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    IA, improviso e games: como a Árvore criou um jogo em que cada partida é diferente
    Olhar Digital·25 de set., 15:08

    IA, improviso e games: como a Árvore criou um jogo em que cada partida é diferente

    Convencer personagens de um vilarejo de que você não merece morrer. Essa é a missão de Fábula Rasa , experiência narrativa em realidade virtual desenvolvida pelo estúdio brasileiro Árvore e vencedora do prêmio de melhor XR no SXSW 2026. A premissa coloca o jogador dentro de uma gaiola, acusado de um crime e aguardando sua sentença.

    Durante aproximadamente 30 minutos, é preciso conversar com os habitantes e tentar convencê-los a poupar sua vida antes da decisão do rei. A diferença está justamente nessas conversas. Em vez de seguir apenas diálogos previamente escritos, os personagens são controlados com auxílio de inteligência artificial generativa e respondem ao jogador considerando o que aconteceu durante aquela sessão.

    Na prática, isso significa que duas partidas não precisam seguir exatamente o mesmo caminho. Para Ricardo Justus, cofundador da Árvore, a tecnologia representa uma ferramenta para ampliar o que os desenvolvedores conseguem criar, e não necessariamente substituir quem trabalha na produção. “IA não substitui humanos: potencializa criadores.

    Quem é criativo faz coisas muito mais incríveis com ela”, afirma Justus. Como funciona a IA de Fábula Rasa? Por trás das conversas existe uma arquitetura que combina a Unity com modelos de linguagem.

    A engine é responsável por gerenciar o estado do mundo, enquanto informações sobre a partida são transformadas em texto e fornecidas ao modelo. Isso inclui o que o jogador falou, objetos que está segurando e o histórico das interações. Assim, os personagens podem considerar acontecimentos anteriores antes de decidir como responder ou agir.

    Existe ainda uma espécie de IA diretora responsável por acompanhar o arco narrativo nos bastidores. Um exemplo está nas poções criadas por uma das personagens. Caso determinada poção produza um efeito específico, essa informação passa a integrar o contexto fornecido ao modelo e pode interferir nas interações seguintes.

    Apesar do uso de IA generativa nos diálogos, a Árvore optou por manter a produção artística inteiramente humana . A tecnologia também não foi adotada como uma maneira de simplesmente diminuir os custos do projeto. Cada sessão utiliza tokens para processar as interações, criando inclusive um desafio diferente para o modelo de negócios.

    Quando a tecnologia estava pronta, mas o jogo não era divertido Imagem: Árvore/ Divulgação Um dos momentos decisivos no desenvolvimento aconteceu depois que boa parte da tecnologia já funcionava. O problema era outro: a experiência ainda não estava funcionando como jogo. A solução veio de fora das ferramentas tradicionais de desenvolvimento.

    A equipe participou de um workshop de teatro de improviso e passou a incorporar conceitos como o “yes, and”, princípio em que o participante aceita a situação apresentada e acrescenta algo a ela. A experiência também adotou deliberadamente um tom humorístico. Além de incentivar o jogador a experimentar possibilidades e brincar com as conversas, a escolha ajuda a incorporar eventuais comportamentos inesperados da própria IA à proposta do jogo.

    O resultado é uma estrutura em que conversar deixa de ser apenas uma maneira de escolher respostas e passa a constituir parte central da jogabilidade. De realidade virtual a IA generativa Imagem: Árvore/ Divulgação Fundada em 2017 por Ricardo Justus e outros dois sócios, a Árvore começou sua trajetória concentrada principalmente em experiências de realidade virtual, mas ampliou sua atuação para diferentes formas de jogos e storytelling imersivo. Nesse período, o estúdio brasileiro acumulou reconhecimento internacional.

    A Linha venceu um Primetime Emmy em 2020, enquanto outros projetos passaram por premiações e festivais internacionais. Em 2026, além do reconhecimento de Fábula Rasa no SXSW, o estúdio lançou uma experiência em realidade virtual baseada em The Boys . Agora, a IA abre uma nova frente de experimentação.

    Justus destaca especialmente o impacto da tecnologia na prototipagem. Processos que anteriormente poderiam levar semanas podem ser testados em questão de horas, permitindo experimentar ideias e descartar rapidamente aquelas que não funcionam. Para empresas interessadas em entender esse potencial, o executivo defende uma abordagem baseada mais na experimentação do que na burocracia.

    “Eu não sei fazer é só a primeira linha do prompt”, resume. Na visão de Justus, colocar as ferramentas diretamente nas mãos das equipes permite descobrir aplicações que dificilmente surgiriam apenas a partir de decisões tomadas por comitês. IA pode diminuir barreiras para desenvolvedores brasileiros Imagem: Árvore/ Divulgação Esse acesso também pode ter consequências para o mercado brasileiro de games.

    Justus enxerga uma janela de oportunidade para a América Latina diante de mercados mais saturados no chamado Norte Global. O Brasil, entretanto, ainda enfrenta obstáculos como falta de capital, acesso limitado a determinados dispositivos e jogos que nem sempre são localizados ou precificados considerando a realidade do consumidor brasileiro. O Marco Legal dos Games, aprovado nos últimos anos, representa um avanço, mas, na avaliação apresentada pelo executivo, ainda existe espaço para ampliar tanto o fomento público quanto a participação do capital privado.

    A IA pode entrar nessa equação ao reduzir algumas barreiras técnicas e acelerar o desenvolvimento de protótipos. Isso não elimina a necessidade de profissionais, investimento ou conhecimento, mas pode permitir que equipes menores testem ideias que anteriormente exigiriam mais tempo e recursos. Para Justus, o talento brasileiro já existe.

    O desafio passa também por transformar esse potencial em produtos pensados para o próprio mercado e capazes de competir globalmente. Fábula Rasa deve chegar ao Meta Quest em 2026 Depois da passagem por festivais, a Árvore pretende levar Fábula Rasa ao público. Uma versão para Meta Quest está prevista para 2026 , embora ainda não tenha uma data de lançamento anunciada.

    O estúdio também estuda versões que não dependam de realidade virtual. Isso é possível porque, apesar de toda a trajetória da Árvore com VR, o elemento fundamental de Fábula Rasa não está necessariamente no headset. Está na conversa.

    A tecnologia permite que personagens lembrem, reajam e improvisem diante das decisões do jogador. E talvez seja justamente essa a principal experiência que a Árvore está tentando construir: um jogo no qual nem mesmo seus criadores conseguem prever exatamente o que o personagem vai dizer em seguida. O post IA, improviso e games: como a Árvore criou um jogo em que cada partida é diferente apareceu primeiro em Olhar Digital .

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