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    Poder360·23 de set., 23:48

    Governo Lula vê Escudo das Américas como brecha para os EUA na região

    2026) por 15 países, sob liderança dos Estados Unidos— extrapola o combate ao crime organizado e abre brecha para ampliar a influência norte-americana na América Latina. O acordo foi divulgado à margem da Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Leia a íntegra (PDF – 365 kB).

    A leitura no Palácio do Planalto é de que o texto é muito grave e funciona como porta de entrada para uma reedição da doutrina Monroe . Há o entendimento de que o crime organizado é só o 1º tema a ser tratado dessa forma, abrindo precedente para Washington interferir em outras pautas estratégicas regionais, como a regulação de big techs , a presença chinesa na infraestrutura local e o controle sobre minerais críticos. Para o governo Lula, os EUA têm interesse em um resultado eleitoral favorável à direita no Brasil.

    A pressão comercial dos EUA, a articulação de Flávio Bolsonaro (PL) com autoridades norte-americanas e declarações sobre o pleito brasileiro são sinais das intenções de Washington e, na avaliação do Planalto, uma interferência. TERRAS-RARAS NO RADAR O Poder360 apurou que o risco não é visto no que a declaração diz, mas no que ela sinaliza. O documento tem 3 eixos: econômico, de segurança e de coordenação multilateral.

    No 1º deles, os signatários se comprometem a proteger as cadeias de suprimento de minerais críticos com base em “fontes diversificadas e confiáveis” . Para Brasília, esse é o trecho mais sensível. A avaliação é que, ao enquadrar o crime organizado como ameaça à segurança dos EUA, Washington abre brecha para aplicar a mesma lógica a outras áreas, que poderiam ser enquadradas como ameaças aos norte-americanos: controle de minerais estratégicos; infraestrutura digital; e presença chinesa em solo brasileiro, principalmente em portos e ferrovias.

    O Brasil tem a 2ª maior reserva de terras-raras do mundo, atrás da China. Diplomatas avaliam que esse é justamente o tipo de ativo que tende a ser reclassificado como questão de segurança à medida que a doutrina avança. Durante as negociações para tentar evitar o tarifaço , os Estados Unidos pediram ao Brasil medidas para limitar investimentos estrangeiros em minerais críticos –sobretudo chineses.

    CAMINHO PELA OEA A declaração do governo norte-americano também anuncia a intenção de pedir ao Conselho Permanente da OEA (Organização dos Estados Americanos) uma reunião de consulta com base no Tiar (Tratado do Rio), de 1947. Esse é o passo concreto seguinte e deve levar semanas ou meses para avançar. Enquanto isso, o governo brasileiro trata o tema com cautela e evita associá-lo a um cenário de conflito armado na região.

    Não há, nos documentos divulgados até agora, qualquer menção a ação militar contra o Brasil ou a países vizinhos. O instrumental usado para impor a doutrina Monroe tem sido diplomático e financeiro: sanções, bloqueio de bens e restrição de vistos. Por isso, o governo brasileiro não vê risco de ação unilateral contra o Brasil por parte dos países que assinaram a declaração ao lado dos Estados Unidos.

    A maioria desses governos mantém boa relação e a avaliação é que devem manter a cooperação bilateral no combate ao crime organizado, independentemente do texto. Em 15 de setembro de 2026, a Casa Branca enviou ao Congresso dos EUA um relatório anual sobre o tema. O texto afirma que o governo Lula falhou ao confrontar as facções PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho).

    O documento cobra ação urgente do governo brasileiro, mas o país não é classificado como produtor ou rota de drogas. Leia a íntegra (PDF – 173 kB). A preocupação é que Washington abre caminho para o uso da força à revelia do direito internacional .

    O governo enxerga nisso o mesmo caminho percorrido na intervenção na Venezuela que levou à captura de Nicolás Maduro (PSUV, esquerda). RESPOSTA NO DISCURSO Horas antes de a declaração ser divulgada, Lula já havia respondido ao tema na abertura da Assembleia Geral da ONU. Disse que o Brasil tem seus próprios instrumentos contra o crime organizado –caso da Lei Antifacção e da operação Carbono Oculto– e rejeitou qualquer papel externo na segurança das fronteiras brasileiras.

    O mesmo raciocínio, segundo avaliação do Planalto, vale para os minerais críticos: qualquer acesso a reservas brasileiras passaria por regras definidas por Brasília, não por Washington. No discurso, o presidente fez a única menção a Donald Trump (Partido Republicano) sem citar o nome dele. Disse que “não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas” e defendeu cooperação para conter o fluxo de armas e de dinheiro que financia o crime organizado.

    Segundo Lula, essa é a base de uma proposta que ele entregou pessoalmente a Trump, em Washington –que segue sem resposta dos Estados Unidos. Antes do discurso na Assembleia Geral, por exemplo, Lula conversou no plenário da ONU com José Antonio Kast (Partido Republicano), presidente do Chile, e Rodrigo Paz (PDC), presidente da Bolívia. O presidente da Guiana, Irfaan Ali (PPP), também teve uma conversa com o petista no mesmo espaço.

    Todos assinaram a declaração do Escudo das Américas. Leia mais: Governo Lula vê pressão por big techs como influência eleitoral dos EUA EUA tentaram limitar capital externo em minerais críticos do Brasil Tarifaço levou governo Lula a adotar discurso sobre soberania ]]>

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