Impacto financeiro de bets no SUS chega a R$ 30,6 bilhões por ano
O impacto financeiro por causa dos danos à saúde provocados pelas apostas online no Sistema Único de Saúde (SUS) é de R$ 30,6 bilhões por ano. O dado consta de estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS). Nessa conta, entram as despesas com tratamentos de depressão, ansiedade e impactos causado pelas mortes por suicídio.
Notícias relacionadas: Prevenção ao suicídio: profissionais de saúde destacam riscos com bets. Bets: quatro em cada dez mulheres apostam ou já apostaram online. Famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para bets em 2025.
Apenas 1% do valor arrecadado das operadoras de apostas é destinado ao Ministério da Saúde para minimizar esses danos. Nos últimos cinco anos, foi registrado um aumento de 140% na busca por atendimento no SUS por causa da dependência de apostas online e jogos de azar. De acordo com o diretor de Saúde Mental do Ministério da Saúde, Marcelo Kimati, o crescimento foi registrado em toda a Rede de Atenção Psicossocial.
Segundo ele, com foco nessa procura, foi lançado o serviço de teleatendimento voltado para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas. ” Diante da alta procura, a capacidade foi ampliada recentemente de 600 para até 100 mil teleatendimentos mensais, em parceria com a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS) . O diretor diz que outro indicativo do crescimento do problema com jogos e apostas vem da plataforma de autoexclusão , lançada pelo Ministério da Fazenda.
Foram bloqueados mais de 5 milhões de CPFs em sites de apostas online autorizados a operar pelo governo federal. Além de atingir atendidos pelo Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC) e pessoas em programas de renegociação de dívidas, mais de 1 milhão de usuários pediram autoexclusão . Nesse último caso, quase metade alegou problemas de saúde mental relacionados a apostas.
Ouça na Radioagência Nacional Há cerca de dois meses sem apostar, o vendedor Gustavo Pereira, de 24 anos, utilizou a plataforma de autoexclusão para evitar novas recaídas e se manter longe das bets. Morador de Lages, em Santa Catarina, ele começou a fazer apostas online aos 18 anos. Em um período de seis anos, chegou a perder meio milhão de reais por causa do vício.
Gustavo diz que a ferramenta de autoexclusão foi fundamental para que ele pudesse retomar o controle da situação. "Tive várias recaídas nesse processo, até chegar o momento da autoexclusão da plataforma. Pode-se dizer que essa ferramenta salvou minha vida.
Eu recuperei minha autoestima, recuperei a coragem de olhar nos olhos das pessoas, eu sou outra pessoa, o vício me transformou em outra coisa", lembra. O jovem começou a vender café nas ruas de Lages para recomeçar a vida após deixar de apostar em bets. Para o vendedor, a luta contra o vício deve ser constante.
" Gustavo Pereira começou a vender café nas ruas de Lages, em Santa Catarina, para recomeçar a vida após deixar de apostar em bets - Foto: Gustavo Pereira/Arquivo Pessoal Família O apoio familiar também é fundamental para quem precisa enfrentar o problema da dependência em jogos e apostas, afirma Carla Xavier*, de 41 anos, jogadora compulsiva. Frequentadora de um grupo de apoio para pessoas com problemas de jogo, a irmandade Jogadores Anônimos , ela está há mais de um ano longe do vício. “Eu não tinha mais controle de nada, eu queria sair do meu trabalho para jogar, eu queria ficar em casa para jogar, eu não queria fazer absolutamente mais nada, eu só queria jogar.
Nem dormir eu queria, eu só queria jogar”, lembra ela, que destaca o apoio que recebeu dos familiares para largar o vício. ”Quando a gente tem uma família que apoia, que entende o que a gente está passando, tudo fica mais fácil”, aponta, ao acrescentar que a parte mais difícil de buscar ajuda é entender que se trata de uma doença. "Uma compulsão, uma doença que você não entende que aquilo é uma doença.
Você acha que 'eu jogo, mas eu paro quando eu quero', mas não é assim. " A irmandade Jogadores Anônimos também presta apoio a familiares e amigos de jogadores compulsivos, por meio da organização JOG-Anon . “Nós temos uma sala, uma irmandade paralela que se chama JOG-Anon, que é para familiares.
Eles frequentam junto com a gente, mas na nossa sala só tem jogadores. Na sala de JOG-Anon só tem familiares, amigos, simpatizantes. ” Psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia - Foto: Mariana Kehl/Arquivo Pessoal Para a psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, a família tem que agir no momento em que perceber o problema da dependência em jogos e apostas.
Entre os sinais mais frequentes estão isolamento, mudanças de humor e gastos mais elevados. “Não se trata de esperar para ver. Trata-se de buscar ajuda qualificada e de buscar essa ajuda sem moralização porque a vergonha é justamente o que mantém esse sofrimento em silêncio”, diz.
O psiquiatra forense e diretor da Vida Mental Perícias, Hewdy Lobo, destaca a permissividade familiar no controle do tempo de jogo de crianças e adolescentes como um dos fatores que podem levar ao vício em jogos. Para a especialista em direito digital Luana Mendes, conhecida como Dra. Gamer, não é o relógio, mas o comportamento que determina a dependência.
”Se a criança deixa de dormir adequadamente, começa a ter prejuízo escolar, abandona outras atividades, abandona os coleguinhas ou apresenta uma sensível perda de controle, de não conseguir ficar sem o jogo, os responsáveis precisam intervir e, quando necessário, procurar u
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