Militante do PCO diz que 8 de Janeiro foi ‘no máximo vandalismo’ e critica repressão da esquerda
Trotskista, militante do Partido da Causa Operária (PCO), de extrema esquerda, e crítica de Jair Bolsonaro, Izadora Dias adota uma posição incomum no campo político ao qual pertence quando o assunto é o 8 de Janeiro . "O 8 de janeiro foi, no máximo, um ato de vandalismo", afirmou a ex-candidata do PCO ao governo de São Paulo, em entrevista a Oeste . " Aos 31 anos, Izadora também contesta a interpretação, predominante entre partidos de esquerda, de que o bolsonarismo deva ser tratado como um movimento fascista.
Izadora avalia que a tentativa de isolar o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores produziu o efeito contrário, isto é, inflou o apoio a esse movimento político. "A perseguição a Bolsonaro fez a popularidade dele aumentar", disse. "Mas não que não haja convergência com a população trabalhadora.
O bolsonarismo é um movimento popular com apoio de trabalhadores que defendem suas famílias, sua religião. O Brasil é, em sua maioria, um país mais conservador. " A posição contraria o entendimento adotado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) nos processos relacionados aos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023.
Em balanço divulgado em abril deste ano, a Corte informou ter responsabilizado 1,4 mil pessoas nos processos decorrentes dos atos e das investigações sobre a suposta tentativa de golpe. O tribunal também condenou integrantes dos chamados núcleos principais por crimes como golpe de Estado, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e organização criminosa. Izadora conhece essa interpretação, entretanto, a rejeita.
Leia mais: "USP vê 71,9 mil pessoas em ato pró-Flávio na Paulista" Ao falar dos condenados e investigados, a militante do PCO chama atenção para o perfil de parte das pessoas processadas e penas aplicadas. Cita trabalhadores, mulheres, idosos e casos que ganharam repercussão nacional, como o de Débora Rodrigues dos Santos, conhecida como "Débora do batom". Na avaliação da ex-candidata, a repressão aos envolvidos no episódio criou um sentimento de perseguição entre os apoiadores de Bolsonaro.
"Há sofrimento", afirmou. "O bolsonarismo olhou para isso e radicalizou. A Débora é mãe de duas crianças, por exemplo.
" Nascida em Barra Bonita, no interior de São Paulo, Izadora mudou-se para a capital paulista em 2016. Estuda Letras na Universidade de São Paulo (USP) e se filiou ao PCO em 2018. Ela integra a estrutura nacional da legenda e atua no Coletivo de Mulheres Rosa Luxemburgo.
Foi dentro do partido que, segundo ela, passou a estudar de forma episódios históricos como a ditadura militar, o impeachment de Dilma Rousseff, que considera um golpe, e conceitos como fascismo e formas de transição política. Leia mais: "PCO rejeita Lula e orienta voto nulo " "Por estudamos o que é o fascismo que não entramos nessa campanha maluca que afirma que Bolsonaro é fascismo, de que o mundo vai acabar", ressalta, ao falar sobre o pensamento da esquerda brasileira. " Izadora se define como marxista e trotskista.
A tradição política ajuda a explicar parte das divergências entre o PCO e outros partidos da esquerda brasileira, um deles o PT. A estudante disse que o PCO nunca teve grandes expectativas no governo Lula. E afirmou que "foi pior do que imaginava, repressivo e não resolveu nada em relação ao desenvolvimento econômico".
De acordo com a militante, as políticas de reforma e os auxílios não têm resolvido os problemas econômicos do país. No segundo turno de 2026, o distanciamento aumentou. Ao contrário de outras siglas da esquerda, o PCO decidiu não apoiar Lula na disputa contra o senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL).
O grupo orientou seus militantes a votar nulo. Em 2022, o partido havia apoiado o petista. 'O bolsonarismo é um movimento popular', diz integrante do PCO As diferenças entre PCO e PT, segundo Izadora, aparecem já na formação das duas organizações.
Rui Costa Pimenta, atual presidente do PCO, participou da fundação do PT antes do rompimento que daria origem à legenda trotskista. Para Izadora, uma das divergências está na importância atribuída às eleições e às instituições. "Não acreditamos que as eleições resolvem tudo", acrescentou.
Izadora inclui em sua análise que o PT se afastou dos trabalhadores e sofreu uma invasão da "burguesia e da classe média". Essas divergências resultaram na expulsão do grupo que depois formaria o PCO. Ela também contesta a estratégia adotada pelo PT de apresentar a preservação das instituições como uma das principais barreiras contra a direita.
"A esquerda, para se manter na conciliação com a burguesia, deixaram de lado as críticas tradicionais ao Judiciário", disse. " Sobre isso, acredita que "a burguesia não gosta de movimentos populares". Dessa maneira, Izadora explica que há uma tentativa de "sufocar" movimentos da esquerda e da direita populares.
