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    Lula promete o passado
    Revista Oeste·24 de out., 22:00

    Lula promete o passado

    Luiz Inácio Lula da Silva nunca economizou nas promessas. Uma de suas mais notórias bravatas virou símbolo da campanha de 2022: o brasileiro voltaria a comer picanha e tomar cerveja. Quatro anos depois, a cerveja acumula alta de cerca de 17% desde a posse e o preço da picanha voltou a subir depois de cair no começo do mandato.

    No primeiro semestre deste ano, aumentou mais de 10% e continua longe da mesa da grande maioria dos brasileiros que, sufocados por dívidas, chegam a pagar uma pizza à prestação. A picanha foi prometida por um partido que, depois de quatro mandatos na Presidência, ainda não havia conseguido acabar com a fome. A promessa acompanha Lula desde sua primeira candidatura.

    Lula disputou três eleições, em 1989, 1994 e 1998, prometendo a mesma coisa: “erradicar” a fome. Na campanha que finalmente o levou ao Planalto, em 2002, insistiu: “É possível erradicar a fome”. Mesmo depois da criação dos programas Fome Zero e Bolsa Família, principais bandeiras do novo governo, a promessa permanecia em 2006: o PT dizia que “continuará avançando na erradicação da fome”.

    A vitória foi cantada antes que a promessa fosse cumprida. Em 2008, Lula proclamava que o país havia antecipado a meta de reduzir pela metade a pobreza extrema. Dilma chegou ao Planalto prometendo “erradicar a pobreza absoluta”.

    Em 2014, os governos petistas comemoraram a saída do Brasil do Mapa da Fome da ONU. No discurso, passou despercebida a estatística que ainda contava 3,4 milhões de brasileiros subalimentados. Dois anos depois, ao fim do governo Dilma, o IBGE encontrou 52 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza.

    Em 2018, o programa de Fernando Haddad voltou a citar o Mapa da Fome e atribuía a volta do problema a Michel Temer. Em 2022, o culpado passou a ser Jair Bolsonaro, e Lula ressuscitou a promessa de garantir “novamente” três refeições por dia. Lula voltou ao Planalto e, em abril deste ano, o próprio PT publicou o texto Como o Governo Lula acabou com a fome, uma herança de Bolsonaro .

    Era a segunda vez que o partido anunciava ter vencido a fome que prometia erradicar desde 1989. + Leia mais: Entenda o que é a política no Brasil em Oeste A proclamação da vitória convive com dados indigestos. Em 2024, 18,9 milhões de domicílios — 24% do total — ainda enfrentavam insegurança alimentar.

    Em 2,5 milhões deles, a situação era considerada grave. A fome continua no programa eleitoral deste ano. Depois de prometer erradicá-la, anunciar que havia vencido o problema, atribuir sua volta aos adversários e anunciar uma segunda vitória, o PT chega a 2026 prometendo “continuar” o combate à fome Luiz Inácio Lula da Silva, candidato do Partido dos Trabalhadores à Presidência da República, durante comício de campanha para as eleições de 1989, em Maceió | Foto: Leonardo Castro/Estadão Conteúdo “Erradicar” era um verbo bastante popular no primeiro programa presidencial de Lula.

    Em 1989, ele também aparecia diante do analfabetismo. Cinco anos depois, o PT queria “superá-lo de vez”. Em 1998, propôs um mutirão para “acabar” com o problema.

    A promessa desapareceu justamente do programa que o elegeu, em 2002. Voltou em 2006, com a “superação do analfabetismo”. Lula venceu novamente e passou a faixa a Dilma Rousseff, que em 2010 voltou a prometer “erradicar” o problema.

    Em 2014, o tema sumiu novamente do programa. Quatro anos depois, a ambição era outra: o PT propôs “retomar a centralidade das ações de redução do analfabetismo”. Era difícil cobrar o cumprimento, pois primeiro seria preciso descobrir o que a frase prometia.

    A promessa sumiu outra vez em 2022, justamente na eleição que levou Lula de volta à Presidência. Já em 2026, o programa promete “continuar” fortalecendo políticas de “enfrentamento do analfabetismo”. Depois de prometer erradicar, “superar de vez” e acabar com o analfabetismo, o PT chegou a 2026 prometendo apenas enfrentá-lo.

    O problema, afinal, continua longe de ser erradicado. Em 2025, 8,4 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais ainda não sabiam ler e escrever. A conta não inclui o analfabetismo funcional: em 2024, atingia 29% dos brasileiros de 15 a 64 anos, ante 27% em 2015.

    Lula visita favela em Osasco (SP); saneamento básico é mais uma promessa da campanha deste ano | Foto: TikTok/Reprodução Se “erradicar” virou “enfrentar” na educação, no saneamento o PT conservou uma ambição maior: “universalizar”. A promessa vem desde 1989. Cinco anos depois, a universalização já era “meta central”: até 1998, toda a população urbana deveria ter água e 70%, coleta de esgoto.

    Lula chegou ao Planalto em 2003 e, quatro anos depois, seu programa falava em “dar continuidade” aos investimentos. Ao deixar a Presidência, entregou a Dilma um “esforço de universalização” ainda em andamento. Em 2014, depois de mais quatro anos de governo petista, ela prometeu “perseguir a universalização do saneamento básico”.

    A perseguição foi longa. Em 2018, o PT prometia “avançar” na universalização. Lula voltou ao Planalto em 2023 e chegou a 2026 com uma formulação familiar: “continuaremos” a “perseguir o objetivo” de universalizar água tratada e esgoto.

