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    CNN Brasil·21 de set., 07:30

    Holding da Safira aprovou cisão antes da cautelar das comercializadoras

    Quase seis meses antes das comercializadoras de energia do Grupo Safira recorrerem à Justiça em busca de uma proteção de 60 dias para negociar dívidas de R$ 357,5 milhões , a Safira Holding aprovou uma cisão parcial que previa redistribuir ativos e passivos dentro da estrutura societária do grupo. A ata analisada pela reportagem mostra que a assembleia foi realizada em 2 de março de 2026 . As assinaturas eletrônicas foram concluídas em 31 de março.

    Pela estrutura prevista, parte do patrimônio da Safira Holding seria transferida para a Safira Participações 2 e outra parcela para a Honshu Participações , empresa do grupo voltada a participações societárias. Em agosto, quatro comercializadoras do grupo — Safira Administração e Comercialização de Energia, Safira Artemis Comercialização de Energia, Safira Trading e Geração de Energia e Safira Varejo Comercialização de Energia — alegaram à Justiça enfrentar uma crise econômico-financeira e pediram a suspensão de execuções para negociar com credores. A Justiça concedeu a tutela às quatro comercializadoras.

    Ao fundamentar a medida, a decisão afirma que esse mecanismo busca produzir uma “blindagem patrimonial temporária” para permitir a negociação com credores. A Safira Holding, a Safira Participações 2 e a Honshu não integram o pedido. Embora os documentos não relacionem a cisão à crise apresentada meses depois, fontes ouvidas sob condição de anonimato levantaram a possibilidade de que a reorganização tenha separado patrimônio em empresas que ficaram fora do pedido de proteção judicial.

    A documentação analisada, porém, não permite concluir que esse tenha sido o objetivo da operação. A justificativa formal da operação foi aumentar a eficiência administrativa, operacional, contábil, societária, financeira e econômica da estrutura do grupo. A documentação afirma ainda que “a operação permitirá a adequada alocação de ativos e passivos entre as Sociedades envolvidas, refletindo de forma mais fiel a estrutura econômica e operacional do grupo”, diz a Ata da Assembleia Geral Extraordinária .

    Os valores considerados na operação foram calculados a partir de um balanço especial com data-base de 31 de janeiro de 2026. R$ 133 milhões devidos a três comercializadoras A divisão prevista formava dois blocos com situações patrimoniais bastante diferentes. A Safira Participações 2 ficaria com R$ 37,55 milhões em ativos e R$ 132,98 milhões em obrigações, resultando em patrimônio líquido negativo de R$ 95,43 milhões.

    As obrigações discriminadas eram empréstimos entre empresas do próprio grupo, chamados tecnicamente de mútuos. Eram R$ 87,9 milhões devidos à Safira Administração, R$ 33,42 milhões à Safira Trading e R$ 11,66 milhões à Safira Artemis, ou seja, três das quatro comercializadoras que, meses depois, buscariam proteção judicial . Os registros contábeis indicam que essas três comercializadoras tinham valores a receber da Safira Holding e que a obrigação de pagamento seria transferida para a Safira Participações 2.

    Também fazia parte do bloco um crédito de R$ 837,5 mil a receber da Safira Varejo, a quarta comercializadora que posteriormente buscou proteção judicial. Honshu ficaria com patrimônio líquido positivo A situação para a Honshu era diferente. Antes da cisão, a empresa já apresentava R$ 39,02 milhões em ativos, classificados como investimentos, e não possuía passivos circulantes ou não circulantes.

    Com a operação, o ativo total da Honshu passaria para R$ 47,74 milhões. A empresa assumiria apenas R$ 40 mil em obrigações e apresentaria patrimônio líquido positivo de R$ 47,70 milhões. O aumento dos ativos seria de aproximadamente R$ 8,72 milhões.

    Na prática, o desenho projetava situações patrimoniais bastante diferentes: a Safira Participações 2 com patrimônio líquido negativo e a Honshu com patrimônio líquido positivo. Os atos societários também previam que as participações da Safira Holding na Honshu e na Safira Participações 2 passassem diretamente para as duas acionistas da holding: Heiwa Holding e Hanei Holding, com participações de 75% e 25% , respectivamente. Holding passaria a ter patrimônio líquido positivo A própria situação patrimonial da Safira Holding também mudaria com a operação.

    Antes da cisão, a empresa apresentava R$ 133,41 milhões em ativos e patrimônio líquido negativo de R$ 15,9 milhões. Depois da reorganização prevista nos documentos, permaneceria com R$ 48,1 milhões em ativos e patrimônio líquido positivo de R$ 31,79 milhões. No conjunto, o acervo previsto para transferência teria saldo líquido negativo de R$ 47,73 milhões: um bloco negativo de R$ 95,43 milhões destinado à Safira Participações 2 e outro positivo de R$ 47,70 milhões para a Honshu.

    Credores tiveram prazo para contestar A Safira Holding publicou um aviso aos credores sobre a cisão. O documento informa que eles teriam 90 dias, contados da publicação , para se opor formalmente à operação. O aviso afirma também que a cisão somente produziria efeitos após o fim desse prazo sem oposição ou depois da solução de eventuais contestações.

    Na decisão que concedeu a proteção de 60 dias às comercializadoras, a Justiça considerou que os documentos contábeis apresentados davam suporte à crise de liquidez alegada pelas empresas. As quatro sociedades passaram de resultados positivos para prejuízo líquido entre 2024 e 2025. No mesmo período, o caixa conjunto caiu de aproximadamente R$ 27,5 milhões para R$ 14,2 milhões.

    Outro ponto que chamou atenção de agentes do setor elétrico é que não aparecem bancos, FIDCs ou securitizadoras como credores na relação de R$ 357,5 milhões. Os créditos listados são classificados como decorrentes de contratos de energia e estão distribuídos entre agentes do setor e consumidores. Fontes ouvidas pela reportagem apontam como uma possível explicação as garantias adicionais normalmente exigidas em operações financeiras, que podem incluir aval ou fiança de sócios.

    Contudo, os documentos analisados não permitem confirmar se esse foi o motivo no caso da Safira. Embora não conste da relação de credores, o Banco Daycoval aparece na decisão judicial que concedeu a cautelar. O documento registra quatro títulos da Safira Administração levados a protesto pelo banco entre junho e agosto, por falta de pagamento, no valor conjunto aproximado de R$ 667,6 mil.

    Permanecem em aberto se e quando a cisão passou a produzir efeitos e se houve oposição de credores. Também não está claro qual seria o impacto, para as três comercializadoras, da transferência prevista para a Safira Participações 2 de quase R$ 133 milhões que elas tinham a receber da holding. A reportagem tentou contato com os representantes da Safira por diversas vezes para esclarecer esses pontos, mas a empresa não quis se manifestar.

    O caso da Safira se soma a uma crise mais ampla entre comercializadoras de energia , que já levou diversas empresas a pedidos de recuperação judicial, renegociações de dívidas e disputas com credores. Levantamento feito pela CNN a partir dos casos já conhecidos indica que os passivos associados a essa onda de dificuldades já somam pelo menos R$ 10 bilhões . ]]>

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