Na definição de Izadora, fazem parte dessa estrutura de poder grandes grupos empresariais, instituições financeiras, setores do Judiciário e grandes veículos de comunicação. Ela sustenta que, ao se aproximar dessas instituições para enfrentar Jair Bolsonaro, parte da esquerda assumiu o papel de defensora desses grupos e instituições, que a integrante do PCO classifica como "burguesia". "São instituições que não são levadas mais a sério pela população", pontuou.
Leia também: "Influenciadora brasileira é detida no Egito por ‘comportamento obsceno’" Nesse ponto, a análise de Izadora coincide, em alguns aspectos, com críticas feitas pela própria direita ao STF, ainda que de campos ideológicos distintos. De acordo com Izadora, a esquerda erra quando trata esse eleitorado apenas como uma massa manipulada ou ideologicamente inferior. Conforme sua avaliação, repressão judicial e política pode fortalecer justamente o movimento que se pretende combater.
O distanciamento em relação ao PT não leva, porém, a um apoio a Flávio Bolsonaro. Izadora afirma que, em caso de vitória de Lula, o PCO vai manter a oposição ao governo, especialmente nas questões econômicas, na relação com o STF e no que o partido chama de "política de censura". Já no cenário de vitória de Flávio Bolsonaro, a avaliação também será feita a partir da oposição.
+ Entenda mais sobre Política em Oeste "Não sabemos o que esperar do governo Bolsonaro", disse. Para ela, uma eventual administração de Flávio seria pressionada pelo sistema financeiro e herdaria o conflito institucional em torno do Supremo. Ela acrescentou que os dois governos seriam "difíceis".
No caso de Lula, o desafio estaria em governar com um Congresso Nacional mais à direita . O grande destaque do primeiro turno das eleições deste ano foi o Partido Liberal (PL). A sigla se tornou a maior força política em ambas na Câmara dos Deputados e no Senado Federal para a legislatura que se inicia em 2027.
A ex-candidata diz que uma vitória da direita também colocaria os bolsonaristas diante de um teste. "Acho que agora é a hora de os bolsonaristas mostrarem se são mesmo contra arbitrariedades jurídicas, se são a favor da liberdade de expressão", questionou Izadora. v=Q5NZ5eMzzAQ A ruptura com a esquerda identitária A disposição de confrontar posições majoritárias dentro da esquerda ficou evidente em outro episódio da campanha.
Em 30 de setembro, durante um debate promovido pela Associação Paulista de Saúde Pública na Faculdade de Saúde Pública da USP, Izadora defendeu que o sistema prisional feminino seja organizado de acordo com o sexo biológico. A candidata afirmou que mulheres presas poderiam ficar vulneráveis diante da presença de detentas trans e defendeu a criação de espaços separados caso exista risco de violência contra transexuais. A militante acrescentou que, antes de falar sobre mulheres, era necessário definir o que é mulher.
A declaração provocou reação imediata de estudantes e dos demais participantes. Integrantes do centro acadêmico acusaram Izadora de transfobia, parte da plateia deixou o auditório e o encontro terminou em meio a uma discussão. A Faculdade de Saúde Pública, a associação responsável pelo evento e representantes estudantis publicaram posteriormente notas de repúdio às declarações.
pco) Segundo Izadora, participantes chegaram a acionar a polícia depois da discussão. Os agentes não compareceram, mas orientaram o registro de uma ocorrência online, de acordo com os relatos publicados sobre o episódio. A reação, para ela, expôs uma contradição.
"Justo eles, que são contrários à instituição policial, foram os primeiros a chamar a polícia contra uma mulher", afirmou. Izadora diz sofrer mais pressão de setores da própria esquerda por suas posições sobre sexo e gênero do que de adversários políticos tradicionais da direita. usp) Ver esta publicação no Instagram Uma publicação partilhada por Associação Paulista de Saúde Pública (@apsp_informa) Na visão dela, o avanço do chamado identitarismo afastou partidos de esquerda de questões econômicas e da organização dos trabalhadores.
Izadora sustenta ainda que parte dessas pautas ganhou espaço institucional dentro do próprio governo Lula. "Consideramos que o identitarismo é um movimento financiado e que há pessoas defensoras do identitarismo infiltradas neste governo", disse. " Izadora lembrou que o Psol, legenda da deputada federal Erika Hilton, foi um dos partidos que ficou de fora da cláusula de barreira , o que resultou na perda dos recursos do fundo partidário.
Izadora atribuiu essas mudanças ao "declínio" das pautas identitárias. Leia mais: "A feminista que virou alvo do movimento trans" , entrevista de Edilson Salgueiro publicada na Edição 283 da Revista Oeste A militante do PCO também comparou o conflito atual entre setores trotskistas e a esquerda identitária às disputas históricas entre stalinistas e trotskistas. O resultado das eleições de 2026, segundo ela, expôs o desgaste dessa estratégia.
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