado. Transformou a coisa num espetáculo maior do que era antes.
O maior salto foi a criação do reality Drive to Survive , com a Netflix. Para quem não acompanha, é um reality show de cada temporada, que se passa nos bastidores das equipes – talvez roteirizado demais para chamar de reality, mas funcionou. Drive to Survive renovou o público ali.
Antes, só 12% dos fãs acompanhavam a categoria havia menos de cinco anos. Faltava público novo. Agora, pela pesquisa mais recente da Liberty, a proporção feminina subiu para 25%, e a fatia de quem acompanha há pouco tempo, há menos de cinco anos, subiu para 27%.
Gente nova entrando. E país novo entrando, de certa forma. Sempre teve corrida nos Estados Unidos, por exemplo, mas era equivalente a partida de hóquei no gelo no Brasil.
O público americano não ligava. Com o Drive to Survive , a Fórmula 1 conseguiu uma base bem maior por lá. Agora são três corridas nos EUA: uma em Miami, uma no Texas e uma mais espetaculosa, em Las Vegas.
E a receita da Liberty subiu de US$ 1,8 bilhão no primeiro ano, em 2017, para US$ 3,8 bilhões agora. Isso dá um crescimento médio de 10% ao ano. Quase 120% no acumulado.
Veja aqui as origens da receita da Liberty, pelos números de 2025: Só que a Liberty fez mais do que aumentar a arrecadação. Ela promoveu uma “reforma fiscal” na categoria . Junto com a FIA, instituiu um teto de gastos a partir de 2021.
Cada equipe, que é basicamente uma empresa de mil e poucos funcionários, só pode gastar até R$ 215 milhões por ano. Como todo teto de gastos, há exceções. Salário de piloto, que passa de US$ 60 milhões por ano nos casos de Max Verstappen e Lewis Hamilton, fica de fora.
Os salários dos três funcionários mais bem pagos também não entram, nem as despesas de marketing. Fizeram isso para tornar o esporte mais sustentável do ponto de vista financeiro. , várias montadoras tiveram equipe própria e acabaram jogando a toalha porque não aguentavam mais queimar dinheiro.
E, se não queimassem, ficariam em último no grid, com imagem de perdedoras. O teto ajudou no planejamento. A F1 se transformou menos numa competição de quem gasta mais e mais numa de quem gasta melhor .
E quem soube equilibrar as contas passou operar no azul de forma consistente. Mas isso não significa que todo mundo consiga. A evolução das outras equipes Nos aprofundamos aqui no balanço da Mercedes porque ela é a única que mostra os detalhes: quanto entrou de patrocínio, quanto entrou de prêmio da organização, quanto virou dividendo.
O da Ferrari, como vimos, vem embolado com o do resto da empresa e não discrimina o lucro real da operação de Fórmula 1. Das outras equipes, as demonstrações financeiras, quando existem, são mais superficiais. E essas só existem porque as empresas de capital fechado com sede na Inglaterra precisam informar faturamento e lucro à junta comercial de lá, a Companies House .
Das 11 equipes, de qualquer forma, seis têm sede na Inglaterra: Mercedes, McLaren, Red Bull, Aston Martin, Alpine e Williams. E, a partir dessa amostra, bem razoável, dá para ver que lucro ainda é raridade entre as equipes. h+"px","important"); }); })(); Fora a Mercedes, que fez aqueles US$ 168 milhões no ano passado, o maior lucro entre os times com sede na Inglaterra no ano passado foi o da Red Bull, só que bem atrás: US$ 24 milhões.
A Williams ficou no vermelho: -US$ 33 milhões. A Aston Martin, idem: -US$ 55 milhões. Mas tem outro dado, e ele indica que as equipes, no geral, estão progredindo.
A Williams, por exemplo, dá prejuízo, mas é a que mais aumentou a receita nesse recorte entre 2024 e 2025: 35%. Na verdade, as que estão no vermelho foram justamente as que mais aumentaram o faturamento. h+"px","important"); }); })(); E o caso da McLaren (-US$ 23 milhões) é à parte.
A receita ali está entre as maiores da F1: US$ 788 milhões no ano passado. E eles tinham lucrado US$ 53 milhões em 2024. O prejuízo veio dos pagamentos de bônus a membros do time, que venceu em 2025 o Mundial de pilotos e de equipes.
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