Ibovespa ‘queima’ quase R$ 1 trilhão em uma semana após reeleição de Lula
A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) provocou uma das maiores ondas de desvalorização do mercado financeiro brasileiro desde a implantação do Plano Real. Ibovespa 'queima' quase R$ um trilhão em uma semana após a eleição de Lula - Foto: IA Em apenas cinco pregões, a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) perdeu quase R$ 1 trilhão em valor de mercado, o dólar disparou mais de 9% e os juros futuros registraram uma forte elevação, diante da desconfiança dos investidores em relação à política econômica do próximo mandato petista. 921,80 pontos, acumulando uma queda de 18,12% na semana.
Saiba mais: Em última sessão de 'semana sangrenta', dólar volta a subir; Bolsa cai Foi o pior desempenho semanal desde março de 2020, quando os mercados financeiros mundiais entraram em colapso durante o início da pandemia de Covid-19. A dimensão da queda fica ainda mais evidente quando se observa a redução do valor das empresas listadas na Bolsa. Saiba mais: Efeito Lula: dólar dispara 12% e bolsa suspende negociações De acordo com levantamento da consultoria Elos Ayta, o valor de mercado das companhias negociadas na B3 passou de aproximadamente R$ 5,684 trilhões na sexta-feira, 23 de outubro, para R$ 4,721 trilhões nesta sexta-feira, 30.
] Saiba mais: BTG: vitória de Lula pode derrubar Ibovespa a 170 mil pontos e fazer dólar subir 15% O montante supera o valor de mercado da Petrobras, estimado em cerca de R$ 734 bilhões. Em outras palavras, a desvalorização das empresas brasileiras foi equivalente ao desaparecimento de uma Petrobras inteira, acrescida de aproximadamente R$ 229 bilhões. A dimensão do movimento evidencia a deterioração das expectativas dos investidores em relação ao Brasil.
Pior semana do Ibovespa desde a pandemia A queda do Ibovespa foi a quinta maior registrada em uma semana desde a implantação do Plano Real, em 1994. Saiba mais: A semana de sangue da Faria Lima O desempenho negativo ficou próximo ao observado durante alguns dos episódios mais graves da história recente dos mercados financeiros internacionais. Em outubro de 1997, durante a crise asiática, o Ibovespa caiu 22,17% em uma semana.
Em outubro de 2008, em meio à crise financeira internacional, a desvalorização semanal chegou a 20,01%. Em março de 2020, no início da pandemia, o índice recuou 18,88%. Agora, a Bolsa brasileira voltou a registrar uma queda superior a 18%, mas com uma diferença importante: desta vez, o principal fator doméstico foi a reavaliação das expectativas após o resultado das eleições presidenciais.
Saiba mais: Bolsa de Valores de São Paulo aciona circuit breaker após reeleição de Lula A reação começou imediatamente depois da confirmação da vitória de Lula sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL), no segundo turno realizado em 25 de outubro. Na segunda-feira, 26, primeiro pregão depois da eleição, o Ibovespa despencou e acionou o mecanismo conhecido como circuit breaker , que interrompe temporariamente as negociações quando as perdas atingem determinados limites. Naquele dia, o índice chegou a apresentar perdas superiores a 17% durante as negociações e encerrou a sessão com desvalorização de aproximadamente 13,9%.
A pressão continuou durante os quatro pregões seguintes. O resultado apagou grande parte da valorização acumulada ao longo do ano e representou a pior semana para o mercado acionário brasileiro em mais de seis anos. Dólar dispara e brasileiro perde poder de compra A crise não ficou restrita à Bolsa.
O dólar comercial encerrou a sexta-feira cotado a R$ 5,446, depois de subir 1,09% no último pregão da semana. Saiba mais: Ibovespa tem maior queda desde a pandemia de covid-19 No acumulado dos cinco dias, a moeda americana avançou 9,15%, registrando a maior valorização semanal desde outubro de 2008, durante a crise financeira internacional. A disparada representa uma forte desvalorização do real e afeta diretamente o poder de compra dos brasileiros.
