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    Herança de Lula será pior que a de Dilma, diz Gabriel Leal de Barros
    Revista Oeste·24 de out., 13:00

    Herança de Lula será pior que a de Dilma, diz Gabriel Leal de Barros

    Independentemente de quem vença as eleições neste domingo, 25, o próximo governo receberá um legado muito ruim na economia, pior até mesmo que a herança deixada pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT), que resultou na mais grave crise da história do país.   Em entrevista a Oeste , o economista avalia que o terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cometeu “erros sucessivos” na condução da política econômica e atuou “sem limites” para burlar as regras do arcabouço fiscal, criado por ele próprio e aprovado pelo Congresso em 2023.   + Leia mais notícias de Economia em Oeste Na conversa com a reportagem, o economista também falou sobre a euforia dos mercados com a possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro (PL) e o risco de o Brasil enfrentar uma recessão em 2027.

      Os dias que se seguiram ao 1° turno da eleição foram marcados pelo bom desempenho do Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores, que bateu recordes históricos , embora os investidores tenham ficado mais cautelosos às vésperas do 2° turno . Qual é a influência do “fator” Flávio para essa euforia inicial no mercado? O que aconteceu no 1° turno foi decisivo.

    Até então, a maioria das pesquisas mostrava um empate técnico entre Lula e Flávio, mas o resultado das urnas foi muito mais favorável não apenas ao Flávio, mas para a direita como um todo no Congresso. Se o resultado tivesse sido outro, não teríamos visto um desempenho tão positivo da bolsa. No caso da eleição para governos estaduais e para o Congresso, a votação expressiva da direita foi até surpreendente, o que também ajuda a explicar o que vimos na bolsa logo depois de 4 de outubro.

      Foram vários erros sucessivos na gestão de política macroeconômica, alguns até parecidos com os que Dilma cometeu. Para manter a economia artificialmente aquecida em ano eleitoral, Lula atuou sem limites. Ele contornou a recessão fiscal no próprio arcabouço, retirando despesas do teto de limite de gastos e da meta de superávit primário.

    Foram incontáveis as medidas para abrir espaço fiscal. O governo começou a se valer de fundos públicos e privados para gastar por fora do arcabouço, contornando a regra que ele próprio criou. O Fundo Social do Pré-Sal e o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) são exemplos dessa prática.

    Também vimos o uso político de estatais, principalmente a Petrobras , mas não só ela. O governo ainda usou operações de crédito para manter uma falsa sensação de bem-estar em ano eleitoral. O reajuste de 15% do Bolsa Família a pouquíssimos dias da eleição é mais uma evidência do manejo equivocado das contas.

      O arcabouço fiscal deu errado? Deu muito errado. A minha crítica sempre foi basicamente matemática.

    Quando você faz a conta da viabilidade do arcabouço, fica claro que há um problema de consistência. O limite de gasto agregado não conversa com a dinâmica dos gastos que compõem o capital. Alguns exemplos: a regra do salário mínimo implica no crescimento do gasto muito maior do que o limite geral.

    O mesmo vale para as regras de gasto com saúde e educação. Desde a sua concepção, o arcabouço era uma regra fiscal fraca. Parte do mercado acabou acreditando que ele poderia ser uma boa regra porque a taxa média de crescimento do gasto nos governos do PT foi em torno de 7% e, quando o mercado olhou para um arcabouço que definia um crescimento máximo de gasto de 2,5%, entendeu que aquilo não era tão ruim assim.

    A avaliação mudou com a perda de ancoragem do próprio arcabouço, e isso tem a ver com a decisão do governo de retirar muitas despesas dali. A partir daí, foi ficando claro que o gasto efetivamente não crescia 2,5%, mas muito mais.   Leia também: "Bolsa muda sinal e cai com redução de vantagem de Flávio sobre Lula; dólar sobe" Herança econômica de Lula será ainda pior do que a deixada pela ex-presidente Dilma Rousseff, avalia o economista Gabriel Leal de Barros| Foto: Shutterstock Quais são as principais reformas que o próximo governo precisará levar a cabo para recolocar a economia nos trilhos?

    Tem de fazer uma reforma administrativa, com a reestruturação de cargos e salários no serviço público. A progressão do salário de entrada para o salário final é muito rápida, o que produz uma demanda enorme por reajustes de várias carreiras. Temos ainda todos os penduricalhos, principalmente do Judiciário, que custam de R$ 15 bilhões a R$ 20 bilhões por ano.