    Depois de décadas de perseguição, o objetivo continua distante. Em 2023, a rede coletora atendia 59,7% dos brasileiros. Na zona rural, apenas 5,6%.

    O prazo para resolver o problema veio de uma lei à qual o PT se opôs. O Marco Legal do Saneamento, aprovado em 2020, estabeleceu que 99% da população tenha água potável e 90%, coleta e tratamento de esgoto até 2033. O partido votou contra a lei e depois tentou derrubá-la no STF.

    Para cumprir a meta de esgoto, a cobertura precisaria crescer mais de quatro vezes mais rápido que entre 2018 e 2022. Mantido aquele ritmo, a universalização chegaria por volta de 2070. Tempo suficiente para a promessa completar 81 anos.

    Além de não conseguir levar água e esgoto a todas as casas, o PT esbarra num problema ainda mais básico: para milhões de brasileiros, falta a própria casa. Em 1989, Lula já prometia investir “maciçamente” em moradias populares. Em 1998, colocou um número na promessa: 1 milhão de casas para famílias de baixa renda.

    Quando finalmente venceu, em 2002, apresentou o Projeto Moradia para enfrentar o “enorme déficit habitacional”. Em 2009, surgiu o Minha Casa, Minha Vida. No ano seguinte, Dilma Rousseff prometeu mais 2 milhões de moradias.

    Em 2014, porém, o déficit ainda precisava ser “equacionado”. Em 2018, o PT voltou a prometer 2 milhões de casas. O programa cresceu, mas o déficit também.

    Entre 2011 e 2019, segundo avaliação do Ministério da Economia, o número de moradias que faltavam no país aumentou 9%, de 5,6 milhões para 6,1 milhões. Em 2022, já eram 6,2 milhões. Lula retomou o Minha Casa, Minha Vida em 2023.

    Agora, o programa de 2026 promete mantê-lo e ampliá-lo para enfrentar um déficit maior que o existente antes da criação do próprio programa. No campo, Lula prometeu reforma agrária | Foto: Luiz Prado/Estadão Conteúdo E, antes de construir uma casa, é preciso ter onde colocá-la. No campo, a promessa de distribuir terra é ainda mais antiga.

    Em 1989, Lula prometia “acabar com o latifúndio”. Cinco anos depois, o PT prometeu assentar 800 mil famílias em quatro anos. Em 1998, elevou a meta para 1 milhão.

    Lula perdeu as três eleições e chegou ao Planalto em 2003 com a reforma agrária ainda entre suas principais promessas. Depois de quatro anos de governo, o programa de 2006 ainda prometia uma reforma “ampla, massiva e de qualidade”. Ao fim dos oito anos de Lula, Dilma já falava em “dar prosseguimento à reforma agrária em curso”.

    Em 2014, o programa nem apresentou uma nova meta. A promessa voltou “ao centro da agenda pública nacional” em 2018 e reapareceu em 2022. Lula venceu, mas passou 2023 e 2024 sem desapropriar terras para a reforma agrária.

    Na hora de desapropriar, a reforma “ampla” e “massiva” encolheu bastante. Segundo o Incra, os governos do PT desapropriaram 4,7 milhões de hectares até 2016. Fernando Henrique Cardoso, em oito anos, desapropriou 10,2 milhões — mais que o dobro.

    Ainda assim, 37 anos depois de prometer “acabar com o latifúndio”, Lula chega a 2026 prometendo “continuar a avançar” na reforma agrária e assentar as famílias acampadas. Lula durante a Caravana da Cidadania de 1993, em Sergipe | Foto: Protásio Nene/Estadão Conteúdo Boa parte dessa história passa pelo Nordeste, que concentrava quase metade dos assentamentos de reforma agrária do país em 2014. A região também ocupa um lugar especial na trajetória de Lula: pernambucano, ele fez dali seu maior reduto eleitoral e recebeu 69,3% dos votos válidos no segundo turno de 2022.

    As promessas para a região vêm desde sua primeira campanha. Em 1989, Lula já propunha diminuir os desequilíbrios regionais. Cinco anos depois, o Nordeste deveria ser prioridade das políticas nacionais.

    Ao chegar ao Planalto, prometeu criar um Conselho e um Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional e recuperar a capacidade de planejamento da Sudene. Quatro anos depois, o fundo ainda precisava ser aprovado e a superintendência, recriada. As duas propostas reapareceram no programa de 2006.

    A transposição do Rio São Francisco é um exemplo visível. As obras começaram em 2007, no segundo governo Lula, com conclusão prevista para 2012. O prazo venceu durante o primeiro mandato de Dilma.

    Ela terminou aquele governo, começou outro e deixou a Presidência em 2016 com a transposição incompleta. Os dois principais eixos só ficaram prontos em 2022, sob Bolsonaro. As promessas continuaram.

    Em 2014, depois de 12 anos de governos petistas, Dilma prometia reduzir “radical e estruturalmente” as desigualdades regionais. O tema reapareceu em 2018 e 2022. Em 2026, o programa ainda busca o “equilíbrio territorial”.

    O caminho continua longo. Segundo o Ipea, em 1995 o PIB por habitante do Nordeste estava 58% abaixo da média brasileira. Décadas depois, a diferença ainda era de 53%.

    Nesse ritmo, calcula o instituto, a região só chegaria a 75% do PIB per capita nacional por volta de 2074. Até lá, haverá outras doze eleições presidenciais. Tempo de sobra para o PT continuar prometendo o que já prometia em 1989.

    Leia também: “Desespero eleitoral” , reportagem de Yasmin Alencar publicada na Edição 342 da Revista Oeste O post Lula promete o passado apareceu primeiro em Revista Oeste . ]]>

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