Na sexta-feira anterior ao segundo turno, R$ 1 mil permitiam comprar aproximadamente US$ 199, considerando uma cotação próxima de R$ 5,00. Uma semana depois, com o dólar a R$ 5,446, os mesmos R$ 1 mil passaram a comprar aproximadamente US$ 184. Isso significa que, em apenas cinco pregões, o poder de compra em dólares de uma quantia fixa em reais caiu cerca de 8,4%.
O impacto não se limita a quem pretende viajar para o exterior. A alta do dólar encarece produtos importados, componentes industriais, equipamentos eletrônicos, medicamentos, máquinas e matérias-primas cotadas em moeda estrangeira. Também pode pressionar os preços dos combustíveis e dos alimentos, especialmente em setores cujos produtos possuem preços internacionais ou dependem de insumos importados.
A elevação cambial não é necessariamente repassada integralmente e de imediato ao consumidor. O efeito depende das condições de mercado, dos estoques, dos contratos e da política de preços das empresas. Mas a desvalorização do real amplia o risco de inflação e pode dificultar a redução dos juros.
A combinação é especialmente prejudicial para consumidores e empresas que dependem de crédito. Investidores estrangeiros retiram bilhões da Bolsa A saída de investidores estrangeiros contribuiu para aprofundar a queda. Segundo dados da B3, o mercado brasileiro registrou uma retirada líquida de aproximadamente R$ 7,6 bilhões de capital estrangeiro nos três primeiros pregões da semana.
O movimento ocorreu depois de um período de valorização dos ativos brasileiros, alimentado pela expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro. Durante a campanha, parte dos investidores passou a apostar em uma mudança de orientação econômica a partir de 2027, com maior compromisso com o controle dos gastos públicos, redução do risco fiscal e possibilidade de queda dos juros. A vitória de Lula contrariou essas expectativas.
O resultado foi uma revisão abrupta dos preços dos ativos brasileiros. Fundos de investimento, bancos e investidores institucionais passaram a reduzir posições em ações e a procurar proteção cambial. A mudança de expectativas também atingiu o mercado de juros futuros, elevando o custo de financiamento projetado para empresas e para o próprio governo.
Juros futuros disparam e pressionam empresas A alta dos juros futuros foi um dos fatores mais importantes para explicar a intensidade da queda das ações. A taxa dos contratos de Depósitos Interfinanceiros (DI) com vencimento em janeiro de 2031 passou de aproximadamente 12,64% para 15,3% durante a semana. A elevação representa um aumento expressivo do custo de capital esperado para os próximos anos.
Quando os juros sobem, os investidores passam a exigir retornos maiores para financiar empresas e comprar ações. Companhias endividadas, que dependem de crédito para financiar suas operações ou expandir seus negócios, tornam-se particularmente vulneráveis. Além disso, o aumento das taxas de juros reduz o valor presente dos lucros futuros, pressionando a avaliação das empresas na Bolsa.
Foi justamente o que aconteceu com setores como varejo, construção civil, locação de veículos, tecnologia e serviços. A disparada dos juros futuros também pode comprometer investimentos produtivos e retardar decisões de contratação. O efeito econômico, portanto, vai além das oscilações do mercado financeiro.
Empresas perdem mais da metade do valor em cinco dias A desvalorização atingiu praticamente todos os segmentos da Bolsa, mas foi especialmente intensa entre as empresas mais dependentes do mercado doméstico. Os papéis ligados ao crédito e ao varejo, mais sensíveis a juros, foram os mais castigados. Simpar e Movida perderam cerca de 70% na semana.
O Itaú encolheu R$ 109 bilhões em valor de mercado, dos quais R$ 75,9 bilhões só na segunda-feira. A Vamos, empresa de locação de caminhões, máquinas e equipamentos, perdeu aproximadamente 62,9% de seu valor de mercado durante a semana. O Magazine Luiza registrou queda de cerca de 58,2%.