    Além disso, é necessário desvincular o Benefício de Prestação Continuada [BPC] do valor do salário mínimo. O Brasil é um dos pouquíssimos países do mundo que ainda vincula uma coisa à outra. O BPC precisa ser revisto.

    Hoje, ele tem vários problemas: um deles é a idade mínima de 65 anos, que canibaliza com a aposentadoria por idade, que também é de 65 anos. O sujeito recebe o mesmo valor da aposentadoria por idade e não contribui nada. O resultado é que o governo perde arrecadação e o gasto explode diante da quantidade de benefícios.

    Para além de tudo isso, na parte de fusão de políticas sociais, há uma agenda grande. O atual governo criou muitos programas novos, desarticulou as políticas sociais e estamos gastando muito recurso com pouco resultado. A efetividade do gasto social caiu.

    Dá para fazer uma fusão de benefícios sociais e economizar facilmente de R$ 20 bilhões a R$ 30 bilhões, reduzindo a sobreposição de benefícios.   A chance de o Lula entregar uma agenda concreta de reformas é muito baixa. Basicamente, porque isso seria desfazer tudo o que foi feito pelo próprio governo.

    Além de o governo não ter base política para isso, nós teríamos uma espécie de estelionato eleitoral parecido com o que ocorreu no início do governo Dilma, que acabou culminando no impeachment . Ela resolveu convidar o Joaquim Levy para ser ministro da Fazenda, mas ele era uma ilha dentro do governo e não conseguiu implementar a consolidação fiscal. Deu errado porque os outros ministérios jogavam contra.

    É muito difícil imaginar uma agenda de reformas em um eventual quarto mandato do Lula. As agendas só avançam se houver convicção do Executivo. Quando o presidente e a equipe econômica têm convicção, a coisa anda.

      A dívida pública brasileira alcançou 82,9% do PIB em agosto , ultrapassando R$ 11 trilhões. Sob o governo Lula, ela cresceu mais de 11 pontos porcentuais. Como reverter este cenário?

    A dívida cresceu muito e vai continuar crescendo até 2030, mesmo que o novo governo faça o dever de casa. Isso mostra o tamanho da herança negativa que vai ser deixada. O desafio que teremos para corrigir as contas a partir do ano que vem é maior do que aquele que tivemos depois do governo Dilma.

    A situação atual é mais complicada. A herança é ainda pior. O déficit primário real, hoje, é maior do que no período da Dilma.

    Tem mais esqueleto no armário porque as medidas parafiscais foram muito exageradas no atual governo. O juro global é mais alto, o que torna o cenário mais desafiador. O Fernando Haddad [ex-ministro da Fazenda] aumentou em praticamente 2 pontos a carga tributária, o que significa que o espaço para você ter algum ganho de receita é muito marginal.

    Por tudo isso, o ponto de partida é mais desafiador do que foi na época da Dilma. A equipe de transição terá um trabalho extremamente relevante. Ninguém no mercado sabe o real tamanho do buraco.

    O governo se valeu de vários caminhos opacos para manter a economia aquecida. Não sabemos ao certo o que sobrou de saldo dos fundos que foram utilizados. Isso tudo precisa ser levantado pela equipe de transição porque é este bom trabalho que vai dar transparência e gerar credibilidade, viabilizando um plano de consolidação fiscal compatível com o tamanho do problema.

    Pelas minhas contas, o tamanho do desafio é de cerca de 4 pontos do PIB, só para estabilizar a dívida! É desafiador, mas dá para fazer com todas essas medidas que a gente comentou. É factível, ainda mais com este Congresso à direita que foi eleito.

      O Brasil corre o risco de enfrentar uma recessão a partir de 2027? Uma recessão técnica, sim. Ou seja, PIB negativo em dois trimestres consecutivos.

    Inclusive, essa recessão técnica está no nosso cenário para 2027. Hoje, projetamos um PIB de 1% para o ano que vem, com viés de baixa. No ano, o PIB ainda deve fechar com resultado positivo, mas é provável que tenhamos PIB negativo em pelo menos dois trimestres.

    Isso é herança. Só pelo fato de não haver renovação dos substanciais estímulos fiscais, parafiscais e de crédito que o atual governo implementou neste ano, isso já vai puxar a atividade econômica para baixo. O governo gastou tanto dinheiro que criou uma falsa sensação de bem-estar.

    Essa falsa sensação vai acabar. Em 2027, teremos uma forte desaceleração da economia, que já começou a ser observada em 2026. O próximo governo precisará de uma estratégia de consolidação fiscal.

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