Juros americanos continuam escalada: taxas de 10 anos se consolidam no maior nível desde 2007
Quem tem 20 anos nunca viu as taxas dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos no nível em que estão agora. As Treasuries seguem ultrapassando marcas históricas. E isso tem impactos no mercado brasileiro, como não se veem também há muitos anos.
Nesta sexta-feira (25), a taxa do título americano de 30 anos atingiu 5,472% ao ano, no maior nível desde 2004, ou seja, em 22 anos. Já o papel de 10 anos, que serve como uma referência para os custos do financiamento imobiliário nos EUA, subiu para 5,169%. Trata-se do patamar mais elevado desde julho de 2007.
Os juros americanos vivem uma escalada nos últimos dois meses. O motor tem sido a crescente aposta dos investidores de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) promoverá um novo aperto monetário em outubro. O vencimento de 2 anos, que é um dos mais sensíveis às decisões do Fed, está estável em 4,881% ao ano, na máxima desde meados de 2024.
Leia também Investimentos Presidente do Fed explica por que o juro voltou a subir e mercado passa a prever nova alta neste ano Na renda fixa, quando a taxa sobe significa que o preço do título recuou, ou seja, os investidores com esses títulos na carteira veem o saldo em dólar recuar. Mudança de fluxo Os juros de longo prazo nos EUA tem reagido a uma combinação de dados econômicos americanos acima do esperado, declarações mais duras de dirigentes do Fed e alta nos preços do petróleo. Diante desse cenário, a probabilidade de uma nova elevação de juros pelo Fed na reunião de outubro subiu de cerca de 55% na semana passada para 70%, segundo a ferramenta FedWatch do CME Group.
Para a economia brasileira, essa alta generalizada nas taxas americanas funciona quase que como um choque externo. Isso porque o movimento de juros em elevação lá fora passa atrair o capital global de volta para a renda fixa dos Estados Unidos. Leia também Investimentos Rendimento do título de 10 anos dos EUA acima de 5,25% pode mudar relação entre ações e títulos.
Entenda E, como consequência, os investidores exigem prêmios maiores no Brasil, o que empurra para cima as taxas dos contratos de juros futuros. Essa subida encarece o crédito para empresas e aos consumidores. Os juros futuros sobem nesta sexta-feira com a pressão externa, mas, principalmente em reação ao IPCA-15 mais elevado do que o esperado.
O índice avançou 0,70%, contra os 0,53% projetados pelo mercado. No ano, o IPCA-15 acumula alta de 3,82% e, em 12 meses, de 4,47%. O maior impacto veio de Habitação, com alta de 2,07%.
O dado reforça a leitura de que o Banco Central terá menos espaço para acelerar os cortes da Selic, hoje em 13,75% ao ano. Por volta de 10h20, a taxa dos contratos futuros de DI com vencimento em janeiro de 2029 subia 0,69% para 13,89% ao ano. Já os juros futuros de DI para janeiro de 2030 subiam 0,57% a 14,015% ao ano.
O dólar também ganha força com um fluxo maior de recursos para o mercado americano. A moeda americana tinha alta de 0,13% ante o real cotada a R$ 5,1985. Um dólar mais forte pode pressionar a inflação no Brasil ao encarecer insumos e produtos importados.
Em um cenário no qual os preços voltem a subir de maneira persistente, o Banco Central terá menos espaço para cortar a taxa Selic. Leia também Investimentos Escalada de juros nos EUA eleva taxas do Tesouro IPCA+ no Brasil Juros mais altos em todo o mundo Se as expectativas para os juros brasileiros voltarem a se inclinar para a visão de um período mais longo de taxas elevadas, as condições financeiras vão continuar mais duras, o que pode afetar o crédito e aumentar a vulnerabilidade das empresas mais endividadas. Um cenário de juros altos por ainda mais tempo pode puxar a bolsa para baixo e manter a renda fixa em evidência no Brasil.
O estresse nos mercados de dívida se espalhou globalmente. No Japão, o rendimento do JGB de 10 anos atingiu o nível mais alto desde agosto de 1996, enquanto na Europa os gilts do Reino Unido e os bunds da Alemanha registraram altas expressivas, levando diversos títulos do continente às máximas em anos. Analistas têm apontado que o avanço recente das taxas já não pode ser atribuído apenas a preocupações com o déficit orçamentário nos EUA.
Há, na verdade, um conjunto de fatores desfavoráveis, como pressões fiscais, econômicas, geopolíticas e uma inflação que persiste bem acima da meta. Um Fed mais duro? Com esse pano de fundo, os investidores se questionam sobre se o Fed começa a caminhar para um ciclo mais intenso de alta de juros.
Essa mudança de expectativas sobre a inflação futura vêm se refletindo, justamente, no aumento do juro americano de longo prazo. No curto prazo, a nova realidade dos juros globais vai significar duas coisas para os mercados locais: taxas mais elevadas por mais tempo e muita volatilidade . Para quem já tem títulos atrelados à inflação ou prefixados na carteira, o melhor é segurar a ansiedade e aguardar até, pelo menos, o próximo ano, quando as eleições já vão ter passado e as políticas do novo governo ficarão mais claras.
Um estudo do BTG Pactual mostra que o cenário externo pode contribuir com até 40% de peso no comportamento dos juros brasileiros de longo prazo. ]]>
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