A Cosan perdeu aproximadamente 55,2%, enquanto a C&A recuou 52,7%. Também registraram perdas superiores a 50% empresas como Hapvida, Cyrela e MRV. A Localiza, uma das maiores companhias de locação de veículos do país, caiu aproximadamente 46,9%.
O movimento atingiu igualmente o setor financeiro. A B3, administradora da própria Bolsa brasileira, registrou desvalorização superior a 43%, enquanto o BTG Pactual perdeu aproximadamente 35,6%. As quedas mostram como a elevação do risco fiscal e dos juros futuros pode afetar companhias de diferentes setores.
Empresas que dependem do consumo das famílias enfrentam o risco de crédito mais caro e menor demanda. Construtoras são pressionadas pelo aumento do custo dos financiamentos imobiliários. Companhias de locação de veículos e equipamentos sofrem com o encarecimento da dívida e a redução das expectativas de crescimento.
Já os bancos podem enfrentar mudanças na demanda por crédito, na inadimplência esperada e na avaliação de seus ativos. A dimensão da desvalorização revela uma revisão generalizada das expectativas para a economia brasileira. Nem todas as empresas perderam Embora o resultado geral tenha sido extremamente negativo, algumas companhias conseguiram encerrar a semana em alta.
A maioria das quais, exportadoras que se beneficiarão da alta do dólar podendo aumentar suas vendas no exterior. A fabricante de celulose Suzano liderou os ganhos, com alta de aproximadamente 17%, beneficiada pela valorização do dólar e pelas perspectivas para os preços internacionais da celulose. WEG e Embraer também registraram valorização superior a 10%.
TIM, Vale e Gerdau completaram a lista de companhias que conseguiram escapar das perdas. Companhias que recebem receitas em dólares e possuem parte relevante dos custos em reais podem se beneficiar de um câmbio mais elevado. Entretanto, esse efeito positivo não elimina os prejuízos provocados pela deterioração geral das condições financeiras.
Contas públicas agravam desconfiança A preocupação central dos investidores está relacionada à trajetória das contas públicas. Dados divulgados pelo Banco Central na quinta-feira, 29, mostram que os juros nominais do setor público consolidado atingiram R$ 1,205 trilhão no acumulado de 12 meses até setembro de 2026. O valor equivale a 8,99% do Produto Interno Bruto (PIB).
No mesmo período do ano anterior, a despesa com juros havia sido de R$ 984,8 bilhões. Isso significa que a conta de juros aumentou aproximadamente R$ 220 bilhões em apenas um ano. O déficit nominal do setor público, que considera o resultado primário e os juros, alcançou R$ 1,275 trilhão em 12 meses, equivalente a 9,51% do PIB.
A dívida bruta do governo geral chegou a R$ 11,1 trilhões, correspondentes a 82,9% do PIB. Os números ajudam a explicar a preocupação do mercado com a capacidade do governo de estabilizar o endividamento público. A preocupação central dos investidores, segundo analistas, é que a dívida pública siga em trajetória de alta no novo mandato, agravada pelas promessas de campanha, como a redução da jornada de trabalho.
Quanto maior a dívida e mais elevadas as taxas de juros, maior tende a ser a pressão sobre o orçamento federal. Essa dinâmica pode reduzir a capacidade de investimento do Estado e ampliar a necessidade de financiamento. O problema se torna particularmente sensível quando o governo anuncia novas despesas sem apresentar fontes permanentes e suficientes de financiamento.
Durante a campanha eleitoral, Lula defendeu medidas como a ampliação do Bolsa Família e programas de renegociação ou perdão de dívidas para microempreendedores individuais. Essas propostas aumentaram as dúvidas sobre a possibilidade de conciliar novas despesas com o controle do endividamento público. O governo sustenta que mantém compromisso com a responsabilidade fiscal.
Entretanto, a reação do mercado mostra que os investidores aguardam medidas concretas e maior previsibilidade
Resumo publicado pelo SJX NEWS. O conteúdo integral pertence ao veículo de origem.
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