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    Gaudêncio Torquato: ‘O voto está subindo do coração para a cabeça’
    Revista Oeste·24 de out., 11:30

    Gaudêncio Torquato: ‘O voto está subindo do coração para a cabeça’

    O jornalista e professor emérito da Universidade de São Paulo (USP) Gaudêncio Torquato participa do planejamento de campanhas políticas desde a década de 1980. Com experiência em disputas eleitorais de diferentes regiões do país, tornou-se uma referência no estudo do marketing político. Em agosto deste ano, Torquato lançou Memórias em Quatro Atos (Topbooks), obra que reúne episódios de sua trajetória familiar, jornalística, acadêmica e profissional.

    Em entrevista a Oeste , concedida naquele mês, o professor analisou os desafios de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro na disputa presidencial, além das transformações na comunicação eleitoral. Confira os principais trechos: Na avaliação do senhor, quais são os principais problemas de imagem que Lula precisa administrar nesta eleição? Lula deve administrar o caso do filho dele, o Lulinha, implicado com a eventual ligação com o Careca do INSS.

    Tem a questão da viagem do Lulinha para Portugal, o tratamento à base de canabidiol, uma empresária amiga do Lulinha, a Roberta Luchsinger, que teve uma série de encontros em ministérios, possivelmente usando o nome do Lulinha. Lula tem que administrar esse problema. Lula tenta conquistar seu quarto mandato presidencial.

    Como o senhor avalia o desgaste da imagem dele depois de tantos anos na política? O quarto mandato provoca um efeito que chamo de desgaste de material. O Lula sempre trabalhou com a esperança, com o tema da esperança.

    O que ele está prometendo, por que não fez nos três mandatos anteriores? Existe uma crítica muito grande hoje contra o que se chama de desgaste do material, de corrosão do material. O pessoal já quer uma cara diferente.

    A rejeição a Lula é por conta exatamente do desgaste. Flávio Bolsonaro carrega o sobrenome de um ex-presidente com uma base eleitoral expressiva. Essa herança ajuda ou atrapalha?

    Primeiro, falta experiência a ele. Teve apenas dois projetos aprovados. Não tem experiência.

    Depois, tem esse caso com o Vorcaro. Ele teria pedido R$ 135 milhões para financiar o filme sobre o pai dele. Parte do dinheiro foi paga, e ele cobrava o resto.

    Depois, tem o caso dele pedindo ao governo Trump para adiar o tarifaço sobre o Brasil para depois das eleições. A partir daí, todo mundo começou a dizer: “Esse cara é traidor da pátria, está se vendendo aos Estados Unidos, está colocando tudo para depois das eleições”. O nome também ajuda de um lado, mas desajuda de outro.

    Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) durante o debate da Band no último domingo | Foto: Renato Pizzutto/Band O senhor participou de campanhas eleitorais desde a década de 1980. O que mais mudou na comunicação política brasileira desde então? Mudou muito.

    A comunicação, à moda antiga, era uma comunicação ligada à TV, aos programas de televisão, aos embates eleitorais. Hoje você tem uma campanha mais descentralizada, ou seja, uma campanha onde as redes sociais têm um papel fundamental. Nas novas fontes de comunicação, em vez de ser apenas dos candidatos, os próprios eleitores participam do processo político, dando sugestões, queimando alguém, denunciando outro.

    Então você tem nas redes sociais uma verdadeira malha de meios de comunicação que descentralizam, horizontalizam a campanha. Hoje o discurso está muito fragmentado. Tem a bancada feminina, tem a bancada agropecuária, tem a bancada dos banqueiros, tem a bancada dos servidores públicos.

    É uma divisão, o eleitorado hoje se divide muito. Com o crescimento das redes sociais, o horário eleitoral na televisão e os debates ainda têm força? Os dois já faltaram.

    O Lula já faltou, o Bolsonaro já faltou. De certa forma, eles ganham em não participar. Por outro lado, existe o assunto do “fujão”, que está fugindo da raia.

    Quanto ao debate, eu acho que vai ter importância, sim. Agora, mais uma vez, as redes sociais terão um papel fundamental ao lado da TV. O eleitor se torna também fonte de comunicação, não é só receptor.

    O eleitor agora é fonte de comunicação, ele participa do processo. Todo candidato procura transmitir uma imagem de autenticidade, mas também segue uma estratégia de comunicação. Até onde vai a autenticidade e onde começa a construção da imagem?

    A estratégia de comunicação é uma autoproclamação gloriosa. Quer dizer: eu sou o melhor, eu sou o bom, fiz isso, fiz isso, fiz isso. Tem sempre uma polaridade entre o fez e o não fez, entre o que é bom e o que é ruim.

    Mas a maior surpresa dessa campanha é que o eleitor está mais racional, mais consciente. Então chama-se o voto mais autônomo, mais independente. O voto está subindo do coração pra cabeça.

    Hoje o voto tá sendo dado pela razão, pela cabeça. Ou seja, ele verifica, controla, vê quem é que tá dizendo mentira, vê quem é que tá dizendo a verdade. Essa é a nova lógica da campanha.

    Leia também: “Eleição para quem precisa” , artigo de Guilherme Fiuza publicado na Edição 332 da Revista Oeste O post Gaudêncio Torquato: ‘O voto está subindo do coração para a cabeça’ apareceu primeiro em Revista Oeste . ]]>

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